É falso que Suíça teve aumento de mortes por Covid-19 após suspender hidroxicloroquina

Por Luiz Fernando Menezes

6 de maio de 2021, 18h23

Não é verdade que a Suíça registrou um aumento no número de mortes por Covid-19 após suspender o uso da hidroxicloroquina entre o fim de maio e meados de junho de 2020, como afirmam postagens nas redes sociais (veja aqui). Além de os dados oficiais mostrarem que não houve crescimento na mortalidade no período, o OFSP (Escritório Federal de Saúde Pública da Suíça) desmentiu a veracidade da alegação.

O vídeo com a informação enganosa reunia ao menos 94 mil compartilhamentos no Facebook até a tarde desta quinta-feira (6), onde foi marcado com o selo FALSO na ferramenta de verificação (veja como funciona).


A pesquisa do resultado na Suíça dessa suspensão do uso de duas semanas de hidroxicloroquina, por causa do estudo do Lancet. Justamente na Suíça, né, é a terra da OMS. Então lá foi suspenso imediatamente por duas semanas. Eles tinham cerca de 3% de taxa de mortalidade até então e quando foi parado, proibido o uso de hidroxicloroquina, passou para 11% por duas semanas. Quando o artigo foi retirado de circulação e que baixou, e que acabou sendo retirado o banimento, voltou para 3%.

Circula nas redes um vídeo em que Naomi Yamaguchi, candidata derrotada a deputada estadual por São Paulo pelo PSL, afirma que a suspensão temporária da hidroxicloroquina na Suíça entre o final de maio e meados de junho de 2020 teria aumentado a mortalidade da Covid-19 naquele país, o que é falso. Além de as estatísticas oficiais mostrarem que não houve crescimento de óbitos, o governo suíço desmentiu a alegação em nota.

É fato que a Suíça suspendeu o uso de hidroxicloroquina no final de maio de 2020 após a publicação de um estudo da revista científica The Lancet, mas as mortes por Covid-19 não aumentaram. Em nota, o OFSP (Escritório Federal de Saúde Pública da Suíça) frisou que, na realidade, o número de óbitos foi reduzido no período.

“Na verdade, o oposto é verdadeiro, já que registramos apenas quatro mortes no total durante as primeiras duas semanas de junho, em comparação com 22 duas semanas antes”. Os dados do governo podem ser conferidos aqui e aqui.

Segundo a base de dados que compila casos e óbitos por Covid-19 na Suíça, logo após a suspensão do uso do medicamento, em 27 de maio, a média de mortes causadas pela doença era de 0,01 para cada 100 mil habitantes. Depois, não houve registro de avanço na mortalidade. O gráfico com a evolução dos dados (veja abaixo) mostra uma clara estabilidade no período e um aumento somente a partir de outubro.

Yamaguchi cita como fonte para suas afirmações um artigo sobre a Suíça publicado pelo jornal francês France Soir em 13 de julho de 2020. O veículo vem sendo criticado na França por ter publicado informações incorretas durante a pandemia. O órgão do governo suíço também mencionou o jornal: “o artigo do France Soir contém imprecisões. Pedimos correções, mas o France Soir não as fez”.

Segundo o OFSP, a análise do artigo utilizou a base de dados Johns Hopkins que, apesar de ser confiável, continha um erro na contabilização de óbitos registrados na Suíça: a data de notificação da morte estava misturada com as da ocorrência, o que gerava um número maior de óbitos em determinado período.

Hidroxicloroquina. O estudo citado por Naomi Yamaguchi foi publicado pela Lancet ainda nos primeiros meses da pandemia, quando havia dúvidas sobre a eficácia da cloroquina para tratar pacientes de Covid-19. Desde então, no entanto, nenhuma pesquisa sólida demonstrou que a droga seja eficiente para prevenir ou tratar a doença, conforme explicou Aos Fatos anteriormente.

Em fevereiro deste ano, uma revisão de diversos estudos publicada pela Cochrane concluiu que a hidroxicloroquina e sua análoga, a cloroquina, têm pouco ou nenhum efeito no risco de morte e pouco ou nenhum efeito na progressão para ventilação mecânica.

Outra revisão, publicada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em março, também apontou pouca ou nenhuma eficácia das duas substâncias para impedir a hospitalização ou diminuir a mortalidade. Por fim, uma análise da revista científica Nature divulgada no dia 15 de abril também não encontrou resultados positivos e que a hidroxicloroquina pode, na verdade, aumentar o risco de mortalidade de pacientes.

Esta peça de desinformação também foi checada pela Agência Lupa.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com Yamaguchi pelo e-mail disponibilizado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na tarde desta quinta-feira (6), mas não obteve retorno até a publicação desta checagem.

Referências:

1. Swiss Medic
2. The Lancet
3. Escritório Federal de Saúde Pública da Suíça (Fontes 1 e 2)
4. France Soir
5. LCI
6. Johns Hopkins
7. Aos Fatos
8. British Medical Journal
9. Nature


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