José Cruz/Agência Brasil

O que Bolsonaro falou do coronavírus — e o que é fato

16 de março de 2020, 20h25


O presidente Jair Bolsonaro tem reiteradamente dado declarações falsas ou contraditórias sobre o novo coronavírus desde que o governo brasileiro confirmou o primeiro caso de infecção no país, no dia 26 de fevereiro. Ao longo das próximas semanas, enquanto monitora desinformação sobre o coronavírus, Aos Fatos vai verificar, contextualizar e, se necessário, desmentir, todas as declarações do presidente Jair Bolsonaro a respeito do vírus e de seus impactos econômicos e sociais no país e no mundo.

Em discursos, entrevistas e pronunciamentos, Bolsonaro pediu que a população tomasse precauções recomendadas pelo Ministério da Saúde, como evitar aglomerações, mas também incentivou que descumprissem as mesmas regras ao estimular que apoiadores saíssem às ruas em atos pró-governo.

Ele próprio também tomou atitudes que vão contra as recomendações de distanciamento social do Ministério da Saúde e de órgãos internacionais. Dias depois de um pronunciamento em que alertava sobre os riscos de os protestos disseminarem o novo coronavírus, o presidente saiu à porta do Palácio do Planalto para cumprimentar apoiadores durante a realização de uma das manifestações. Na ocasião, o presidente afirmou que a pandemia tem sido tratada com medidas que beiram a “neurose”. Ao menos 7.529 pessoas já morreram em decorrência da novo vírus, de acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgados no dia 17 de março.


25 DE MARÇO


FALSO

Ontem, ouvi o relato das palavras do presidente Trump nos Estados Unidos. Tá numa linha semelhante à minha. (...) E pelo que tudo indica, ele vai reabrir a partir de hoje os postos de trabalho.

A declaração de Bolsonaro é FALSA, porque Donald Trump não indicou que pretende reabrir o comércio e demais estabelecimentos do país a partir desta quarta-feira (25). Na verdade, na última terça-feira (24), o presidente dos Estados Unidos disse que gostaria de “reabrir” a economia americana até o domingo de Páscoa, que cai no dia 12 de abril. “Nós estamos abrindo esse país incrível. Porque precisamos fazer isso. Eu adoraria fazer isso até a Páscoa”, disse Trump durante evento na Casa Branca.

Em entrevista algumas horas mais tarde, Trump ainda ainda destacou que essa possibilidade de reabertura na Semana Santa era apenas uma intenção. “Só faremos isso se for bom”, disse.


IMPRECISO

Ele [o presidente americano, Donald Trump] já anunciou via FDA, sua Anvisa de lá, a liberação para alguns casos da cloroquina.

Diferentemente do que afirma o presidente Jair Bolsonaro, a FDA (Food and Drug Administration), agência sanitária americana, não liberou o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina para o tratamento de casos específicos de Covid-19. Em comunicado publicado no dia 19 de março, a agência informou que “está trabalhando ao lado de outras agências governamentais e centros acadêmicos para investigar o uso da cloroquina, que já é aprovada no tratamento de malária, lúpus e artrite reumatoide, para determinar se pode ser usada também no tratamento de pacientes com Covid-19 de grau leve a moderado”. Isso significa que os estudos ainda estão em fase experimental.

Em nota do dia 24, a FDA alertou, ainda, que não há nenhum produto aprovado para tratamento de Covid-19. “A FDA está ciente de que pessoas vêm tentando se prevenir da Covid-19 usando um produto chamado fosfato de cloroquina, vendido para tratar parasitas em aquários. Produtos para uso veterinário ou uso em pesquisa podem ter efeitos adversos, incluindo doenças graves e a morte, quando usados por pessoas. A agência alerta para que não sejam usados nenhum tipo de cloroquina a não ser que haja uma prescrição de um profissional de saúde obtida de fontes legítimas”.

Atualmente, pesquisadores de várias partes do mundo têm conduzido testes clínicos para determinar se a cloroquina ou a hidroxicloroquina, um de seus derivados, são eficazes no tratamento da infecção causada pelo novo coronavírus. Apesar de alguns dados preliminares, como o de um estudo francês que teve resultados iniciais compartilhados nas redes na última semana, mostrarem uma reação positiva dos pacientes tratados com o remédio, outra pesquisa, chinesa, indicou o contrário.


IMPRECISO

Quem tá são o risco é quase zero. O problema é acima dos 60 anos ou quem tem algum problema de saúde.

Por mais que a OMS enquadre em grupos de risco da Covid-19 apenas pessoas acima dos 60 anos ou com algum comprometimento prévio de saúde, como diabetes, câncer e depressão, é impreciso afirmar que os mais jovens e saudáveis não correm qualquer tipo de risco com a infecção do novo coronavírus.

Segundo artigo do CDC (Center for Disease Control) com base em dados dos EUA, 20% dos pacientes com Covid-19 internados estavam na faixa dos 20 aos 44 anos. Segundo o epidemiologista da Universidade de Columbia Stephen Morse, ouvido pelo jornal The New York Times, “não serão apenas os idosos. Haverá pessoas com 20 anos ou mais. Eles precisam ter cuidado, mesmo que pensem que são jovens e saudáveis”.


24 DE MARÇO


FALSO

... caso fosse contaminado pelo vírus, [eu] não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito acometido de uma gripezinha ou resfriadinho… - Pronunciamento em 24 de março

Neste trecho do pronunciamento, o presidente Jair Bolsonaro volta a minimizar os riscos do novo coronavírus e a comparar a enfermidade com uma simples gripe, o que é FALSO, de acordo com estudos existentes. Ainda não é possível atestar a taxa de mortalidade do novo coronavírus, mas cientistas apontam que há uma maior letalidade em comparação à gripe comum.

A Universidade de Bern, por exemplo, estimou que o Covid-19 apresenta letalidade de 1,6%. Já a taxa de mortalidade da gripe comum é de 0,1%, conforme mostra o CDC, órgão de prevenção de doenças dos EUA. Já a gripe H1N1, que teve um surto em 2009, apresentou taxas entre 0,01% a 0,08%.

Além disso, já se sabe que o novo coronavírus é mais perigoso para pessoas com doenças crônicas e idosos, que têm sistema imunológico mais fraco. Um exemplo lastreado por dados é a taxa aproximada de fatalidade do coronavírus em Hubei, na China: nos infectados com idades entre 60 e 69 anos de idade, a taxa de letalidade chegou a 4,6%. O presidente Bolsonaro completou 65 anos de idade no último dia 21 de março.


FALSO

O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então por que fechar escolas?

Ainda que seja correto que os idosos é que fazem parte de grupo de risco da Covid-19 cientistas e autoridades de saúde consideram que crianças são potenciais disseminadores da doença, uma vez que tendem a apresentar sintomas pouco graves. Logo, a premissa do argumento de Bolsonaro é FALSA, porque o fechamento de escolas pode ajudar a conter a disseminação da doença, inclusive entre os mais velhos.

Em entrevista ao New York Times, o pediatra e especialista em doenças infecciosas Bessey Geevarghese, afirma que “mesmo se as crianças estão com sintomas leves, elas servem como reservatórios da infecção e podem passar a doença para adultos, especialmente os idosos”. Isso significa que, ao comparecer à escola, uma criança infectada pode transmitir a doença a colegas, professores e servidores, que, por sua vez, podem infectar outras pessoas, algumas possivelmente integrantes de grupos de risco.

