Não há uma ‘Ferrovia do Sol’ sendo construída pelo governo Bolsonaro no Nordeste

Por Luiz Fernando Menezes

6 de outubro de 2020, 16h08


É falso que o governo federal está construindo a Ferrovia do Sol, uma estrada de ferro que ligaria todo o litoral nordestino, como afirmam postagens nas redes (veja aqui). O Ministério da Infraestrutura negou a existência da obra. A ideia da ferrovia surgiu em 2013 em um blog especializado em viagens e agora tem sido encampada pelo senador Roberto Rocha (PSDB-MA) como um projeto de seu mandato, embora faltem indícios de que a obra vá sair do papel.

Peças que trazem a falsa informação circulam desde o fim de setembro e acumulam ao menos 2.900 compartilhamentos no Facebook. Todas elas foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

PARA SIMPLES INFORMAÇÃO, JÁ QUE A GRANDE MÍDIA MARROM NÃO INFORMA, NÓS INFORMAMOS: NOTÍCIA EXTRAORDINÁRIA: Vem aí a FERROVIA DO SOL. Projeto do governo federal e parcerias, que vai revolucionar o turismo e a economia da região nordeste. Trata-se de um circuito ferroviário completo, com 9 estações de última geração, interligando toda a região Nordeste pelo litoral.

Circula nas redes sociais a informação de que o governo federal estaria construindo uma linha ferroviária que ligaria todo o litoral nordestino, a Ferrovia do Sol. A obra, no entanto, não existe: em nota enviada ao Aos Fatos, o Ministério da Infraestrutura negou que esteja envolvido em projeto semelhante.

A primeira menção à Ferrovia do Sol aparece no blog Viaje de Trem em junho de 2013. A publicação, intitulada “Trilhos imaginários do Brasil 1 - Ferrovia do Sol”, imaginava como seria uma linha que saísse de Fortaleza (CE), passasse por todo o litoral nordestino e chegasse a Salvador (BA). “Claro que ela teria que passar por avaliações técnicas e ambientais. Mas se fosse concretizada, seria um sonho turístico, ligando as capitais nordestinas”, afirma a publicação.

Quatro meses depois, o Diário do Nordeste publicou uma notícia de que a Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) teria assinado um termo de cooperação com a ANTT (Agência Nacional de Transporte Terrestre) para começar estudo de um projeto chamado Trem do Sol, muito semelhante ao idealizado pelo blog.

Aos Fatos procurou os dois órgãos em busca atualizações sobre esse empreendimento. AANTT, por telefone, afirmou que não possui nenhuma informação sobre o projeto. Já o Ministério do Desenvolvimento Regional, ao qual o Sudene é vinculado, afirmou que "a cooperação técnica não teve prosseguimento" e que "atualmente, há discussões para que a Superintendência retome os estudos de viabilidade da 'Ferrovia do Sol'".

A última informação pública disponível sobre o empreendimento é de 2015 e fala de uma reunião de lideranças da Sudene com o secretário de Turismo do Rio Grande do Norte em que planos para a ferrovia foram abordados. Na época, foi discutida a necessidade de estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental para a implantação e exploração da linha férrea e o custo da obra chegou a ser estimado em R$ 10 bilhões.

O projeto voltou a ser citado em setembro deste ano em publicações do senador Roberto Rocha (PSDB-MA), que anunciou: “Vem aí a Ferrovia do Sol! Um circuito ferroviário completo que vai integrar os principais pólos regionais. (...) Serão 2.200 km, conectando nove estações de arquitetura grandiosa, impactante, onde o passageiro embarque e desembarque com todas as facilidades”. O vídeo, no entanto, mostra apenas a ideia encampada pelo parlamentar, não uma obra federal em andamento.

Contatada por Aos Fatos, a assessoria de Rocha afirmou que “o projeto da Ferrovia do Sol é de iniciativa do senador, e não do governo federal” e que a etapa atual é a viabilização de recursos junto da União e classes políticas dos estados envolvidos na obra.

O Boatos.org também desmentiu esta peça de desinformação.

Referências:

1. Viaje de Trem
2. Diário do Nordeste
3. Sudene
4. YouTube (Roberto Rocha)


Esta checagem foi atualizada às 17h50 do dia 6 de outubro de 2020 para acrescentar a resposta da ANTT e do Ministério do Desenvolvimento Regional.

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