Meta faturou R$ 3,8 milhões com golpes anunciados no Facebook e no Instagram

Por Ethel Rudnitzki

15 de janeiro de 2024, 11h29

Anúncios no Facebook e no Instagram que divulgavam falsos auxílios financeiros ou programas de renegociação de dívidas, a fim de enganar usuários e obter dados e dinheiro de forma ilegal, renderam mais de R$ 3,8 milhões para a Meta nos últimos três meses. O valor representa 11,5% da receita declarada pela empresa com anúncios sobre “temas sociais, eleições ou política” no período (R$ 32,6 milhões).

  • Com base em informações divulgadas no Relatório da Biblioteca de Anúncios da Meta, Aos Fatos analisou as cem principais contas que veicularam anúncios nessa categoria de 9 de outubro a 9 de janeiro;
  • Dez delas foram responsáveis por impulsionar posts com links para sites e páginas falsas que imitavam portais de notícias e canais oficiais a fim de enganar usuários;
  • Ao todo, foram veiculados 3.500 anúncios, que alcançaram ao menos 85 milhões de visualizações no Facebook e Instagram;
  • Metade das páginas que divulgavam o conteúdo fraudulento foram excluídas das plataformas após a veiculação dos anúncios. Outras cinco, no entanto, permanecem ativas, sendo que duas impulsionaram posts na última semana.
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A maior parte dos anúncios divulga um golpe que anuncia um suposto programa de renegociação de dívidas do Feirão Limpa Nome do Serasa. Acompanhados de diferentes banners e vídeos, os posts redirecionam o usuário a um site que imita a identidade visual do g1 e então a um chatbot que simula o canal oficial de WhatsApp do Serasa usando imagens e áudios de campanhas antigas do Feirão Limpa Nome.

De posse do nome e do número de CPF do usuário, o chatbot encaminha uma proposta de renegociação no valor de R$ 117,90. Ao fim do processo, o indivíduo é levado a uma plataforma de pagamentos não relacionada ao Serasa, onde é gerado um QR code para pagamento via Pix. O valor de R$ 117,90 é fixo, independentemente do valor da dívida.

O golpe, que circula nas redes em diferentes versões pelo menos desde agosto do ano passado, já foi desmentido pelo Aos Fatos. Apesar disso, posts patrocinados com esse teor seguem disponíveis nas plataformas: anúncios sobre o tema foram veiculados entre outubro de 2023 e janeiro de 2024.

Em julho do ano passado, a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) publicou uma medida cautelar contra a Meta pedindo a remoção de anúncios que aplicavam golpes usando o nome do programa Desenrola Brasil, do governo federal. Como os anúncios continuaram no ar, em novembro, o órgão determinou a aplicação de multa de pelo menos R$ 9,3 milhões — correspondente a R$ 150 mil por dia de descumprimento da determinação anterior — e, em dezembro, instaurou processo administrativo contra a empresa, que está em andamento.

 Anúncio no Facebook com mais de 1 milhão de impressões promove golpe que promete renegociação de dívidas com o Serasa
Anúncio ativo. Publicação que divulga golpe para limpar nome no Serasa continua sendo impulsionada nas plataformas da Meta (Reprodução)

Também foram identificados anúncios que promovem um falso programa do governo federal e do Banco Central para o resgate de valores esquecidos em bancos, conhecido como “saque social”. O golpe redireciona o usuário a uma página que solicita nome completo, data de nascimento, nome da mãe e número de CPF antes de exigir o pagamento de uma suposta taxa de transferência.

Não é de hoje que anúncios de golpes e fraudes circulam no Facebook. Em setembro de 2023, o Aos Fatos denunciou a proliferação desse tipo de post na rede. A reportagem tratou de anúncios veiculados sem o selo de “temas sociais, eleições ou política” — e que, portanto, não forneciam informações de custo ou de alcance claros, apenas estimativas.

Na época, a Meta afirmou que não permitia quaisquer atividades que violassem os padrões da comunidade ou publicidade e recomendou que usuários denunciassem o conteúdo que violava as diretrizes.

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DRIBLANDO A MODERAÇÃO

A divulgação dos golpes, no entanto, não é escancarada. Aos Fatos verificou que os anunciantes usam algumas estratégias para driblar as barreiras da moderação de conteúdo das plataformas:

  • Dão poucos detalhes sobre o golpe no corpo do texto, deixando grande parte da informação nas imagens, nos vídeos e nos links das publicações;
  • Utilizam a função produto dinâmico no anúncio — que permite criar diferentes versões para cada publicação — e colocam imagens e conteúdos não relacionados ao golpe entre as mídias e links falsos.

Na função produto dinâmico, a plataforma entrega aos usuários apenas a versão do conteúdo que converter mais cliques ao anúncio. Dessa forma, a inserção de imagens genéricas entre as opções de mídia não afeta a divulgação do golpe, apenas ajuda a disfarçá-lo. A estratégia foi utilizada por todos os golpistas identificados pelo Aos Fatos.