A medida de cancelamento das aulas presenciais também atende à recomendação de autoridades de saúde de evitar aglomerações e de manter uma distância segura de ao menos um metro de entre as pessoas. A estratégia foi adotada até agora em mais de 150 países que tiveram casos da doença confirmados, de acordo com levantamento feito pela Unesco.

Em entrevista à Vox, o professor de medicina da Universidade de Virginia Steven Zeichner afirma que a medida é necessária para interromper o surto. “Eu acho que estamos no início de um problema [que pode potencialmente] crescer de forma exponencial, e se você quer estar à frente desse problema exponencial, é preciso intervir logo no início”.


CONTRADITÓRIO

Desde quando resgatamos nossos irmãos em Wuhan, na China, numa operação coordenada pelos Ministérios da Defesa e Relações Exteriores, surgiu para nós o sinal amarelo. - Pronunciamento em 24 de março

A declaração de Bolsonaro é CONTRADITÓRIA, porque, dias antes de anunciar no dia 2 de fevereiro o resgate dos brasileiros em quarentena na região de Wuhan, na China, o presidente havia descartado a possibilidade de realizar a operação. Em entrevista coletiva na porta do Palácio do Planalto no dia 31 de janeiro, Bolsonaro afirmou que custava caro um voo até o país asiático. "Na linha, se for fretar um voo, acima de US$ 500 mil o custo. Pode ser pequeno para o tamanho do orçamento brasileiro, mas precisa de aprovação do Congresso".

Além do custo da operação, o presidente ressaltou, à época, que não colocaria a vida dos brasileiros em risco, porque, mesmo que organizasse uma quarentena, qualquer ação judicial poderia liberar os quarentenados. “Se lá [na China] temos algumas dezenas de vidas, aqui temos 210 milhões de brasileiros. Então, é uma coisa que tem que ser pensada, conversada antecipadamente com o chefe do Poder Judiciário, conversado com o Parlamento também”.

Bolsonaro acabou por mudar de posicionamento alguns dias depois, após os brasileiros em Wuhan gravarem um vídeo lendo uma carta endereçada à Presidência da República e ao Ministério das Relações Exteriores, solicitando ajuda para serem trazidos de volta ao país.


INSUSTENTÁVEL

90% de nós não teremos qualquer manifestação, caso se contamine. - Pronunciamento em 24 de março

Ainda não há dados conclusivos sobre qual a proporção de casos assintomáticos entre os infectados pelo novo coronavírus, por isso a declaração foi classificada como INSUSTENTÁVEL. Contudo, estudos e dados preliminares têm mostrado que, apesar de significativa, a parcela dos casos sem sintomas é menor do que a indicada por Bolsonaro.

Uma reportagem do jornal South China Morning Post publicada no domingo (22) afirmou que, de acordo com informações confidenciais das autoridades chinesas, até 30% dos infectados pelo vírus no país pode não ter apresentado sintomas. Epidemiologistas do Japão chegaram a uma porcentagem parecida de casos sem sintomas (30,8%) ao analisar dados de cidadãos japoneses evacuados da China no começo da pandemia.

Já um artigo de pesquisadores chineses (ainda não revisado por outros acadêmicos) estima que 59% dos casos de Wuhan, cidade onde a pandemia começou, podem não ter sido detectados. Esse número "potencialmente inclui casos assintomáticos ou com sintomas leves", escrevem.

Um número próximo ao que Bolsonaro cita apareceu em um trabalho de pesquisadores dos EUA, Reino Unido e China: analisando casos de 10 a 23 de janeiro na China, eles estimam que 86% dos infectados não tenham sido detectados. Isso, porém, não significa necessariamente que todos esses casos eram assintomáticos – pode indicar, por exemplo, a escassez de testes para a doença na época, como escrevem os próprios cientistas.


INSUSTENTÁVEL

[A Itália tem] um clima totalmente diferente do nosso. - Pronunciamento em 24 de março

Bolsonaro sugere aqui que, por ser predominantemente tropical, o Brasil sofreria menos com a pandemia do novo coronavírus do que a Itália, que tem clima mediterrâneo. Embora estudos preliminares de fato indiquem que o vírus pode demorar mais para se espalhar em ambientes mais quentes, ainda não há um consenso entre pesquisadores sobre essa questão. Na verdade, a curva de contaminação no Brasil, por enquanto, é superior à curva italiana, mesmo estando entre o verão e o outono. Por isso, a declaração foi considerada INSUSTENTÁVEL.

Um estudo desenvolvido pela universidade chinesa Sun Yat-sen indicou que o Sars-Cov-2 é um vírus “altamente sensível à temperatura” e que tem menor probabilidade de disseminação em climas mais quentes. Isso, no entanto, não impediria o vírus de se espalhar, apenas desaceleraria o processo. Em outro artigo, pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology) também indicaram que comunidades localizadas em regiões com médias de temperatura mais altas tinham vantagem significativa no tempo de contaminação da população em comparação com outras localizadas em locais mais frios.

Mas isso ainda não é um consenso entre a comunidade de saúde. De acordo com Mike Ryan, diretor-executivo do programa de emergências em saúde da OMS, pode ser uma falsa esperança considerar que a Covid-19 desaparecerá com a mudança de temperatura, como o que ocorre todos os anos com a gripe sazonal. “Nós temos que assumir que o vírus continuará com a capacidade de se espalhar”.

Também é importante ressaltar que os estudos se baseiam em uma quantidade limitada de dados e mostram, portanto, apenas resultados preliminares. Os artigos também não foram submetida ao escrutínio de outros pesquisadores para a verificação das metodologias e das estratégias de análise de dados adotadas.


IMPRECISO

Uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão. - Pronunciamento em 24 de março

Neste trecho do pronunciamento, o presidente faz uma referência a Dráuzio Varella que, em vídeo publicado em seu canal no YouTube em 30 de janeiro — antes que fosse decretada a pandemia, portanto — afirmou que o novo coronavírus causaria à maioria da população “um resfriadinho de nada”. O que Bolsonaro omite é que o médico já se corrigiu ao menos três vezes, alertando para o isolamento social e para a adoção de medidas de higiene. Logo, por tirar uma informação de contexto, de acordo com a metodologia do Aos Fatos, a fala do presidente é considerada IMPRECISA.

O vídeo de janeiro, inclusive, já foi apagado do portal em que Dráuzio Varella reúne informações de saúde e um novo foi publicado com atualizações sobre a pandemia.

No último sábado (21), o senador Flávio Bolsonaro (sem partido) e o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles compartilharam o vídeo antigo no Twitter sem informar a data. Posteriormente, as publicações foram removidas pela rede social por violar as regras de uso da plataforma e “colocar as pessoas em maior risco de transmitir Covid-19”, segundo informou o Twitter.

A falsa alegação disseminada pelo senador e pelo ministro também foi republicada por sites conhecidos pela difusão de desinformação com títulos enganosos, como "Drauzio Varella concordou com Bolsonaro: 'resfriadinho de nada'”. Tais publicações foram checadas como FALSAS por Aos Fatos.


VERDADEIRO

Raros são os casos fatais de pessoas sãs com menos de 40 anos de idade. - Pronunciamento em 24 de março

Segundo estudo preliminar com base nos dados chineses publicado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), as mortes causadas pelo novo coronavírus ocorrem principalmente na faixa etária acima de 60 anos e entre pessoas com algum comprometimento prévio de saúde, como diabetes, câncer ou hipertensão.

