🕐 Esta reportagem foi publicada há mais de seis meses

É falso que São Lourenço zerou mortes e internações por Covid-19 devido a 'tratamento precoce'

Por Marco Faustino

17 de março de 2021, 19h50

Não é verdade que São Lourenço (MG) zerou o número de internações em UTI e mortes por Covid-19 desde o dia 21 de fevereiro devido à adoção de um protocolo de "tratamento precoce", como afirmam publicações nas redes sociais (veja aqui). Além de a prefeitura ter registrado ao menos três internações e três óbitos de moradores da cidade nesse período, os estudos mais sólidos divulgados desde o início da pandemia rejeitam a eficácia de medicamentos para prevenir ou tratar precocemente a infecção.

Também não é possível confirmar que determinado tratamento funciona apenas com base na observação de internações e mortes. A eficácia de medicamentos é cientificamente avaliada por meio de ensaios clínicos controlados e randomizados, que eliminam ao máximo possíveis vieses que possam interferir na análise. Cientistas e publicações que dizem o contrário, em geral, não levam isso em conta.

O conteúdo enganoso reunia ao menos 23 mil compartilhamentos no Facebook nesta quarta-feira (17) e foi marcado com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona). A peça de desinformação também circula no Instagram, reunindo ao menos 12 mil compartilhamentos, e no WhatsApp, mas, devido à natureza do aplicativo, não é possível estimar seu alcance.


Entre os 46 mil habitantes de São Lourenço, cidade localizada no sul de Minas Gerais, não existe um único registro de morte ou internação em leito de UTI relacionado à Covid-19 há mais de 20 dias

Publicações nas redes sociais afirmam que São Lourenço (MG) deixou de registrar casos de internações em UTI e mortes por Covid-19 devido a um protocolo de “tratamento precoce” que prevê o uso de medicamentos em pacientes logo após os primeiros sintomas da doença. A alegação, no entanto, é falsa, porque nenhum estudo consistente comprovou a eficácia de qualquer droga para tratar precocemente a infecção, e os dados oficiais da cidade mostram que houve ao menos três óbitos e três internações de casos graves desde 21 de fevereiro.

Foi a partir desta data que o prefeito de São Lourenço, Walter Lessa (PTB), disse em vídeo publicado no dia 15 de março nas redes sociais que a cidade não tinha óbitos e internações em UTI de seus habitantes por Covid-19 por causa do uso de azitromicina, dexametasona, ivermectina, vitamina D e zinco. Desde então, a desinformação ganhou tração, mas os dados da própria prefeitura desmentem o prefeito.

O boletim divulgado pela Secretaria de Saúde da cidade indica que, em 21 de fevereiro, duas pessoas estavam na UTI de Covid-19 e o município já havia registrado 47 mortos pela doença. Em 15 de março, de fato não há habitantes da cidade na UTI, mas os boletins entre os dias 22 de fevereiro e 2 de março mostram um caso de internação.

Em 9 de março, o boletim passou a separar os casos confirmados de suspeitos da doença. Desde então, não houve registro de internações em UTI de moradores da cidade entre os casos confirmados para Covid-19, apenas internações em ala clínica.

Já o número acumulado de mortes pela doença no dia da fala do prefeito (15 de março) é de 50 pacientes, três a mais do que no dia 21 de fevereiro (veja abaixo). O registro de três mortes é corroborado pela plataforma de dados do governo de MG e do SUS Analítico, do Ministério da Saúde.

Tratamento precoce. De acordo com o prefeito Walter Lessa, a cidade tem administrado azitromicina, dexametasona, ivermectina, vitamina D e zinco em pacientes que começam a manifestar sintomas de Covid-19. Em checagem anterior, o Aos Fatos mostrou que esses medicamentos não são eficazes no combate à infecção. Até o momento, nenhuma autoridade sanitária reconheceu nenhuma droga que evite a evolução da Covid-19 para casos graves.

A dexametasona, por exemplo, é indicada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) apenas para pacientes já em estado grave, que necessitam de ventilação artificial. Não há evidências suficientes para recomendar o uso da droga em pacientes não hospitalizados.

Mellanie Fontes-Dutra, biomédica e pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), afirmou ao Aos Fatos que a eficácia das drogas deve ser avaliada por meio de ensaios clínicos grandes, controlados, randomizados e cegos para eliminar ao máximo vieses que podem interferir na análise.

“Estudos menores não nos dão evidências definitivas. Podem nos abrir perspectivas apontando que um estudo maior deve ser feito, mas é por meio de estudos clínicos robustos e controlando vieses, que chegamos a evidências importantes para fazer essa análise”, explica.

O Aos Fatos entrou em contato com a Prefeitura de São Lourenço para obter mais detalhes sobre o protocolo usado e desde quando ele é adotado, mas não obteve retorno. O Hospital São Lourenço informou apenas que os dados são publicados diariamente nas redes sociais da instituição e que eventuais detalhamentos não são divulgados.

Referências:

1. Facebook (Fontes 1, 2, 3 e 4)
2. Governo de MG
3. Ministério da Saúde
4. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
5. CNN Brasil
6. BMJ


De acordo com nossos esforços para alcançar mais pessoas com informação verificada, Aos Fatos libera esta reportagem para livre republicação com atribuição de crédito e link para este site.

Usamos cookies e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade. Ao continuar navegando, você concordará com estas condições.