Um dos posts patrocinados que promove o golpe para renegociação de dívidas, por exemplo, exibe a foto de uma praia entre as opções de mídia. A outra opção é um vídeo que usa um trecho de uma reportagem antiga sobre o Feirão Limpa Nome da Serasa e convida o usuário a clicar no link do anúncio que leva ao site falso. Sem mencionar o golpe, a legenda da publicação traz tom de urgência: “Termina hoje”.

Anúncios veiculados em plataformas da Meta usam texto genérico, imagem de praia e vídeo de tela de computador para burlar moderação
‘Termina hoje.’ Anúncio usa texto vago e imagem não relacionada ao golpe para burlar moderação (Reprodução)

INDÍCIOS DE COORDENAÇÃO

Além de usarem táticas similares para driblar a moderação, os anunciantes golpistas identificados pelo Aos Fatos também publicaram anúncios com imagens e conteúdos idênticos, o que pode ser considerado um indício de coordenação. Ao menos dois perfis, por exemplo, inseriram a mesma imagem de uma praia, originalmente publicada no site Guia Viagens Brasil, como opção para seus anúncios. Já outros dois usaram a mesma foto de um filhote de cachorro.

A ligação entre as páginas fica ainda mais evidente quando cruzamos as informações dos perfis dos anunciantes:

  • Das dez páginas analisadas, quatro compartilham o primeiro nome, Camila, e duas usam o mesmo sobrenome, Dias;
  • Mesmo que possuam nomes similares, as páginas estão todas registradas em contas de email diferentes, que não possuem relação com o nome do anunciante. A página Camila Silva, por exemplo, está registrada com o endereço “joilsonbr4bet”;
  • Dois números de telefone idênticos com DDD de municípios do Piauí são compartilhados por seis dos anunciantes.

Outro indício de que os perfis usados pelos anunciantes são falsos é a imagem de perfil. Ao menos duas contas que ainda estão ativas no Facebook usam a foto de uma repórter de TV extraída de um banco de imagens.

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CONTRA AS REGRAS

Além de configurar crime de estelionato, os golpes anunciados no Facebook e no Instagram vão contra as regras das próprias plataformas.

Nos Padrões de Comunidade da Meta há uma política específica contra Fraude e Dolo, na qual a empresa proíbe a publicação de conteúdo que “que busca intencionalmente enganar, fazer declarações falsas de maneira deliberada ou explorar as pessoas de outra forma por dinheiro ou propriedade”. Entre os exemplos citados na política estão golpes financeiros.

Os golpes também violam as Políticas de Publicidade da Meta, que “proíbem anúncios que promovam produtos, serviços, esquemas ou ofertas que usam práticas enganosas ou falsas, incluindo aquelas cuja intenção é conseguir dinheiro ou informações pessoais”. Nessa política, a empresa lista como conteúdo inaceitável “anúncios com conteúdo que já foi desmentido por verificadores de fatos independentes" e que promovem "práticas fraudulentas e enganosas”.

A Meta explica que, antes de serem veiculados, todos os posts patrocinados passam por um sistema de análise que “usa principalmente ferramentas automatizadas para verificar se os anúncios e ativos de negócios seguem nossas políticas”. Por isso, a empresa também proíbe que sejam usadas táticas para burlar esse monitoramento.

“Os anunciantes não devem fugir ou tentar escapar do nosso processo de análise e das nossas ações de monitoramento. Se descobrirmos que uma conta de anúncios, página, conta de usuário ou conta comercial está fugindo do nosso processo de análise e das nossas ações de monitoramento, o anunciante poderá sofrer restrições de publicidade”, diz trecho da política.

A coordenação entre as páginas dos anunciantes também viola as políticas contra comportamento não autêntico e autenticidade de conta das plataformas, que proíbem, entre outras coisas:

  • Usar várias contas ou compartilhar contas com várias pessoas;
  • Usar contas, páginas, grupos ou eventos do Facebook ou Instagram para enganar pessoas sobre a fonte ou a origem de um conteúdo;
  • Criar ou usar uma conta falsa para enganar ou iludir outras pessoas, ou para burlar o monitoramento ou violar os padrões da empresa.

Entre os critérios listados pela empresa para definição de uma conta falsa está o uso de imagens de bancos de imagens ou fotos roubadas de outros indivíduos.

A reportagem enviou os perfis dos anunciantes e questionou a Meta sobre a persistência de anúncios de golpes em suas plataformas. A empresa replicou um posicionamento que já havia enviado em setembro de 2023:

“Atividades que tenham como objetivo enganar, fraudar ou explorar terceiros não são permitidas em nossas plataformas e estamos sempre aprimorando a nossa tecnologia para combater atividades suspeitas. Também recomendamos que as pessoas denunciem quaisquer conteúdos que acreditem ir contra os Padrões da Comunidade do Facebook, das Diretrizes da Comunidade do Instagram e os Padrões de Publicidade da Meta através dos próprios aplicativos.”

Mesmo após o contato, os cinco anunciantes que ainda tinham páginas ativas permaneceram com perfis no ar.

Referências:

1. Meta (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8)
2. Aos Fatos (1, 2)
3. g1 (1, 2)
4. O Globo
5. Guia Viagens Brasil
6. IStock Photo
7. Planalto


Aos Fatos licencia suas checagens para que plataformas digitais desenvolvam políticas de combate à desinformação. A Meta é uma delas. Entenda.

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