Levantamento recente feito pela Vox com dados sobre a morte por coronavírus de diversos países mostra que o índice vai aumentando à medida que cresce a faixa etária, mas não passa de 0,5% dos casos nas faixas menores que 45 anos. Em alguns dos casos de morte antes desta idade no entanto, há indícios de que as pessoas apresentavam complicações de saúde.

Isso não significa, no entanto, que os mais jovens não apresentem sintomas que demandem cuidados médicos. Segundo artigo do CDC (Center for Disease Control) com base em dados americanos, 20% dos pacientes com Covid-19 internados estavam na faixa dos 20 aos 44 anos. Segundo o epidemiologista da Universidade de Columbia Stephen Morse, ouvido pelo New York Times, “não serão apenas os idosos. Haverá pessoas com 20 anos ou mais. Eles precisam ter cuidado, mesmo que pensem que são jovens e saudáveis”.


VERDADEIRO

[A Itália é] um país com grande número de idosos - Pronunciamento em 24 de março

Bolsonaro acerta ao afirmar que a população italiana tem uma porcentagem maior de pessoas idosas do que o Brasil: de acordo com estimativas do Banco Mundial, há atualmente no país europeu 60,4 milhões de habitantes, sendo que 23,2% deles estão acima dos 65 anos. No Brasil, a taxa é bem menor: apenas 9,6% dos 212,5 milhões habitantes são idosos. Autoridades de saúde internacionais, como a OMS, enquadram esse perfil etário entre os grupos de risco de contraírem infecções graves pela Covid-19.


23 DE MARÇO


FALSO

Esclarecemos que a referida MP, ao contrário do que espalham, resguarda ajuda possível para os empregados. Ao invés de serem demitidos, o governo entra com ajuda nos próximos 4 meses, até a volta normal das atividades do estabelecimento, sem que exista a demissão do empregado. - Em postagem no Twitter em 23 de março

A declaração é FALSA, porque, diferentemente do que diz Bolsonaro, a Medida Provisória 927, que flexibiliza as leis trabalhistas durante a pandemia do novo coronavírus, não previa nenhuma ajuda do governo quando o empregado tivesse o seu contrato trabalhista suspenso.

Publicada na noite do último domingo (22), a MP trazia no artigo 18 a possibilidade de as empresas suspenderem contratos empregatícios por quatro meses sem pagamento de salário desde que garantissem ao empregado a participação em curso de qualificação online. Segundo o texto, o empregador era quem poderia, se desejasse, conceder ao empregado "ajuda compensatória mensal, sem natureza salarial, durante o período de suspensão contratual".

Horas depois de ter assinado a MP e de ter feito esta publicação no Twitter, o presidente disse na mesma rede social que revogaria o artigo 18 da MP, mas até a conclusão desta checagem, às 17h do dia 23 de março, essa decisão ainda não tinha sido oficialmente publicada no Diário Oficial da União.


FALSO

Ninguém tá demitindo ninguém [por conta do coronavírus]. - Entrevista em 23 de março

A declaração é FALSA, porque, diferentemente do que afirma Bolsonaro, estabelecimentos como bares, restaurantes e lojas já fizeram demissões em massa por conta da pandemia do novo coronavírus. De acordo com a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), por exemplo, 5.000 pessoas que trabalham no ramo já perderam seus empregos apenas no Ceará, onde os estabelecimentos estão proibidos de funcionar por decreto publicado pelo governo estadual na última quinta-feira (19).

Associações de lojistas também afirmaram que outras demissões devem ocorrer nas próximas semanas. Em reportagem da revista Exame, entidades patronais como a Abrasel e a Ablos (Associação Brasileira das Lojas Satélites) estimam que cerca de 5 milhões de pessoas perderão seus empregos apenas no comércio até o fim do mês de abril.


CONTRADITÓRIO

- Determinei a revogacao do art.18 da MP 927 que permitia a suspensão do contrato de trabalho por até 4 meses sem salário. - Em postagem no Twitter

Bolsonaro se contradiz ao admitir que trabalhadores poderiam ficar sem receber salários por causa da Medida Provisória 927, que flexibiliza leis trabalhistas durante a pandemia do novo coronavírus. O artigo 18 da MP previa que empresas pudessem suspender contratos empregatícios por quatro meses, mas Bolsonaro havia dito em seu Twitter que o governo entraria “com uma ajuda” para os trabalhadores suspensos nesse período.

O texto da MP, na verdade, não dizia isso – a medida previa que o empregador era quem poderia, se desejasse, conceder ao empregado "ajuda compensatória mensal, sem natureza salarial, durante o período de suspensão contratual". O artigo 18, que trazia essa possibilidade, foi revogado horas depois de o presidente ter assinado a MP.

É importante ressaltar que a revogação do artigo só passa a valer a partir do momento em que é publicada no DOU (Diário Oficial da União). Até a conclusão desta checagem, às 17h do dia 23 de março, não havia indicativo de uma edição extra com a decisão do presidente.


VERDADEIRO

Não tem vacina e por enquanto não tem tratamento. - Em entrevista em 23 de março

Ainda não existe nenhuma vacina ou medicamento específico capaz de prevenir ou curar a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, como informa o site oficial da OMS (Organização Mundial da Saúde). Logo, a afirmação de Bolsonaro é VERDADEIRA.

Segundo o órgão, “possíveis vacinas e alguns tratamentos específicos estão sob investigação. Eles estão sendo verificados por meio de testes clínicos”. Por ora, autoridades de saúde recomendam apenas medidas para aliviar os sintomas da infecção: antitérmicos e analgésicos podem ser usados para febre e dor, e umidificadores e banhos quentes para dor de garganta e tosse.


22 DE MARÇO


VERDADEIRO

Está faltando esse remédio na farmácia e eles são usados para combater malária, artrite e lúpus. - Entrevista em 22 de março

Bolsonaro faz referência à cloroquina e à hidroxicloroquina, medicamentos usados no combate a doenças como malária, artrite reumatoide e lúpus que mostraram resultados preliminares positivos no tratamento de Covid-19 em testes feitos em países como França e China. Mesmo sem comprovação de que as drogas sejam realmente eficazes para o tratamento da doença, ocorreu um rápido desabastecimento de farmácias ao longo da última semana.

Para evitar a automedicação de pacientes com suspeita de infecção por coronavírus, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou que os medicamentos com as drogas sejam vendidos apenas com prescrição médica. Em nota, a agência afirmou que “apesar de alguns resultados promissores, não há nenhuma conclusão sobre o benefício do medicamento no tratamento do novo coronavirus. Ou seja, não há recomendação da Anvisa, no momento, para a sua utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus”.


21 DE MARÇO


CONTRADITÓRIO

- Reconheço a seriedade do momento e o temor de muitos brasileiros ante à ameaça do coronavírus. - Postagem no Twitter em 21 de março

Apesar de dizer que reconhece a seriedade do momento no Brasil e no mundo em razão da pandemia do novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro minimizou em diversos momentos anteriores o impacto do vírus na saúde pública brasileira e menosprezou recomendações de autoridades como a OMS (Organização Mundial de Saúde) e o próprio Ministério da Saúde.

Em entrevista coletiva no dia 20 de março, Bolsonaro classificou a Covid-19 como uma “gripezinha”. No dia seguinte, ele refutou a afirmação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, de que haveria um colapso no sistema de saúde brasileiro e manteve seu discurso de que a doença era inofensiva. “E pode ter certeza que para 60% dos brasileiros não será nem uma gripezinha, não será nada, nem tomarão conhecimento.”

