Não há indícios de que rompimento em barragem da transposição no Ceará foi sabotagem

Por Priscila Pacheco

2 de setembro de 2020, 17h45


Não há evidências de que o rompimento de um dos dutos da barragem de Jati, no Ceará, tenha sido provocado por sabotagem ou atentado a bomba, como sustentam publicações nas redes sociais (veja aqui). Apesar de a perícia técnica na estrutura da transposição do rio São Francisco ter começado nesta terça-feira (1º), o Ministério do Desenvolvimento Regional e as autoridades cearenses afirmaram que não encontraram indícios de sabotagem ou uso de explosivos.

Segundo a Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará, uma das hipóteses consideradas é a de que a tubulação se rompeu pela força da água em uma emenda entre o cano de aço e de concreto. Essa possibilidade já foi corroborada por um técnico do governo federal em entrevistas recentes à imprensa.

O incidente em Jati ocorreu em 21 de agosto, um dia depois de o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, abrir a comporta que libera água da barragem. Cerca de 2.000 pessoas tiveram que deixar suas casas preventivamente.

No Facebook, a desinformação começou a circular logo após o incidente. Postagens com esse conteúdo reuniam ao menos 5.654 compartilhamentos nesta quarta-feira (2) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

Colocaram uma bomba na barragem de captação de águas do Rio São Francisco em Jati no Ceará

Sem provas, publicações nas redes sociais passaram a afirmar que o rompimento de um duto da barragem de Jati no eixo norte da transposição do São Francisco teria sido resultado de sabotagem por meio de atentado a bomba. A alegação, que circula desde o incidente no Ceará, em 21 de agosto, não se sustenta, de acordo com o que as autoridades federais e estaduais já descobriram até agora sobre o caso.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Regional, pasta responsável pelo empreendimento, nenhum dos indícios reunidos até o momento apontam que o vazamento tenha sido provocado por explosivos ou sabotagem. Na semana passada, técnicos da Defesa Civil Nacional, da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), do Crea-CE (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Ceará) e da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) visitaram o local do incidente para avaliação.

A causa definitiva do rompimento do duto, porém, só deve ser conhecida após a perícia técnica contratada pela Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) concluir a análise, que foi iniciada nesta terça-feira (1º). O prazo para o serviço é de 21 dias.

As secretarias de Segurança Pública e de Recursos Hídricos do Ceará também descartaram que o incidente em Jati tenha a ver com atentados ou sabotagem.

A SSPDS (Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social) do Ceará disse em nota que não recebeu nenhuma denúncia nem obteve indícios de que o vazamento na tubulação, localizada na AIS 19 (Área Integrada de Segurança 19) do estado, tenha sido criminoso.

A SRH (Secretaria de Recursos Hídricos) do estado também desconhece a existência de sabotagem. Por telefone, a assessoria de imprensa do órgão afirmou que o incidente foi causado pela força da água na emenda entre o cano de aço e de concreto.

Tal hipótese chegou a ser citada pelo engenheiro Tiago Portela, coordenador de obras e fiscalização do Ministério do Desenvolvimento Regional. Ele disse ao G1 e ao Diário do Nordeste que “o rompimento foi uma onda de pressão muito grande”. Segundo o engenheiro, a vazão de água que passava era estimada em 6 ou 7 metros cúbicos por segundo. Após o rompimento, a água saiu de forma descontrolada entre 60 e 70 metros cúbicos por segundo. Aos Fatos solicitou uma entrevista com Portela, mas não teve retorno.

O rompimento na barragem ocorreu na tarde de 21 de agosto na tubulação que permite a passagem das águas do reservatório para o trecho do eixo norte da transposição em direção à Paraíba e ao Rio Grande do Norte. O incidente aconteceu um dia depois de o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, abrir a comporta que libera água.

O volume da água atingiu a rede elétrica da região e foi necessário instalar um gerador para fechar a comporta e desligar as estações de bombeamento. Cerca de 2.000 pessoas que moram a até dois quilômetros de distância da área atingida foram retiradas por medida de segurança.

Logo após o incidente, uma análise feita por técnicos e engenheiros do governo federal e das empresas responsáveis pelas obras constatou que a infraestrutura principal não fora danificada. Os reparos no talude da barragem terminaram no domingo (30).

Esta peça de desinformação também foi checada por Boatos.org e Projeto Comprova.

Referências:

1. Ministério do Desenvolvimento Regional (Fontes 1, 2 e 3)
2. O Povo
3. Diário do Nordeste
4. G1 (Fontes 1 e 2)
5. Boatos.org
6. Projeto Comprova


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