É falso que ‘dança da picanha fatiada’ ganhou R$ 6,7 milhões de incentivo via Lei Rouanet

Por Luiz Fernando Menezes

27 de novembro de 2023, 14h47

Não é verdade que um concurso realizado pelo Ministério da Cultura do governo Lula (PT) premiou com R$ 6,7 milhões, via Lei Rouanet, uma apresentação que publicações enganosas apelidaram de “dança da picanha fatiada”. As peças de desinformação que fazem essa alegação falsa compartilham fora de contexto uma performance realizada em 2018 em uma galeria em Londres. Não há registros de que um espetáculo com esse título tenha tido a captação de verba autorizada no Brasil.

O vídeo descontextualizado acumulava centenas de curtidas e compartilhamentos no Instagram e no Facebook até a tarde desta segunda-feira (27). Ele também circula no WhatsApp, plataforma na qual não é possível estimar o alcance dos conteúdos (fale com a Fátima).


Selo falso

A dança da picanha fatiada ou da picanha possuída (em homenagem a Lula), vence concurso do Ministério da Cultura e consegue R$ 6,7 milhões via Lei Rouanet para ser apresentada no Brasil inteiro.

Apresentação de dança realizada em Londres circula no Instagram como se fosse brasileira e tivesse o título de ‘dança da picanha fatiada’

Publicações mentem ao alegar que uma apresentação de dança em que uma mulher parece estar fantasiada como um pedaço de carne teria vencido um concurso do Ministério da Cultura e, com isso, recebido R$ 6,7 milhões via Lei Rouanet para ser apresentada em todo o país. Além de não haver informações sobre concurso semelhante, o vídeo sequer foi gravado no Brasil.

Por meio de busca reversa, Aos Fatos identificou que a gravação original foi publicada no Instagram em outubro de 2018 — antes, portanto, do início do governo Lula. A filmagem mostra uma apresentação feita pela dançarina surrealista Becky Namgauds na Galeria Melissa, em Londres.

A roupa usada pela dançarina também não remete a um pedaço de carne. Na verdade, o figurino faz parte de uma obra idealizada pela designer Sinead O’Dwyer chamada “Slip Mould Slippery” e representa o molde de um corpo de outra pessoa.

A peça ainda distorce o sistema de financiamento da Lei Rouanet. O projeto de fomento à cultura não distribui dinheiro a iniciativas culturais, e sim permite que empresas e pessoas físicas invistam em propostas selecionadas pelo Ministério da Cultura. Os projetos recebem um registro no Pronac (Programa Nacional de Apoio à Cultura) e a autorização para que captar recursos com patrocinadores, que podem descontar do seu Imposto de Renda os valores que forem repassados.

Origem satírica. Conforme pode ser verificado pela marca d’água presente nos vídeos, a peça desinformativa foi compartilhada inicialmente pelo usuário Joaquin Teixeira no X (ex-Twitter), perfil que se autointitula como humorístico. A gravação, no entanto, passou a viralizar nas redes como se fosse um acontecimento real.

Exemplos de comentários nas peças de desinformação, como ‘meu dinheiro indo para o lixo’ e ‘esqueceram a porta do hospício aberta?’
Repercussão. Usuários acreditaram que apresentação havia ganhado incentivo do Ministério da Cultura do governo Lula (Reprodução/Instagram)

Referências:

1. Instagram (@sjodwyer)
2. The-dots
3. Grace Nicol
4. Direção Cultura

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