Em outras ocasiões, Bolsonaro já havia afirmado que a doença, que vitimou até agora cerca de 14 mil pessoas no mundo, seria menos mortal que alguns surtos de gripe. Dados mostram, no entanto, que o coronavírus é mais letal do que a gripe H1N1, cujo surto global ocorreu em 2009. À época, houve 300 mortos associados aos 77 mil primeiros casos, o que leva a uma taxa de mortalidade de 0,4%. Mais tarde, essa taxa se concretizou em números mais baixos, que variavam de 0,01% a 0,08%. No caso da Covid-19, essa taxa de mortalidade gira em torno de 1% até o momento.

As ações de Bolsonaro ao longo das últimas semanas também contradizem a sua fala de que reconhece a seriedade da pandemia. No dia 15 de março, por exemplo, quando o Ministério da Saúde já havia recomendado o isolamento social para evitar a disseminação do vírus, o presidente apareceu à porta do Palácio do Planalto para cumprimentar apoiadores, que participavam de um ato pró-governo naquele dia. A estimativa é que Bolsonaro tenha mantido contato com cerca de 270 pessoas na ocasião.


INSUSTENTÁVEL

Para mais de 60% dos brasileiros não será nada, nem tomarão conhecimento, nem sentirão caso venham a ser infectados. - Entrevista em 21 de março

Ainda não há dados conclusivos sobre qual a proporção de casos assintomáticos entre os infectados pelo novo coronavírus, por isso a declaração foi classificada como INSUSTENTÁVEL. Contudo, estudos e dados preliminares têm mostrado que, apesar de significativa, a parcela dos casos sem sintomas é menor do que a indicada por Bolsonaro.

Uma reportagem do jornal South China Morning Post publicada no domingo (22) afirmou que, de acordo com informações confidenciais das autoridades chinesas, até 30% dos infectados pelo vírus no país pode não ter apresentado sintomas. Epidemiologistas do Japão chegaram a uma porcentagem parecida de casos sem sintomas (30,8%) ao analisar dados de cidadãos japoneses evacuados da China no começo da pandemia.

Já um artigo de pesquisadores chineses (ainda não revisado por outros acadêmicos) estima que 59% dos casos de Wuhan, cidade onde a pandemia começou, podem não ter sido detectados. Esse número "potencialmente inclui casos assintomáticos ou com sintomas leves", escrevem.

Um número maior apareceu em um trabalho de pesquisadores dos EUA, Reino Unido e China: analisando casos de 10 a 23 de janeiro na China, eles estimam que 86% dos infectados não tenham sido detectados. Isso, porém, não significa necessariamente que todos esses casos eram assintomáticos – pode indicar, por exemplo, a escassez de testes para a doença na época, como escrevem os próprios cientistas.


IMPRECISO

Essas pessoas que reclamam de mim que não tomei providência, como por exemplo o senhor governador de São Paulo, tem que lembrar que no dia 23 de fevereiro ele tava na Sapucaí no Rio de Janeiro. - Entrevista em 21 de março

Mais uma vez, o presidente Jair Bolsonaro menciona a participação de políticos em eventos públicos para justificar seu comportamento frente ao surto de Covid-19. O governador de São Paulo, João Doria, de fato compareceu ao camarote do governador do Rio, Wilson Witzel, na Sapucaí em 23 de fevereiro. No entanto, naquele dia, ainda não havia nenhum caso confirmado de infecção pelo novo coronavírus no Brasil.

O primeiro caso registrado no país foi anunciado pelo Ministério da Saúde dois dias depois, no dia 25. O paciente, internado em São Paulo, tinha histórico de viagem ao exterior. O primeiro caso no estado do Rio de Janeiro foi confirmado alguns dias mais tarde, em 5 de março.

Como a recomendação do Ministério da Saúde de evitar contato social e aglomerações ocorreu apenas no dia 13 de março, mais de duas semanas depois, a declaração foi classificada como imprecisa.


IMPRECISO

No dia seguinte, [o governador do estado de São Paulo, João Doria] tava no lançamento da CNN com 1.300 pessoas do seu lado. - Entrevista em 21 de março

Bolsonaro mais uma vez se defende de críticas relacionadas ao seu comportamento durante a pandemia do coronavírus mencionando a festa de lançamento da CNN Brasil, que ocorreu na Oca do Parque Ibirapuera, em São Paulo, no dia 9 de março. O evento de fato contou com a presença de 1.300 convidados, entre eles políticos como o governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB).

É importante ressaltar, no entanto, que naquele momento ainda não havia a recomendação do Ministério da Saúde de evitar contato social, o que só ocorreu no dia 13 de março, quatro dias depois. Por isso, a declaração foi classificada como imprecisa.

No dia 9 de março, o Brasil registrava 25 casos confirmados de coronavírus e 663 casos suspeitos, e a pasta aconselhava, como método de prevenção, medidas básicas de higiene como lavar as mãos regularmente e cobrir a boca e o nariz com o braço na hora de espirrar.

Em nota enviada ao Aos Fatos por email, a CNN Brasil explica que “não havia qualquer recomendação ou restrição para a realização de evento público. Por iniciativa da própria CNN Brasil, colocamos no local do evento, vários pontos de uso de álcool em gel à disposição dos convidados”. Também ressalta que não foram identificados, entre os profissionais da emissora e convidados, suspeitos de terem Covid-19.


VERDADEIRO

Na última sexta-feira, o almirante Antônio Barra, presidente da Anvisa, decidiu que a cloroquina não poderá ser vendido para outros países. - Discurso em 21 de março

De fato, a Anvisa decidiu restringir a exportação de hidroxicloroquina e cloroquina na última sexta-feira (20), temendo o desabastecimento das farmácias. Ao longo da última semana, estudos ainda em fase preliminar indicaram que as drogas podem ser eficazes no tratamento da Covid-19. Mesmo sem comprovação, pessoas correram às farmácias para comprar o medicamento, usado no tratamento de doenças como a malária, o lúpus e a artrite reumatoide

De acordo com o diretor-presidente da instituição, Antonio Barra Torres, em entrevista ao jornal O Globo, “A partir de hoje para ser exportado ele precisará de anuência e essa anuência não será dada, a não ser em situações muito especiais a serem analisadas”. O diretor da agência ressaltou ao jornal que a medida não estava sendo tomada por conta do surto de Covid-19, mas sim para garantir que pessoas que realmente precisam do medicamento não fiquem desabastecidas.


VERDADEIRO

Afinal, esse medicamento [cloroquina] também é usado no Brasil para combater a malária, o lúpus e a artrite. - Discurso em 21 de março

A informação é verdadeira. A cloroquina e um de seus derivados, a hidroxicloroquina, são de fato utilizadas no tratamento da malária e doenças autoimunes como o lúpus e a artrite.


20 DE MARÇO


VERDADEIRO

Lá [na China], que a curva tá em descendência, os hospitais estão sendo desativados. - Em entrevista no dia 20 de março

De fato, a China já registra uma queda acentuada de novos casos confirmados de coronavírus. Segundo dados da OMS, desde o dia 12 de fevereiro, quando o país teve 15.200 novos casos, o número tem caído. No dia 19 de março, último dado disponível, foram registrados 126 novos casos no país.

Segundo artigo da Nature, dois meses após o início das quarentenas, o número de novos casos registrados passou de milhares por dia para algumas dúzias. Os especialistas acreditam que a descendência da curva se deve ao efeito combinado dos isolamentos e das proibições de viagens interurbanas.

Também é verdade que o país desativou 16 hospitais temporários que foram construídos em Wuhan, local onde o surto de coronavírus teve início, no último dia 10. Segundo o presidente chinês, Xi Jinping, a decisão se deu porque a situação está estabilizada no local.


