Um terço dos tweets mais populares de bolsonaristas sobre eleição dos EUA tem desinformação

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Um terço (33%) dos cem tweets mais populares que perfis bolsonaristas publicaram na última semana sobre as eleições presidenciais dos EUA continha alguma desinformação ou reproduzia teorias da conspiração sobre o pleito, mostra levantamento do Radar Aos Fatos. Esses posts somaram mais de 500 mil interações (curtidas e retweets), ou cerca de 30% do total gerado pelas publicações populares do grupo sobre esse assunto.

O discurso enganoso mais difundido pelo grupo é o de que o pleito americano foi fraudado para beneficiar o democrata Joe Biden, que derrotou o presidente americano Donald Trump no sábado (7). Na última semana, o Aos Fatos publicou 17 checagens desmentindo alegações de fraude na disputa.

Influenciadores e parlamentares que apoiam Bolsonaro foram os principais responsáveis por publicar conteúdo desinformativo. Entre esses nomes aparecem, por exemplo, os blogueiros Allan dos Santos e Leandro Ruschel e o escritor Olavo de Carvalho. Entre os parlamentares, destacam-se os deputados Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Caroline de Toni (PSL-SC) e Douglas Garcia (PTB-SP).

Para a análise, foram coletados 2.672.529 tweets publicados ou retweetados por 718.708 perfis entre 1º e 8 de novembro que continham termos relacionados às eleições americanas. Em seguida, foi aplicada uma técnica que agrupa os perfis coletados de acordo com o quanto interagem na rede —perfis que se retuitam muito, por exemplo, tendem a ficar no mesmo grupo.

Além do grupo bolsonarista, que concentrou 11,3% dos perfis que participaram do debate, foi possível identificar outros dois grandes grupos de discussão sobre as eleições americanas, ilustrados na imagem abaixo:

  • Vermelho: Composto principalmente de perfis simpáticos ao presidente Jair Bolsonaro, demonstra apoio a Trump e é crítico de Biden. É o menor dos grupos, mas concentra toda a desinformação que o Aos Fatos encontrou no debate.

  • Azul: Maior dos três grupos, inclui perfis que compartilharam principalmente conteúdo noticioso, mas com tendência crítica a Trump.

  • Verde: Também majoritariamente crítico a Trump, mas dominado por influenciadores digitais, como Felipe Neto, e com forte presença de posts de humor.

Veja abaixo a análise detalhada de cada grupo:

Rede vermelha (11,35% dos perfis)

Composta principalmente por perfis próximos ao presidente Jair Bolsonaro, como blogueiros de extrema-direita e parlamentares da base do governo, é amplamente dominada por conteúdo simpático a Donald Trump ou crítico a Joe Biden (89%), como o exemplo abaixo do perfil @taoquei1:

Entre as críticas a Biden, o discurso que mais aparece (12%) é a preocupação com como será a atuação do presidente eleito em relação à Amazônia.

Como já mencionado, também é o grupo que concentra desinformação sobre as eleições, como acusações infundadas de que aconteceram fraudes para beneficiar o candidato democrata na disputa.


Parte desses tweets ainda usa as eleições americanas para lançar dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral brasileiro.

Rede azul (43,06% dos perfis)

Concentra principalmente informações e análises sobre as eleições americanas. Dos cem tweets com mais engajamento deste grupo, 57 foram classificados como comentários opinativos (30) e notícias (27) pela análise do Radar.

Dentre os comentários, a maioria —18, no total— dirigia críticas aos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro. Destacou-se, sobretudo, a mensagem do humorista Fabio Porchat, mencionando a denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro pelo suposto esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Em seguida, o tweet com mais repercussão foi do comentarista da GloboNews Guga Chacra.

Já no campo das notícias, as mensagens com mais engajamento foram uma do G1 informando, no sábado (7), a vitória de Joe Biden, e uma de Guga Chacra noticiando, na sexta-feira (6), que o democrata havia ultrapassado o republicano na contagem de votos no estado da Pensilvânia.

Nesta rede de discussão, também houve mensagens em tom de humor (24%) referentes à disputa americana e publicações celebrando a vitória de Joe Biden (19%). O tweet da chef Paola Carosella comemorando o resultado das urnas foi o de maior engajamento da rede — teve 34.040 curtidas e 1.724 retweets.

Rede verde (35,73% dos perfis)

Amplamente dominada por influenciadores digitais, a rede de tweets verde teve como seu maior expoente o youtuber Felipe Neto. Dos 100 tweets com mais engajamento, 17 foram criados por ele, abordando dois principais temas: comentários sobre o processo eleitoral dos EUA e críticas ao posicionamento de Donald Trump em alegar fraude nos votos pelos correios.

O tweet de Felipe Neto com mais engajamento é sobre a vitória do democrata Joe Biden no estado de Wisconsin, divulgado pelo canal CNN. A mensagem é acompanhada de um gif de humor.

O youtuber também criticou as alegações de fraude nos votos pelos correios levantadas por Donald Trump. Segundo o candidato derrotado, esses votos seriam “corruptos” e somente aqueles presenciais deveriam ser considerados legais. Trump incentivou os eleitores republicanos a não votarem pelos correios, optando pelo comparecimento no dia da eleição. Comentários acerca do processo eleitoral totalizaram 37% das mensagens no grupo verde.

Nesta rede, o influencer e criador do Voz da Comunidade, Rene Silva, também se destacou. É dele o tweet com mais engajamento no grupo, com mais de 100 mil interações. A publicação faz referência a um vídeo de pessoas comemorando na Filadélfia durante a apuração dos votos, que colocava Joe Biden à frente nos resultados. A gravação viralizou principalmente por trazer os norte-americanos dançando na rua ao som de “Baile de Favela”, do cantor Mc João.

Mas a categoria de mensagem que ocupou o grupo verde foi o humor. Dos 100 tweets analisados, 58% usaram memes para criticar o posicionamento de Donald Trump diante da derrota, expectativas sobre o comportamento do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e mensagens relacionadas à contagem de votos demorada.

Outro lado. Em contato com o Aos Fatos, Leandro Ruschel afirmou que "o procurador-geral americano acabou de abrir investigações, por 'alegações substanciais' de irregularidades nas eleições. Estaria ele promovendo desinformação? Não reconheço a legitimidade da sua agência, ou de nenhum outro órgão, para arbitrar a verdade e acredito que ela produz desinformação sistemática, buscando impor uma agenda de esquerda, em boa parte dos casos". A íntegra da resposta pode ser vista aqui.

A reportagem também entrou em contato com Allan dos Santos, Olavo de Carvalho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Caroline de Toni (PSL-SC) e Douglas Garcia (PTB-SP), mas não teve resposta até a publicação deste texto.

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