É falso que OMS recomendou vacina produzida na China e descartou outra, dos EUA

Por Priscila Pacheco

23 de julho de 2020, 16h46


Uma imagem compartilhada pela deputada Bia Kicis (PSL-DF) nas redes sociais engana ao sugerir que a OMS (Organização Mundial da Saúde) avalizou uma vacina desenvolvida na China e determinou a suspensão de outra, produzida pelos EUA e que seria mais barata (veja aqui). A entidade não deu aval a nenhuma das imunizações hoje em testes.

Além disso, a OMS não pediu que fosse suspenso o uso da cloroquina contra a Covid-19 no Brasil, como indica a peça de desinformação. Na verdade, o antimalárico foi removido do grupo de testes coordenado pela entidade no início de julho por não apresentar resultados na redução da mortalidade em pacientes graves da doença.

Reproduções da imagem reuniam ao menos mil compartilhamentos nesta quinta-feira (23) em posts no Facebook que foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação (entenda como funciona). Procurada, Bia Kicis não respondeu.


FALSO

Com um diálogo hipotético entre o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Ghebreyesus, e os presidentes de EUA, Brasil e China, uma imagem postada pela deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) desinforma ao indicar fatos que jamais aconteceram. Não é verdade que a entidade deu aval a uma vacina desenvolvida na China que custaria US$ 10 mil a dose em detrimento de outra, mais barata, produzida pelos EUA.

Até o momento, a OMS não avalizou ou mesmo indicou alguma preferência pelas imunizações que estão em estudo pelo mundo, apesar de acompanhar a evolução das pesquisas, como mostra documento da entidade atualizado em 21 de julho.

Na última quarta-feira (22), executivos da organização manifestaram otimismo com a velocidade do desenvolvimento das vacinas e com os resultados promissores divulgados, mas não citaram ou recomendaram nenhuma delas especificamente.

Das 24 pesquisas em estágio mais avançado, ao menos cinco são de instituições chinesas, como a da CoronaVac, em testes em São Paulo. Segundo o Instituto Butantan, não é possível estimar ainda qual seria o custo da dose desta imunização, mas que ela tenderia a ser mais econômica se produzida em larga escala após transferência de tecnologia.

Também não há fatos que respaldem a alegação de que os EUA trabalham numa vacina “mais barata” para distribuir pelo mundo. Registros exatos ou semelhantes não foram encontrados em discursos do presidente Donald Trump nem de membros do governo. Em junho, a Casa Branca anunciou que custeará apenas a dose de americanos que não puderem pagar. Hoje, instituições sediadas nos EUA participam das pesquisas de ao menos quatro das vacinas em estágio mais avançado de desenvolvimento.

Remédio. O diálogo simulado entre o diretor-geral da OMS e o presidente Jair Bolsonaro na imagem postada por Bia Kicis também é derivado de desinformação. A entidade nunca pediu que o governo brasileiro suspendesse a prescrição ou a distribuição de cloroquina, embora o medicamento não tenha ainda se provado eficaz contra a Covid-19.

Em entrevista no dia 10 de julho, o diretor de emergências Michael Ryan disse que a OMS não recomenda o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da doença, mas que a decisão sobre a prescrição caberia a governos e médicos.

Dias antes, em 4 de julho, a entidade confirmou que a hidroxicloroquina, assim como o lopinavir e o ritonavir, haviam sido retirados do Solidarity Trial, programa de pesquisas com remédios que coordena com 21 países. Segundo a OMS, as drogas apresentaram pouca ou nenhuma redução na mortalidade de pacientes com Covid-19 hospitalizados.

Em junho, a OPAS (Organização Pan-americana de Saúde, braço da OMS para as Américas) divulgou nota em que recomenda o uso da droga “apenas no contexto de estudos registrados, aprovados e eticamente aceitáveis”, mas que “todo país é soberano para decidir sobre seus protocolos clínicos de uso de medicamentos”. O Brasil não é citado.

Procurada por Aos Fatos, a deputada Bia Kicis não retornou até a publicação desta checagem, na tarde desta quinta-feira (23). A peça de desinformação foi postada no perfil dela no Facebook no dia 16 de julho e reúne ao menos 53.000 compartilhamentos.

Referências:

1. OMS (Fontes 1, 2 e 3)
2. OPAS
3. Anvisa
4. Poder 360
5. Revista Galileu
6. G1
7. CNBC


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