VERDADEIRO

Uma pessoa com alimentação deficitária é mais propensa, ao pegar o vírus, complicar sua situação sanitária. - Em entrevista em 20 de março

A declaração de Bolsonaro é verdadeira. O Ministério da Saúde, em resposta ao Aos Fatos, afirmou que “pessoas com deficiências alimentares podem ter o sistema imunológico fragilizado, o que possibilita a infecção pelo coronavírus e a evolução para quadros mais severos”.


19 DE MARÇO


IMPRECISO

Os Estados Unidos liberou remédio com potencial para tratar do coronavírus.

Bolsonaro se refere ao anúncio de Trump feito no mesmo dia sobre o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. A fala do presidente brasileiro, no entanto, é imprecisa, porque não leva em consideração que o medicamento foi aprovado apenas para tratamento experimental, e não totalmente liberado para uso uso.

Trump disse que pediu à FDA (Food and Drug Administration, agência de vigilância sanitária americana) que elimine barreiras para dar à população acesso a drogas que possam tratar a infecção pelo novo coronavírus, dentre elas a hidroxicloroquina.

O diretor da FDA, Stephen Hahn, disse nesta sexta-feira (20) que a agência tem se empenhado em descobrir, “em meio ao mar de novos tratamentos”, o medicamento correto na dosagem correta para eliminar o vírus. Sobre a hidroxicloroquina, afirmou que "é uma droga que o presidente pediu que observássemos mais de perto para determinar se realmente pode beneficiar pacientes. E, outra vez, queremos fazer isso com o uso de testes clínicos, grandes e pragmáticos testes clínicos para realmente conseguir essa informação”.

Em comunicado oficial divulgado sobre o assunto, a FDA informou que os estudos ainda estão “em andamento para determinar a eficácia do uso de cloroquina no tratamento do Covid-19”. O órgão norte-americano também ressaltou que ainda é preciso determinar se o medicamento pode ser usado para tratar pacientes com Covid-19 leve a moderado e entender como ele atua na redução da disseminação viral, o que pode ajudar a impedir a propagação da doença.


18 DE MARÇO


FALSO

Não descumpro qualquer orientação sanitária por parte do senhor ministro da Saúde, a nossa autoridade máxima no momento sobre esse caso. — Entrevista coletiva em 18 de março

A declaração é falsa, porque Jair Bolsonaro descumpriu orientações sanitárias dadas pelo Ministério da Saúde em meio à pandemia do novo coronavírus. No domingo (15), ele cumprimentou manifestantes pró-governo na frente do Palácio do Planalto, o que vai contra a recomendação da pasta de que aglomerações sejam evitadas.

Análise feita pelo jornal O Estado de S. Paulo aponta que ele teve contato direto com ao menos 272 pessoas em cerca de 58 minutos. O presidente também divulgou esses protestos em suas redes sociais.

Na ocasião, Bolsonaro havia realizado um teste para o novo coronavírus porque esteve em viagem aos EUA com o chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação da Social), Fabio Wajngarten, que fora diagnosticado com a covid-19. O resultado do primeiro exame do presidente já havia sido negativo, mas ele ainda precisaria repeti-lo. O resultado do segundo teste —também negativo — foi divulgado nesta terça-feira (17).


FALSO

Não convoquei ninguém, não existe nenhum áudio, nenhuma imagem minha convocando para o 15 de março de 2020. — Entrevista coletiva à imprensa em 18 de março

Bolsonaro volta a repetir uma declaração FALSA sobre sua participação nos atos que ocorreram no Brasil no último domingo (15). Como mostrado por Aos Fatos em outros três momentos (aqui, aqui e aqui), o presidente convocou, sim, a população para as manifestações.

No fim de fevereiro, a jornalista do jornal O Estado de S. Paulo e BR Político, Vera Magalhães, noticiou que o celular pessoal do presidente foi usado para enviar a aliados mensagens de mensagens de apoio aos atos do dia 15. Em um dos vídeos, lê-se “15 de março. Gen Heleno/Cap Bolsonaro. O Brasil é nosso, não dos políticos de sempre”.

Depois de negar a convocação e atacar a jornalista publicamente, Bolsonaro incentivou publicamente a participação nos atos. No dia 7 de março, em discurso em Boa Vista (RR), o presidente disse: "Dia 15 agora tem um movimento de rua espontâneo, um movimento espontâneo. (...) Então participem, não é um movimento contra o Congresso, contra o Judiciário, é um movimento pró-Brasil". O vídeo pode ser assistido no Twitter de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

No dia 10 de março, a Secom (Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República) também divulgou as manifestações no Twitter.


FALSO

... eu não fui ao encontro de movimento nenhum, muito pelo contrário, me orgulho: o movimento que veio ao meu encontro. — Entrevista coletiva em 18 de março

Diferentemente do que afirmou Bolsonaro, ele deixou o Palácio da Alvorada e foi de carro oficial até o local onde estavam ocorrendo as manifestações. Em seguida, os apoiadores seguiram o presidente até o Palácio do Planalto. O presidente, então, subiu a rampa do Palácio do Planalto, iniciou uma transmissão ao vivo e foi ao encontro dos manifestantes.

Em 50 minutos de vídeo, é possível ver que Bolsonaro cumprimentou 140 pessoas, manuseou ao menos 128 celulares, trocou ao menos quatro objetos com a plateia, entre eles um boné, e segurou na mão de apoiadores, segundo o levantamento do jornal O Estado de S. Paulo.


FALSO

Da minha parte, vocês não viram, até o momento, nenhuma só crítica minha ao longo dos últimos 15 meses. A não ser ao vivo, agora, junto à CNN, no último domingo, que eu falei algumas poucas palavras, mas em momento nenhum de agressão e ofensa a esses Poderes. — Entrevista coletiva em 18 de março

Não é verdade que a única vez que Bolsonaro criticou o Legislativo e o Judiciário foi no dia 15 de março, quando, em entrevista à CNN Brasil, disse que a decisão do Congresso sobre a partilha do Orçamento seria um “desmando” e que acordos não deveriam acontecer entre os poderes, mas “entre nós e o povo”. Aos Fatos encontrou ao menos outras três ocasiões nas quais o presidente atacou os outros poderes: quando criticou um projeto de lei aprovado pelo Congresso, em junho de 2019, quando postou em seu Twitter um vídeo hostil ao STF (Supremo Tribunal Federal), em outubro do mesmo ano, e quando incentivou o comparecimento aos atos anti-Congresso e anti-Judiciário do último dia 15.

Ao criticar um projeto de lei aprovado no Congresso em junho de 2019 que mudava o processo de indicação de dirigentes de agências reguladoras, Bolsonaro disse que o Congresso não teria critérios e estaria tentando retirar seus poderes: “Eu não posso mais indicar. Por exemplo, indiquei há pouco aí uma pessoa para a Anvisa. Se isso aí se transformar em lei, todos serão indicados, todas as agências serão indicadas por parlamentares. Imagine qual o critério que eles vão adotar. Eu acho que eu não preciso complementar. Querem me deixar como rainha da Inglaterra? É esse o caminho certo?”, disse.

Já no dia 29 de outubro do mesmo ano, Bolsonaro publicou em seu Twitter um vídeo no qual um leão, o presidente, era atacado por hienas, que representavam o STF, os partidos da oposição, a imprensa, a OAB (Ordem dos Advogados) e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos). O presidente, logo depois, deletou a publicação e se desculpou.

