Combate à desinformação sedimenta conclusões da CPMI do 8 de Janeiro

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Aviso: este texto é uma análise e foi publicado originalmente na newsletter O Digital Disfuncional.

É bastante comum que haja questionamentos sobre a eficácia do formato de jornalismo que se convencionou chamar checagem de fatos — ou fact-checking, para os anglófilos —, sobretudo em momentos de crise. Se a poeira da guerra descredibiliza fontes de lados opostos, se o apreço pela democracia de parte dos tomadores de decisão nunca foi dos mais sólidos ou se a engenharia de redes e aplicativos distribuidores de informação não favorece fatos verificáveis, não importa muito: pessoas de diferentes lados do espectro político continuam acreditando em mentiras.

Apontar o fracasso de um movimento legítimo de combate sistêmico à desinformação é bastante injusto, e não porque não haja necessidade de melhora contínua. Sempre há. A questão é que julgamento semelhante não é costumeiramente feito em direção a áreas percebidas como mais nobres na indústria. Exemplo disso é que jornalistas não deixam de investigar fraude e corrupção porque a última reportagem não vaticinou o fim desse tipo de crime.

Quase um mês atrás, falei ao New York Times que os esforços da checagem de fatos sofriam certo desgaste devido à torrente de desinformação oficial perpetrada pelos anos Bolsonaro e seu incentivo à violência e ao assédio jurídico e digital. A reportagem diz que organizações como o Aos Fatos “usaram um arsenal de velhas e novas ferramentas: checagens, pre-bunks (uma espécie de inoculação preventiva contra a desinformação), etiquetas de contexto e precisão, avisos de conteúdo sensível e treinamentos de educação midiática” para diminuir a exposição das pessoas à desinformação.

O texto também registra, no entanto, que esses esforços esbarram na construção de narrativas mentirosas contra essas mesmas organizações por grupos ideologicamente alinhados à extrema-direita — e que, penso eu, são emprestadas a alguns grupos da esquerda também.


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Ocorre que analisar a efetividade do combate à desinformação por meio do jornalismo é um modo fracassado em si de interpretar um fenômeno que não está apenas sob a responsabilidade de empresas de comunicação. O desfecho bem sucedido de uma investigação noticiosa depende necessariamente de um cenário político favorável.

Se Bernstein e Woodward estavam no lugar e na hora certos para publicar a maior investigação jornalística do século passado, com o perdão do clichê, também estava o Washington Post dentro de um clima político adequado: em 1972, a sociedade estadunidense colhia bons frutos gerados pelos movimentos a favor dos direitos civis enquanto demandava moralidade pública das autoridades.

O então presidente Richard Nixon não resistiria como protagonista de um escândalo que deixava grande parte da elite política daquela época vulnerável a escutas ilegais. Caiu porque afetou gente importante o suficiente para que os mecanismos de accountability — a Suprema Corte, a ameaça de impeachment e a imprensa — funcionassem. O sufixo -gate, de Watergate, virou marca de escândalo em vários países, enquanto grampo e corrupção continuaram a fazer parte do repertório da política.

Uma das maneiras com as quais o Aos Fatos mede seu sucesso, para além dos números de audiência e engajamento nas redes, é a frequência com que investigações, reportagens e ferramentas desenvolvidas pelas equipes editorial e de tecnologia impactam a vida das pessoas. Uma pesquisa conduzida em 2020 na Argentina, na Nigéria, na África do Sul e no Reino Unido mostrou que checagens de fatos têm efetividade verificável por ao menos duas semanas.

O que tenho percebido ao longo deste ano, dentro de um cenário de normalidade institucional, é que este jornalismo faz diferença porque é consistente em seu compromisso com o ofício, com os fatos e com a sociedade.

O relatório da CPMI que investigou os atos do 8 de janeiro foi aprovado na última quarta-feira (18) em Brasília com argumentos subsidiados por ao menos 21 reportagens do Aos Fatos publicadas durante os últimos cinco anos.

  • O documento menciona as 6.685 declarações falsas ou distorcidas ditas por Bolsonaro durante seus quatro anos de mandato, número do contador de declarações do Aos Fatos, e ressalta que “pessoas se expuseram ― e algumas morreram ― por darem crédito às palavras do então presidente, supostamente digno de fiabilidade diante da dignidade do cargo por ele ocupado”;
  • “O dado apenas comprova que as mentiras eram, de fato, uma prática do governo, que se beneficiou do esquema de desinformação”;
  • Como evidência da radicalização dos movimentos bolsonaristas, o documento citou reportagem do Aos Fatos que mostrou que mensagens de convocação para o ato golpista na Praça dos Três Poderes no dia 8 de janeiro começaram a ser compartilhadas em 3 de janeiro;
  • “As mensagens também foram compartilhadas pela cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal, que tinha ciência, portanto, dos riscos envolvidos”, diz o relatório;
  • O relatório traz também um levantamento do Aos Fatos que mostrou que Bolsonaro quintuplicou ataques às urnas após o STF tornar Lula (PT) elegível;
  • Ao citar o papel de plataformas digitais no impulsionamento de conteúdos danosos, o relatório faz referência a reportagem que revelou que anúncios sobre drogas sem eficácia contra Covid-19 tiveram quase 4 milhões de visualizações nas redes da Meta;
  • O documento cita ainda mais 17 checagens publicadas pelo Aos Fatos entre 2018 e 2022.

Gráfico demonstra o ilustra o uso político da desinformação pelo ex-presidente Jair Bolsonaro
Impacto. Gráfico do Aos Fatos reproduzido pelo relatório final da CPMI do 8 de Janeiro que ilustra o uso político da desinformação pelo ex-presidente Jair Bolsonaro

As atividades de checagem de fatos e de combate à desinformação por meio do jornalismo, quando feitas consistentemente, geram efeitos de longo prazo. Isso acontece não porque individualmente as verificações pesam ou não sobre o juízo de pessoas comuns, mas porque, por ser jornalismo, também ajuda a documentar e a fazer história.

A respeito do clima político favorável à responsabilização de autoridades que não se portaram à altura de seus cargos, o relatório final da CPMI do 8 de Janeiro traz um diagnóstico acurado sobre as limitações do combate à desinformação industrial por métodos mais ou menos convencionais: “É preciso também se ocupar de entender e mitigar os danos dos indivíduos que nutrem desprezo pelos valores republicanos”. O trabalho é coletivo.

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