Méuri Elle/Aos Fatos

Perfis demográficos de apps mais populares no Brasil ajudam a explicar tipos de desinformação

Por Alexandre Aragão

31 de janeiro de 2024, 15h32

No que diz respeito ao número de usuários de redes sociais, a Meta lidera sobranceira ante a concorrência no Brasil. Instagram e Facebook, nesta ordem, são as que estão instaladas em mais smartphones por aqui. Sem falar no WhatsApp, o inescapável aplicativo de mensageria.

Para além de confirmar o evidente, as pesquisas realizadas desde 2015 pelo site especializado Mobile Time, em parceria com a empresa Opinion Box, dão pistas valiosas sobre outros aplicativos que atraem o tempo e o dinheiro dos brasileiros.

“As pessoas têm comportamentos diferentes dependendo do canal e de com quem estão falando”, destaca à Plataforma Fernando Paiva, diretor editorial do Mobile Time.

Os usos de apps se sobrepõem — quem troca mensagens no Telegram também troca no WhatsApp. No entanto, Kwai, X (ex-Twitter) e Telegram prosperam em nichos específicos:

  • A rede chinesa tem penetração maior nas classes D e E (46%), em comparação a A e B (18%) e C (29%);
  • A de Elon Musk atrai mais homens (36%) que mulheres (23%), diferença que é ainda maior na faixa etária de 16 a 29 anos;
  • E o Telegram, também com público fiel mais masculino (usado diariamente por 39% dos homens e por 27% das mulheres), é um reduto para troca de informação e desinformação.

Para além das redes, também aparecem com destaque aplicativos que oferecem “cashback” e as casas de apostas.

A edição de hoje é sobre o celular do brasileiro.

E MAIS: Lives de crianças no Kwai


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📱 O celular do brasileiro

Os recortes demográficos ajudam a explicar os conteúdos que circulam em cada rede. O fato de Telegram e X serem mais populares entre homens que mulheres, por exemplo, faz sentido diante da misoginia que prospera em ambos.

A percepção geral de que a rede de Musk encolhe à medida em que a proporção de fãs dele lá dentro aumenta — porque só estão sobrando eles — também é confirmada nos números.

Em dezembro de 2022, o então Twitter estava nos celulares de 37% dos brasileiros, percentual que caiu além da margem de erro (2 p.p.) nas duas pesquisas seguintes: para 33% (mai.23) e depois 29% (dez.23).

O Telegram, que dá sinais de leniência com a desinformação, cresceu a partir de bloqueios judiciais ao WhatsApp, mas mantém uma base de dois terços dos brasileiros com smartphones — dos quais 40% dizem acessar canais de “notícias”.

Foi lá que o Aos Fatos identificou um serviço de fraude ao SUS (Sistema Único de Saúde) que continuou à venda três meses após o Telegram tomar ciência do crime — e mesmo após a AGU (Advocacia-Geral da União) entrar com uma ação contra a empresa.

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“Durante o governo Bolsonaro, houve uma migração de uma galera de direita lá para dentro”, diz Paiva. “No Telegram, essa pessoa está entre iguais”, ele explica — enquanto, no WhatsApp, “a tia está olhando também, o primo, o sobrinho esquerdista”.

Na pesquisa mais recente, de dezembro passado, o recorte de renda mensal familiar entre usuários do Kwai — 18% de pessoas das classes A e B declararam ter o app instalado; 29% na classe C; e 46% nas D e E — pode ser explicado em parte pela estratégia da empresa de oferecer dinheiro para as pessoas usarem o app.

Nesta semana, o Aos Fatos mostrou que meninas realizam lives no Kwai e estão sujeitas a predadores, que oferecem “presentes” (leia mais no box abaixo). A maioria das transmissões que a reportagem presenciou retratava casas pobres.

Pela primeira vez, a rede de vídeos curtos apareceu numericamente à frente do X no percentual de brasileiros que declararam ter o app instalado (30%, contra 29%).

Além das redes sociais e de serviços de streaming — entre os quais a Netflix ainda lidera, mas vê a concorrência avançar —, as pesquisas Panorama Mobile Time/Opinion Box também perguntam os aplicativos que os brasileiros têm salvos na tela inicial, um indicativo de uso frequente.

Nesta categoria, emerge um mix de instituições financeiras e apps de compras e de serviços, como postos de gasolina que oferecem “cashback”, entre outros tipos.

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Um universo que também está contemplado é o das emergentes casas de apostas — ramo que se tornou o maior financiador do futebol brasileiro, patrocinando 39 dos 40 times das Séries A e B, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e até mesmo negociando o nome do Brasileirão.

Um em cada quatro brasileiros com smartphone já usou aplicativos de apostas esportivas. O percentual é maior nas classes D e E. Entre as pessoas pesquisadas, 61% dizem ter perdido mais dinheiro do que ganhado, 21% dizem ter ficado na mesma — e 18% são sortudas ou mentirosas.

“A pessoa está dizendo isso. Está se enganando ali ou está tentando nos enganar”, diz Paiva. “A pessoa está lá com o dinheiro contadinho para comprar o leite, para pagar o aluguel, e está lá torrando dinheiro nas bets. Ficando viciada, provavelmente. Na verdade, é quem mais precisa de dinheiro. Justamente o cara que mais torce para ganhar uma bolada.”

A pesquisa sobre uso de apps foi realizada entre 15 e 24 de novembro de 2023 com 2.068 brasileiros, donos de smartphones, acima de 16 anos, respeitando as proporções de gênero, idade, faixa de renda e distribuição geográfica. Os relatórios estão disponíveis para download no Mobile Time.


🔴 Lives de crianças no Kwai


(Méuri Elle/Aos Fatos)

  • Embora o Kwai diga proibir que menores de idade façam lives — e, em tese, autorize apenas maiores de 13 anos a abrir conta no aplicativo —, a experiência de navegar por lá mostra que as regras não são aplicadas;
  • Em reportagem publicada na segunda (29), o Aos Fatos mostrou que crianças, sobretudo meninas, estão sujeitas a assédio e chantagem em transmissões ao vivo na plataforma;
  • “Presentes” enviados aos streamers são uma das formas de monetização no Kwai;
  • Bastões de luz, flores ou outras prendas enviadas por espectadores podem ser trocados por moedas para utilizar na plataforma ou transformados em dinheiro;
  • Na busca por esses presentes, meninas estão sujeitas a interações com predadores, que geram receita ao Kwai quando compram os créditos para assediá-las.

Colaborou Gisele Lobato.

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