Bolsonaro também participou e divulgou ativamente os atos do dia 15 de março, que são abertamento hostis ao Judiciário e ao Congresso. Em algumas publicações em seu Twitter oficial, é possível ver imagens e vídeos que mostram cartazes com dizeres como “Fora Rodrigo Maia! Fora Toffolli!” e “O povo não aguenta mais. Os algozes têm nome: Fora STF, Maia e Alcolumbre”.


FALSO

A jornalista Vera Magalhães, de forma mentirosa, sem qualquer compromisso com a verdade, está divulgando que eu faria um movimento no dia 31 de março diante dos quartéis. Fake news. — Entrevista coletiva em 18 de março

A jornalista nunca divulgou que o presidente Jair Bolsonaro estaria organizando um movimento marcado para 31 de março e que pretende ocorrer na frente de quartéis dos Exércitos. Vera Magalhães publicou um tuíte na última terça-feira (17) com uma imagem que vinha sendo compartilhada em grupos de WhatsApp para convocar a população para os protestos. Nele, a jornalista apenas diz “cabe ao presidente desmobilizar esse ato golpista no aniversário do golpe. Ou então as instituições não confiarão nesse convite que ele fez ao diálogo”.


FALSO

Existe um vídeo meu convocando para o 15 de março de 2015, uma manifestação contra a presidente naquele momento. Vídeo esse que foi largamente explorado por uma jornalista inconsequente como se fosse o 15 de março de 2020. — Entrevista coletiva em 18 de março

É falso que a repórter Vera Magalhães tenha tirado de contexto um vídeo de 2015 ao noticiar que Bolsonaro convocou aliados para os atos pró-governo do último dia 15 de março. O material publicado pela jornalista –e que, segundo sua reportagem, foi compartilhado pelo presidente– traz referências a fatos mais recentes, como a internação de Bolsonaro por causa da facada que recebeu em 2018, e sua atuação no governo, que só começou em janeiro de 2019. É impossível, portanto, que o vídeo seja de 2015.

Os dois vídeos podem ser conferidos, na íntegra, nas reportagens originais de Magalhães (primeiro e segundo vídeo). Também é possível ver que, em nenhuma parte do texto da jornalista, há a citação ao vídeo em que Bolsonaro aparece, pessoalmente, convocado a população para os atos do dia 15 de março de 2015.


CONTRADITÓRIO

No tocante à Justiça, além de outras medidas por parte do Ministro Sergio Moro: fechamento de fronteiras, em especial aquela que nos traz uma grande preocupação, que é a da Venezuela. — Entrevista coletiva em 18 de março

O anúncio de que o governo pretende fechar a fronteira com a Venezuela contradiz e corrige uma declaração do próprio presidente que, no dia 16 de março, afirmou que medidas do tipo são proibidas pela legislação brasileira –o que não é verdade.

A lei nº 13.445/2017, conhecida como Lei da Migração, é regulamentada pelo decreto 9.199/2017, que prevê que restrições de movimento sejam impostas por questões sanitárias.

Segundo o parágrafo 1º do artigo 164 do decreto, “ato do Ministro de Estado da Saúde disporá sobre as medidas sanitárias necessárias para entrada no País, quando couber”. Já o artigo 171 do texto determina as possíveis motivações que podem levar ao impedimento do ingresso no país. Uma delas é que a pessoa “que não atenda às recomendações temporárias ou permanentes de emergências em saúde pública de importância nacional definidas pelo Ministério da Saúde” poderá ter sua entrada no Brasil revogada.

Advogado especialista em direito internacional da Peixoto & Cury, Saulo Stefanone Alle explicou ao Aos Fatos que questões de saúde pública justificam medidas restritivas de liberdade. Ele também apontou que, além da Lei de Migração e do decreto, o Brasil ainda é signatário do RSI (Regulamento Sanitário Internacional) da OMS (Organização Mundial da Saúde). O texto prevê o fechamento de fronteiras em situações de emergência. "E esse regulamento internacional [ao qual o Brasil se compromete] estabelece que em situações críticas como essa, por razões técnicas fundadas, é possível adotar medidas de restrição de liberdade e circulação de pessoas", explica o advogado.


IMPRECISO

Eu, a partir do momento em que não estou infectado, ao ter contato com quem quer que seja, não estou colocando em risco a saúde daquela pessoa. — Entrevista coletiva à imprensa em 18 de março

Aqui, Bolsonaro nega que tenha posto em risco a saúde de manifestantes pró-governo ao cumprimentá-los em frente ao Palácio do Planalto no último domingo (15). Na ocasião, o presidente já havia recebido o resultado negativo de um exame para o novo coronavírus, mas ainda não havia sido submetido ao segundo teste, recomendado pela equipe de saúde para confirmar a ausência de infecção. Ou seja, havia, sim, algum risco de que estivesse infectado e, por isso, sua declaração foi considerada imprecisa.

O presidente foi submetido a esses testes depois que voltou de uma viagem aos Estados Unidos. Até aquele domingo, quando teve contato com manifestantes, 11 pessoas que integravam sua comitiva já haviam recebido o resultado positivo para a Covid-19, inclusive o chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação da Social), Fabio Wajngarten.

Mesmo que não apresentasse sintomas, era possível que Bolsonaro estivesse com a infecção e pudesse transmiti-la. De acordo com o CDC (órgão de controle e prevenção de doenças dos EUA), há casos relatados de pessoas que disseminaram o vírus enquanto ainda estavam assintomáticas.


IMPRECISO

Isso começou por volta de outubro, novembro do ano passado na China. - Entrevista coletiva à imprensa em 18 de março

Não há um consenso sobre qual foi o caso original do novo coronavírus, o chamado paciente zero, mas os dados do governo chinês e de pesquisadores variam entre novembro e dezembro, não entre outubro e novembro. Por isso a declaração do presidente foi considerada imprecisa.

De acordo com dados divulgados pelo governo chinês em 13 de março, o paciente zero foi contaminado em 17 de novembro de 2019, conforme publicou o South China Morning Post. A identidade da pessoa não foi informada pelo governo chinês. Foi divulgado apenas que era de um homem de 55 anos da província de Hubei. As autoridades de saúde chinesas, no entanto, só relataram o primeiro caso de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, à OMS (Organização Mundial da Saúde) em 31 de dezembro de 2019.

Em uma pesquisa publicada na revista científica sobre medicina The Lancet em janeiro, os pesquisadores apontaram que o primeiro indivíduo a ser positivo foi exposto ao vírus em 1º de dezembro.


VERDADEIRO

Por parte da economia, o governo já vinha estudando e publicou em Diário Oficial da União extra o estado de calamidade pública. — Entrevista coletiva à imprensa em 18 de março

Consta da edição extra do DOU. (Diário Oficial da União) desta quarta-feira (18) que o governo federal solicitou o reconhecimento de estado de calamidade pública até o dia 31 de dezembro de 2020 “em decorrência da pandemia da covid-19 declarada pela Organização Mundial da Saúde”.

A medida, que ainda precisa ser aprovada pelo Congresso, permite, entre outras coisas, que o governo não cumpra a meta de resultado fiscal prevista para este ano, que é um déficit de R$ 124,1 bilhões.

O texto publicado no DOU afirma que os impactos do novo vírus “transcendem a saúde pública e afetam a economia como um todo” e que “é inegável que no Brasil as medidas para enfrentamento dos efeitos da enfermidade gerarão um natural aumento de dispêndios públicos, outrora não previsíveis na realidade nacional”.


