É falso que pesquisa americana disse que só 6% das vítimas de Covid-19 morreram pela infecção

Por Amanda Ribeiro e Luiz Fernando Menezes

2 de setembro de 2020, 09h38

Não é verdade que uma pesquisa do CDC (Center for Disease Control, órgão de saúde do governo americano) tenha concluído que apenas 6% das vítimas de Covid-19 nos EUA morreram em decorrência da doença, e que a maior parte dos óbitos foi causada por condições preexistentes, como problemas respiratórios, cardiovasculares, diabetes e obesidade. Segundo o CDC, a interpretação feita pelo jornalista Alexandre Garcia em vídeo publicado nas redes sociais é equivocada, já que 92% dos óbitos registrados pela infecção naquele país citam a Covid-19 como a causa básica de morte.

Publicado por Garcia no YouTube, o vídeo com a falsa alegação reunia cerca de 1.000 compartilhamentos até a manhã desta quarta-feira (2). Publicações de páginas e perfis bolsonaristas, no entanto, já acumulavam mais de 4.600 compartilhamentos até a mesma data. Todas as postagens foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de monitoramento da rede social (saiba como funciona).


FALSO

Não custa lembrar que os americanos agora fizeram uma pesquisa sobre o número de mortos lá nos EUA e descobriram que só 6% dos mortos foram mortos exclusivamente pelo coronavírus. Os outros todos foram comorbidades, gente que já tava doente, gente que, inclusive, já ia morrer.

Em vídeo publicado no dia 31 de agosto, o jornalista Alexandre Garcia cita uma suposta pesquisa americana que teria concluído que apenas 6% das vítimas de Covid-19 teriam morrido “exclusivamente pelo coronavírus”. Segundo ele, como os outros óbitos apresentavam comorbidades, eram pessoas “que já iam morrer”.

O dado ao qual se refere Garcia foi publicado pelo CDC (Center for Disease Control, órgão do governo americano) no dia 26 de agosto. Segundo o levantamento, que levou em consideração os 164.280 óbitos por Covid-19 registrados até aquele momento nos EUA, 6% mencionavam a infecção como única causa da morte. Todas as outras vítimas possuíam, pelo menos, uma outra causa adicional para a morte, seja doença respiratória, doença cardiovascular ou condições como obesidade e diabetes.

Em nota enviada ao Aos Fatos, o CDC explica que a interpretação de Garcia é incorreta. Segundo a assessoria, “em 92% de todas as mortes que mencionam Covid-19, Covid-19 é listado como a causa básica de morte”, ou seja, a condição que deu início à cadeia de eventos que culminou com a morte da pessoa.

Além disso, a lista de comorbidades inclui condições agudas que podem ter ocorrido como resultado da infecção da Covid-19, como pneumonia, insuficiência respiratória ou infecções causadas durante a internação no hospital.

De acordo com o pesquisador do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Marcelo Brandão, a alegação de Garcia é uma simplificação de análise de dados que distorce os resultados. “A ideia do CDC foi falar o seguinte: dentro desse universo que nós estamos olhando, 6% [das mortes] não têm ligação com nenhuma outra comorbidade conhecida. Nos outros 94%, existia algum índice de comorbidade que pode sim estar relacionado à doença. A Covid foi uma catalisadora desse óbito.”

Para explicar a estatística, Brandão recorre ao exemplo de um acidente aéreo: se, dentro de um avião estão pessoas com doenças diversas, como câncer e diabetes em estágio avançado, não se pode dizer que a pessoa morreu por conta da condição prévia de saúde caso ocorra um acidente e a aeronave caia. “Aquele paciente, por exemplo, com câncer terminal que estava sendo transportado de um hospital para o outro para tentar uma última cirurgia, morreu porque estava com câncer ou morreu por conta da queda do avião?”

Outro indício que vai contra a interpretação de Garcia é que o próprio levantamento do CDC traz uma visualização com o excesso de mortes durante a pandemia de Covid-19. O órgão estimava, de 1º de janeiro a 26 de maio, entre 183.393 a 245.305 mortes em excesso. Esse dado é calculado com base no número de mortes registradas por ano ao longo de uma série histórica. Quando o número ultrapassa as estimativas previstas, as mortes são contabilizadas como excedentes.

Desinformação nos EUA. A mesma interpretação incorreta foi publicada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, no dia 29 de agosto. O líder americano retuitou uma publicação de um apoiador que dizia que apenas 6% das mortes registradas como Covid-19 haviam sido decorrentes da doença e que todas as demais foram causadas por “outras doenças sérias”. O Twitter deletou as publicações no mesmo dia, alegando que elas violavam as regras da rede social.

A informação falsa foi também desmentida por equipes de jornais estrangeiros, como os canais WBRC, WTHR e CBS e também pela agência de checagem americana Factcheck.org.

Outro lado. Na tarde da última terça-feira (1º), Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de comunicação de Alexandre Garcia pelo telefone e foi orientado a enviar um e-mail que apontasse as informações falsas divulgadas no vídeo. Até a publicação desta checagem, no entanto, não houve retorno do jornalista sobre o caso.

Referências:

1. CDC (Fontes 1 e 2)
2. BBC
3. CNN


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