Substâncias presentes no boldo e na quina não tratam Covid-19

Por Amanda Ribeiro

21 de maio de 2020, 13h39


Publicações nas redes sociais reúnem informações falsas ao sustentar que o chá de boldo e a quina teriam eficácia no tratamento da Covid-19 (veja aqui). A desinformação tem origem em um áudio gravado pelo professor de química da Uema (Universidade Estadual do Maranhão) Antonio Frazão, embora ele alegue que se referia genericamente a uma ação antiviral das plantas. Mesmo assim, especialistas ouvidos por Aos Fatos apontam erros no que é dito no áudio.

Em resumo, o que checamos:

1. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde afirmam que nenhum tipo de chá provou-se eficaz no tratamento da Covid-19. Adriano Andricopulo, professor de química medicinal e planejamento de fármacos da USP (Universidade de São Paulo), aponta que beber a infusão de boldo pode trazer algum alívio em sintomas, mas sem efeito terapêutico;

2. A concentração de alcalóides nas folhas de boldo varia de 0,4% a 0,5%, segundo estudos farmacológicos, não de 20% a 22%, como indica o professor Frazão no áudio reproduzido nas redes sociais;

3. Já a planta quina não tem a mesma substância encontrada na hidroxicloroquina. Segundo o químico Gildo Girotto, pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), dela se extrai a quinina, que, apesar de combater a malária como a hidroxicloroquina, é um composto quimicamente diferente.

O áudio têm circulado no WhatsApp, onde não é possível medir com precisão seu alcance, e há ainda versões transcritas em publicações no Facebook que foram marcadas por Aos Fatos com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

Compartilhado no WhatsApp, áudio do Professor Frazão falando sobre o uso do chá de boldo como remédio natural no combate ao C-19. Segue a transcrição do áudio:

"A folha do boldo contém 20 à 22% de alcalóide tanino. E têm várias substâncias do grupo benzoquinolinicos que fazem parte da quina. Que os jesuítas antigamente usavam contra a malária. E davam quina. E que o governo proibiu na época dizendo que era um líquido do diabo. A quina, que vêm desse composto que tá liberado hidroxicloroquina. Então, chá de boldo minha filha. Chá de boldo. Aqui em casa tô dando chá de boldo uma vez por dia. Todo mundo. Meu pezinho tá pra acabar as folhas. É excelente para a recuperação de vírus. Tá bom. Repetindo pra ti e pra quem quiser ouvir." (Professor Frazão)

O chá de boldo não funciona como remédio contra a Covid-19 nem tem ação antiviral comprovada; a planta não possui de 20% a 22% de concentração de alcalóides; e um dos compostos encontrados na quina não é o mesmo da hidroxicloroquina. Essas afirmações enganosas constam em um áudio que circula no WhatsApp e cujo conteúdo aparece transcrito em publicações no Facebook.

O áudio foi gravado por Antonio Frazão, que é professor de química da Uema (Universidade Estadual do Maranhão). Ele alega que a mensagem originalmente não se referia à Covid-19, como tem sido atribuído nas redes sociais, mas à ação “antiviral” do boldo. Especialistas ouvidos por Aos Fatos, porém, desmentiram afirmações feitas por ele na gravação.

Chá. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde afirmam que, hoje, não existem evidências de que a infecção pelo novo coronavírus possa ser tratada ou curada com a ingestão de chás, como Aos Fatos já checou. Com o boldo não é diferente.

Adriano Andricopulo, professor de química medicinal e planejamento de fármacos da USP (Universidade de São Paulo), afirma que as propriedades anti-inflamatórias da planta podem até aliviar sintomas da doença, como febre e dores de garganta. O mesmo vale para os sintomas da gripe.

“Embora possa proporcionar algum alívio referente aos sintomas da doença, ele não possui princípios ativos em sua composição capazes de oferecer efeitos terapêuticos para a Covid-19. Simplesmente, não há evidência científica”. Alegação semelhante também foi desmentida por Aos Fatos no dia 14 de maio.

Substância. No áudio, o professor também erra ao citar a concentração de alcalóides (substâncias químicas extraídas de plantas) e de tanino no boldo. Em vez de 20% a 22%, o percentual estaria em torno de 0,4% a 0,5%, de acordo com estudo publicado na Revista Brasileira de Farmacognosia.

Já o tanino, também presente no boldo, chega a 1,2%, segundo a dissertação de mestrado do pesquisador em Alimentos e Nutrição da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) Xavier Maia Mariano.

“O boldo-do-chile (Peumus boldus) e o boldo-da-terra (Plectranthus barbatus) têm composições químicas similares, consistindo de alcalóides (principalmente a boldina), flavonoides, terpenos, óleo essencial, tanino, entre outros”, afirmou Andricopulo.

Cloroquina. Tampouco é verdade, como diz Frazão no áudio, que a planta quina tem um composto encontrado na hidroxicloroquina. De acordo com o químico Gildo Girotto, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas, a quinina, extraída da planta, é quimicamente diferente do remédio que tem sido indicado por bolsonaristas para tratar a Covid-19.

“A confusão (proposital ou não) cometida neste caso é que, da planta quina ou árvore Chinona, pode-se extrair a quinina, que é uma substância de origem natural que combate a malária. Como a hidroxicloroquina é também usada no combate a malária as pessoas associaram que é a mesma coisa ou que são semelhantes. Mas, quimicamente falando têm estruturas diferentes e ações diferentes no corpo”, explicou.

Outro lado. Procurado por Aos Fatos, o professor Antonio Frazão reiterou as informações falsas ditas no áudio, mas alegou que a mensagem não se referia à Covid-19 especificamente, mas a ações antivirais das plantas: “tem registro do boldo e da quina como antivirais desde a colonização”.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
2. Scielo
3. Unirio


De acordo com nossos esforços para alcançar mais pessoas com informação verificada, Aos Fatos libera esta reportagem para livre republicação com atribuição de crédito e link para este site.