VERDADEIRO

Não tem vacina [para o novo coronavírus]. — Entrevista coletiva em 18 de março

Ainda não existe nenhuma vacina ou medicamento específico capaz de prevenir ou curar a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, como informa o site oficial da OMS (Organização Mundial da Saúde). Logo, a afirmação de Bolsonaro é VERDADEIRA.Segundo o órgão, “possíveis vacinas e alguns tratamentos específicos estão sob investigação. Eles estão sendo verificados por meio de testes clínicos”. Por ora, autoridades de saúde recomendam apenas medidas para aliviar os sintomas da infecção: antitérmicos e analgésicos podem ser usados para febre e dor, e umidificadores e banhos quentes para dor de garganta e tosse.


16 DE MARÇO


FALSO

Até porque como uma gripe outra qualquer leva a óbito. - Entrevista à Rádio Bandeirantes em 16 de março

Ainda é cedo para dizer com certeza qual a taxa de mortalidade do novo coronavírus, mas todos os estudos preliminares já apontam que ela é significativamente maior do que a da gripe comum, que gira em torno de 0,1% dos infectados, segundo o CDC, órgão de prevenção de doenças dos EUA. Por isso, a declaração foi classificada como falsa.

Inicialmente as falas tinham sido avaliadas como insustentáveis, porque não há estudo definitivo sobre a mortalidade do novo coronavírus. No entanto, como até os pesquisadores mais otimistas têm chegado a uma taxa superior à da gripe, a checagem foi reavaliada como falsa.

Usando dados da China, um grupo de pesquisadores da Universidade de Bern estimou a fatalidade da nova doença em cerca de 1,6%. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), 6.610 pessoas morreram em decorrência da infecção pelo coronavírus em todo o mundo até o dia 16 de março, 3,9% do total dos cerca de 168 mil casos registrados. Essa conta, porém, tende a superestimar a mortalidade porque ignora que muitos casos leves da doença provavelmente ainda não foram detectados.

O coronavírus também tem se mostrado mais letal do que a gripe H1N1, cujo surto global foi em 2009. À época, houve 300 mortos associados aos 77 mil primeiros casos, o que leva a uma taxa de mortalidade de 0,4%. Mais tarde, essa taxa se concretizou em números muito mais baixos, que variavam de 0,01% a 0,08%. No caso da Covid-19, essa taxa gira em torno de 1%.

Já houve, no entanto, outros surtos — causados inclusive por microrganismos da família do coronavírus — que registraram taxas de mortalidade muito mais altas. É o caso do Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que se espalhou pelo mundo em 2002 e teve uma taxa de mortalidade de 10%. Houve, ainda, o Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), que registrou um índice de mortalidade de 34%.


FALSO

Proibiram os cruzeiros de aportar aqui [por conta do coronavírus]. - Entrevista à Rádio Bandeirantes no dia 16 de março

Não é verdade que cruzeiros estejam proibidos de desembarcar no país, como afirma o presidente. Consultado pelo Aos Fatos, o Ministério do Turismo afirmou que “as ações adotadas nos cruzeiros marítimos serão avaliadas caso a caso pelo COE [Comitê de Operações de Emergência, criado para tratar de questões pertinentes ao coronavírus]. Essas medidas visam garantir a segurança dos turistas e trabalhadores embarcados e, também, evitar que mais casos cheguem ao território brasileiro”.

Até o momento, a única proibição que ocorreu foi o desembarque de passageiros do cruzeiro canadense Silver Shadow, que atracou em Recife no dia 12 de março. Com um caso suspeito de infecção pelo coronavírus quando chegou à cidade, a embarcação, que transporta cerca de 600 pessoas, foi vistoriada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que enviou uma equipe a bordo para avaliar as suas condições sanitárias. Os passageiros, que chegaram a desembarcar, foram orientados a retornar ao navio até que seja confirmado ou descartado o possível caso de Covid-19.

Na última segunda-feira (16), a empresa responsável pela viagem anunciou que iria custear dois aviões que devem levar os passageiros de volta a seus países de origem.


FALSO

Você não tem esse poder de fechar a fronteira [por conta do coronavírus]. É só ver a Lei de Migração, votada em 2017. - Entrevista à Rádio Bandeirantes no dia 16 de março

Ao ser questionado pelo apresentador José Luiz Datena sobre a possibilidade de fechamento das fronteiras brasileiras para conter a disseminação do coronavírus, como fizeram Argentina e Peru, Bolsonaro disse que, de acordo com a Lei de Migração, não poderia tomar essa medida. Mas isso não é verdade.

O decreto 9.199/2017, que regulamenta a Lei de Migração, prevê a possibilidade de proibição de entrada no país por questões sanitárias. De acordo com o parágrafo 1º do artigo 164 do texto, “ato do Ministro de Estado da Saúde disporá sobre as medidas sanitárias necessárias para entrada no País, quando couber”.

A possibilidade de interrupção do fluxo nas fronteiras também está descrita no mesmo decreto no inciso 14 do artigo 171, quando diz que, após entrevista individual e mediante ato fundamentado, pode-se impedir a entrada da pessoa "que não atenda às recomendações temporárias ou permanentes de emergências em saúde pública de importância nacional definidas pelo Ministério da Saúde”.

Isso significa que, com ordem expressa do Ministério da Saúde ou de agências reguladoras como a Anvisa, o fluxo migratório para o país pode ser interrompido em períodos de emergência em saúde.


IMPRECISO

Agora no dia 9 de março houve um grande evento aí em São Paulo na Oca do Parque Ibirapuera, lotação máxima, 1.300 convidados. Presentes aí o presidente da Câmara, o presidente do Senado, os governadores de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal. Presentes em um evento com uma aglomeração enorme de pessoas. Que exemplo essas pessoas estavam dando para todo o Brasil no tocante a essa preocupação que eles mostraram com o dia 15. - Entrevista à Rádio Bandeirantes no dia 16 de março.

Para se defender das críticas que sofreu por ter cumprimentado manifestantes no dia 15 de março, em meio à pandemia do coronavírus, Bolsonaro mencionou a festa de inauguração da CNN Brasil, que ocorreu na Oca do Parque Ibirapuera, em São Paulo, no dia 9 de março. O evento de fato contou com a presença de 1.300 convidados, entre eles políticos como João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC).

Naquele dia, no entanto, ainda não havia a recomendação do Ministério da Saúde evitar contato social, o que só ocorreu no dia 13 de março quatro dias após o evento da CNN Brasil e dois dias antes dos atos pró-governo. Por isso, a declaração foi classificada como imprecisa.

No dia 9 de março, o Brasil registrava 25 casos confirmados de coronavírus e 663 casos suspeitos, e a pasta aconselhava, como método de prevenção, medidas básicas de higiene como lavar as mãos regularmente e cobrir a boca e o nariz com o braço na hora de espirrar. No dia 15, eram 200 confirmados e 1.917 suspeitos.

Em nota enviada ao Aos Fatos por email, a CNN Brasil explica que “não havia qualquer recomendação ou restrição para a realização de evento público. Por iniciativa da própria CNN Brasil, colocamos no local do evento, vários pontos de uso de álcool em gel à disposição dos convidados”. Também ressalta que não foram identificados, entre os profissionais da emissora e convidados, suspeitos de terem Covid-19.


