Perfis demográficos de apps mais populares no Brasil ajudam a explicar tipos de desinformação

Compartilhe

No que diz respeito ao número de usuários de redes sociais, a Meta lidera sobranceira ante a concorrência no Brasil. Instagram e Facebook, nesta ordem, são as que estão instaladas em mais smartphones por aqui. Sem falar no WhatsApp, o inescapável aplicativo de mensageria.

Para além de confirmar o evidente, as pesquisas realizadas desde 2015 pelo site especializado Mobile Time, em parceria com a empresa Opinion Box, dão pistas valiosas sobre outros aplicativos que atraem o tempo e o dinheiro dos brasileiros.

“As pessoas têm comportamentos diferentes dependendo do canal e de com quem estão falando”, destaca à Plataforma Fernando Paiva, diretor editorial do Mobile Time.

Os usos de apps se sobrepõem — quem troca mensagens no Telegram também troca no WhatsApp. No entanto, Kwai, X (ex-Twitter) e Telegram prosperam em nichos específicos:

  • A rede chinesa tem penetração maior nas classes D e E (46%), em comparação a A e B (18%) e C (29%);
  • A de Elon Musk atrai mais homens (36%) que mulheres (23%), diferença que é ainda maior na faixa etária de 16 a 29 anos;
  • E o Telegram, também com público fiel mais masculino (usado diariamente por 39% dos homens e por 27% das mulheres), é um reduto para troca de informação e desinformação.

Para além das redes, também aparecem com destaque aplicativos que oferecem “cashback” e as casas de apostas.

A edição de hoje é sobre o celular do brasileiro.

E MAIS: Lives de crianças no Kwai


A newsletter Plataforma chega ao seu email toda quarta-feira.

Assine de graça e receba análises exclusivas.


📱 O celular do brasileiro

Os recortes demográficos ajudam a explicar os conteúdos que circulam em cada rede. O fato de Telegram e X serem mais populares entre homens que mulheres, por exemplo, faz sentido diante da misoginia que prospera em ambos.

A percepção geral de que a rede de Musk encolhe à medida em que a proporção de fãs dele lá dentro aumenta — porque só estão sobrando eles — também é confirmada nos números.

Em dezembro de 2022, o então Twitter estava nos celulares de 37% dos brasileiros, percentual que caiu além da margem de erro (2 p.p.) nas duas pesquisas seguintes: para 33% (mai.23) e depois 29% (dez.23).

O Telegram, que dá sinais de leniência com a desinformação, cresceu a partir de bloqueios judiciais ao WhatsApp, mas mantém uma base de dois terços dos brasileiros com smartphones — dos quais 40% dizem acessar canais de “notícias”.

Foi lá que o Aos Fatos identificou um serviço de fraude ao SUS (Sistema Único de Saúde) que continuou à venda três meses após o Telegram tomar ciência do crime — e mesmo após a AGU (Advocacia-Geral da União) entrar com uma ação contra a empresa.

Leia mais
Investigamos Telegram permite bots de IA que geram ‘deep nudes’ e até pornografia infantil
Análise Descaso com ‘deep nudes’ expõe cumplicidade do Telegram com assédio e pornografia infantil

“Durante o governo Bolsonaro, houve uma migração de uma galera de direita lá para dentro”, diz Paiva. “No Telegram, essa pessoa está entre iguais”, ele explica — enquanto, no WhatsApp, “a tia está olhando também, o primo, o sobrinho esquerdista”.

Na pesquisa mais recente, de dezembro passado, o recorte de renda mensal familiar entre usuários do Kwai — 18% de pessoas das classes A e B declararam ter o app instalado; 29% na classe C; e 46% nas D e E — pode ser explicado em parte pela estratégia da empresa de oferecer dinheiro para as pessoas usarem o app.

Nesta semana, o Aos Fatos mostrou que meninas realizam lives no Kwai e estão sujeitas a predadores, que oferecem “presentes” (leia mais no box abaixo). A maioria das transmissões que a reportagem presenciou retratava casas pobres.

Pela primeira vez, a rede de vídeos curtos apareceu numericamente à frente do X no percentual de brasileiros que declararam ter o app instalado (30%, contra 29%).

Além das redes sociais e de serviços de streaming — entre os quais a Netflix ainda lidera, mas vê a concorrência avançar —, as pesquisas Panorama Mobile Time/Opinion Box também perguntam os aplicativos que os brasileiros têm salvos na tela inicial, um indicativo de uso frequente.

Nesta categoria, emerge um mix de instituições financeiras e apps de compras e de serviços, como postos de gasolina que oferecem “cashback”, entre outros tipos.

Leia mais
Investigamos Rifas ilegais impactam milhões de usuários no Instagram mesmo após prisões

Um universo que também está contemplado é o das emergentes casas de apostas — ramo que se tornou o maior financiador do futebol brasileiro, patrocinando 39 dos 40 times das Séries A e B, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e até mesmo negociando o nome do Brasileirão.

Um em cada quatro brasileiros com smartphone já usou aplicativos de apostas esportivas. O percentual é maior nas classes D e E. Entre as pessoas pesquisadas, 61% dizem ter perdido mais dinheiro do que ganhado, 21% dizem ter ficado na mesma — e 18% são sortudas ou mentirosas.

“A pessoa está dizendo isso. Está se enganando ali ou está tentando nos enganar”, diz Paiva. “A pessoa está lá com o dinheiro contadinho para comprar o leite, para pagar o aluguel, e está lá torrando dinheiro nas bets. Ficando viciada, provavelmente. Na verdade, é quem mais precisa de dinheiro. Justamente o cara que mais torce para ganhar uma bolada.”

A pesquisa sobre uso de apps foi realizada entre 15 e 24 de novembro de 2023 com 2.068 brasileiros, donos de smartphones, acima de 16 anos, respeitando as proporções de gênero, idade, faixa de renda e distribuição geográfica. Os relatórios estão disponíveis para download no Mobile Time.


🔴 Lives de crianças no Kwai


(Méuri Elle/Aos Fatos)

  • Embora o Kwai diga proibir que menores de idade façam lives — e, em tese, autorize apenas maiores de 13 anos a abrir conta no aplicativo —, a experiência de navegar por lá mostra que as regras não são aplicadas;
  • Em reportagem publicada na segunda (29), o Aos Fatos mostrou que crianças, sobretudo meninas, estão sujeitas a assédio e chantagem em transmissões ao vivo na plataforma;
  • “Presentes” enviados aos streamers são uma das formas de monetização no Kwai;
  • Bastões de luz, flores ou outras prendas enviadas por espectadores podem ser trocados por moedas para utilizar na plataforma ou transformados em dinheiro;
  • Na busca por esses presentes, meninas estão sujeitas a interações com predadores, que geram receita ao Kwai quando compram os créditos para assediá-las.

Colaborou Gisele Lobato.

Compartilhe

Leia também

falsoVídeo é editado para fazer crer que família Bolsonaro apoia pré-candidatura de Pablo Marçal

Vídeo é editado para fazer crer que família Bolsonaro apoia pré-candidatura de Pablo Marçal

falsoPosts usam foto de outra pessoa para sugerir que autor de atentado contra Trump era trans

Posts usam foto de outra pessoa para sugerir que autor de atentado contra Trump era trans

Pré-candidato, Marçal oferece prêmio a seguidores e especialistas veem infração eleitoral

Pré-candidato, Marçal oferece prêmio a seguidores e especialistas veem infração eleitoral