15 DE MARÇO


CONTRADITÓRIO

Sabemos que as aglomerações de pessoas realmente correm um risco seríssimo de o vírus se deflagrar de forma bastante grave em nosso país. - Entrevista à CNN Brasil em 15 de março

A declaração de Bolsonaro foi considerada contraditória porque, na mesma entrevista à CNN Brasil, veiculada no último domingo (15), o presidente minimizou o impacto do contato com multidões na disseminação do coronavírus ao afirmar que as medidas de combate à pandemia beiravam a “neurose” e a “histeria”. Na ocasião, ele procurava se defender de críticas direcionadas ao fato de ter saído do Palácio do Planalto para cumprimentar apoiadores que decidiram participar de manifestações favoráveis ao governo naquele dia.

O presidente também já havia afirmado, em outros momentos, que considerava a pandemia “superdimensionada”. Em discurso em Miami no dia 9 de março, Bolsonaro disse acreditar que o surto estivesse sendo “potencializado, até por questões econômicas.”

Em outro discurso realizado na mesma cidade no dia seguinte, o presidente afirmou que se tratava de uma “pequena crise”, “muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala, ou propaga, pelo mundo todo”.


CONTRADITÓRIO

Eu não tô preocupado com isso, eu tomo as minhas devidas precauções. - Entrevista à CNN Brasil em 15 de março

Apesar de afirmar que toma precauções contra a infecção pelo coronavírus, o presidente apareceu à porta do Palácio do Planalto no último domingo (15) para cumprimentar e tirar fotos com apoiadores, contrariando orientações do Ministério da Saúde e de órgãos internacionais de evitar aglomerações e contato com multidões. Uma análise feita pelo jornal O Estado de S. Paulo estima que o presidente tenha mantido contato direto com 272 pessoas ao longo de uma hora.


VERDADEIRO

(...) porque tem um fato novo aí no mundo, que é o vírus, o coronavírus, que pode ser realmente fatal para pessoas debilitadas e pessoas idosas. - Entrevista à CNN Brasil no dia 15 de março

A doença causada pelo novo coronavírus, denominada Covid-19, pode ser realmente fatal para pessoas idosas ou portadoras de doenças crônicas. De acordo com o CDC (Center for Disease Control), órgão de saúde americano, foram identificados na China, foco inicial da doença, quatro grupos de risco principais: idosos, diabéticos e indivíduos com problemas no coração ou nos pulmões.

O portal oficial do sistema de saúde irlandês também aponta que pessoas com sistema imunológico enfraquecido — que tenham Aids, lúpus, artrite reumatoide e esclerose múltipla, ou que estejam em tratamento para câncer, por exemplo — também têm chances de desenvolver casos mais sérios do coronavírus.

De acordo com estimativas recentes baseadas em dados da China, a taxa de mortalidade geral da doença gira em torno de 1%. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Berna, na Suíça, estimou a fatalidade em cerca de 1,6%, enquanto cientistas da LSHTM (London School of Hygiene & Tropical Medicine) calcularam 0,5%.

Essa taxa cresce quando consideramos os grupos de risco mencionados por Bolsonaro. De acordo com o estudo dos pesquisadores suíços, a taxa de mortalidade pode chegar a 18% no caso de infectados com mais de 80 anos, mas fica abaixo de 1% para faixas etárias até os 49 anos.

A maioria dos estudos sobre a Covid-19 é preliminar e não foi revisada por outros acadêmicos — qualquer conclusão, portanto, precisa ser interpretada com cuidado.


12 DE MARÇO


CONTRADITÓRIO

Há também recomendação das autoridades sanitárias para que evitemos grandes concentrações populares. Queremos um povo atuante e zeloso com a coisa pública, mas jamais podemos colocar em risco a saúde da nossa gente. - Pronunciamento no dia 12 de março

A declaração foi considerada contraditória, porque Bolsonaro convocou a população a participar das manifestações do dia 15 de março em ao menos duas outras ocasiões antes de sua fala no pronunciamento do dia 12. O presidente inclusive apareceu à porta do Palácio do Planalto no domingo para cumprimentar apoiadores e publicou fotos e vídeos dos atos pelo país.O primeiro convite para os atos foi revelado no dia 25 de fevereiro, quando a jornalista Vera Magalhães, do jornal O Estado de S. Paulo, mostrou em reportagem que o presidente encaminhou pelo WhatsApp a aliados vídeos de apoio às manifestações. Depois de o conteúdo das mensagens ter sido publicado, Bolsonaro fez uma série de ataques à jornalista e negou que tivesse feito a convocação.Em discurso em Boa Vista (RR) no dia 7 de março, no entanto, o presidente decidiu convocar publicamente a população a integrar as manifestações. "Dia 15 agora tem um movimento de rua espontâneo, um movimento espontâneo. (...) Então participem, não é um movimento contra o Congresso, contra o Judiciário, é um movimento pró-Brasil." Três dias depois, a Secom (Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República) também divulgou os atos em sua conta oficial no Twitter.


11 DE MARÇO


FALSO

O que eu vi até o momento é que outras gripes mataram mais do que essa [do coronavírus]. - Live do dia 11 de março

Ainda é cedo para dizer com certeza qual a taxa de mortalidade do novo coronavírus, mas todos os estudos preliminares já apontam que ela é significativamente maior do que a da gripe comum, que gira em torno de 0,1% dos infectados, segundo o CDC, órgão de prevenção de doenças dos EUA. Por isso, a declaração foi classificada como falsa.

Inicialmente as falas tinham sido avaliadas como insustentáveis, porque não há estudo definitivo sobre a mortalidade do novo coronavírus. No entanto, como até os pesquisadores mais otimistas têm chegado a uma taxa superior à da gripe, a checagem foi reavaliada como falsa.

Usando dados da China, um grupo de pesquisadores da Universidade de Bern estimou a fatalidade da nova doença em cerca de 1,6%. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), 6.610 pessoas morreram em decorrência da infecção pelo coronavírus em todo o mundo até o dia 16 de março, 3,9% do total dos cerca de 168 mil casos registrados. Essa conta, porém, tende a superestimar a mortalidade porque ignora que muitos casos leves da doença provavelmente ainda não foram detectados.

O coronavírus também tem se mostrado mais letal do que a gripe H1N1, cujo surto global foi em 2009. À época, houve 300 mortos associados aos 77 mil primeiros casos, o que leva a uma taxa de mortalidade de 0,4%. Mais tarde, essa taxa se concretizou em números muito mais baixos, que variavam de 0,01% a 0,08%. No caso da Covid-19, essa taxa gira em torno de 1%.

Já houve, no entanto, outros surtos — causados inclusive por microrganismos da família do coronavírus — que registraram taxas de mortalidade muito mais altas. É o caso do Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que se espalhou pelo mundo em 2002 e teve uma taxa de mortalidade de 10%. Houve, ainda, o Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), que registrou um índice de mortalidade de 34%.

Referências:

1. Saúde (Fontes 1 e 2)
2. Folha de S.Paulo (Fontes 1 e 2)
3. CDC
4. Estadão (Fontes 1, 2, 3, 4 e 5)
5. OMS
6. El Pais
7. G1 (Fontes 1 e 2)
8. Aos Fatos
9. Secretaria de Saúde de São Paulo
10. Drauzio Varella
11. Planalto (Fontes 1 e 2)
12. Congresso em Foco
13. Centre for Mathematical Modelling of Infectious Diseases


A matéria foi alterada no dia 18 de março de 2020, às 18h42. Diferentemente do que aparece em uma das checagens, o presidente foi seguido por manifestantes no dia 15 de março até o Palácio do Planalto e não no Palácio da Alvorada, como constava anteriormente. A correção não altera o selo da checagem.


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