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No Roda Viva, Doria mente ao negar declaração de que policiais iam atirar para matar

Por Luiz Fernando Menezes e Priscila Pacheco

24 de agosto de 2021, 15h07

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), mentiu em entrevista ao Roda Viva nesta segunda-feira (23) ao negar ter dito na campanha de 2018 que, se eleito, a polícia iria atirar para matar. Em setembro daquele ano, o tucano afirmou à rádio Bandeirantes que "a partir de janeiro [os bandidos] ou se rendem ou vão para o chão", e depois confirmou: "É pro chão mesmo, exatamente isso que você entendeu. É melhor se render, se fizer um enfrentamento com a polícia e atirar, a polícia atira, e a polícia atira para matar".

Na entrevista, Doria também falseou informações ao atribuir à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) toda a responsabilidade pelos dados de eficácia da vacina CoronaVac. Na realidade, os estudos de fase 3, decisivos para a liberação do imunizante pelo órgão regulador, foram conduzidos pela farmacêutica chinesa Sinovac e pelo Instituto Butantan, organização ligada ao governo paulista.

Em resumo, o que checamos:

  1. Doria mente ao negar que disse na campanha de 2018 que a polícia ia "atirar para matar". A expressão foi empregada em entrevista à rádio Bandeirantes e reiterada no programa Pânico, da rádio Jovem Pan;
  2. É FALSO que a Anvisa seja a responsável pelo dado de que a CoronaVac seria 100% eficaz contra mortes por Covid-19, como alegou o governador. Além de resultar dos testes do Instituto Butantan, a informação foi publicizada pelo governo paulista antes da conclusão da análise da agência reguladora;
  3. São Paulo não foi o primeiro estado a permitir o retorno das aulas presenciais. O Amazonas reabriu parcialmente as escolas estaduais de Manaus em agosto de 2020, cerca de um mês antes que o governo Doria adotasse medida similar;
  4. É FALSO que São Paulo tenha sido o primeiro estado a tornar obrigatório o uso de máscaras. Pelo menos dez unidades da federação já adotavam essa medida antes do decreto paulista. O primeiro a aprovar tal determinação foi Mato Grosso;
  5. É VERDADEIRA a declaração de que São Paulo é o estado que mais vacina contra Covid-19 hoje no país. Ele lidera tanto em número de doses aplicadas quanto na proporção da população imunizada.


Eu não falei para atirar para matar. Eu disse que a polícia de São Paulo agiria como tem agido: com eficiência no combate à criminalidade.

Neste trecho da entrevista, Doria mente ao negar que disse na campanha eleitoral de 2018 que a polícia ia "atirar para matar" em reação a bandidos. A expressão foi empregada por ele em uma entrevista à rádio Bandeirantes em 28 de setembro daquele ano e, semanas depois, reiterada durante uma participação no programa Pânico, da rádio Jovem Pan.

No programa Bastidores do Poder, da rádio Bandeirantes, Doria prometeu ser “duríssimo na política de Segurança Pública” e disse que "a partir de janeiro [os bandidos] ou se rendem ou vão para o chão”. Quando questionado sobre o que significava “ir para o chão”, Doria complementou: “É pro chão mesmo, exatamente isso que você entendeu. É melhor se render, se fizer um enfrentamento com a polícia e atirar, a polícia atira, e a polícia atira para matar”. A fala foi, inclusive, divulgada pelo então candidato ao governo paulista nas redes.

Em 15 de outubro, no programa Pânico, da Jovem Pan, o tucano reiterou esse posicionamento: “A partir de janeiro, é polícia na rua e bandido na cadeia, e vou reafirmar o que disse para uma emissora de televisão recentemente, muita gente ficou ‘opa, mas será que o João falou isso?’, eu vou reafirmar aqui no Pânico. Bandido que tiver a coragem de reagir para a Polícia Militar, a Polícia Militar vai atirar para imobilizar, não vai para matar, para imobilizar. Mas, se continuar a reagir, vai atirar para colocar no cemitério”.

Procurada por Aos Fatos, a assessoria do governador afirmou, em nota, que a declaração "foi retirada de contexto na época, pois ele sempre defendeu que, se criminosos enfrentarem as forças policiais, os policiais devem reagir à altura."


Os dados [de eficácia da CoronaVac] não são meus nem do Butantan, são da Anvisa. Nós só reproduzimos as informações que a Anvisa forneceu.

Questionado sobre o anúncio do governo paulista de que a CoronaVac seria 100% eficaz contra mortes por Covid-19, Doria afirmou que sua gestão não é a responsável pelo dado, mas a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o que é FALSO. As informações entregues ao órgão são resultado dos testes realizados pelo Instituto Butantan, entidade do governo de São Paulo, e foram divulgadas antes da conclusão da análise da Anvisa.

Em 7 de janeiro, um dia antes de a agência reguladora receber os resultados dos testes de fase 3 da vacina, o Instituto Butantan anunciou que a CoronaVac tinha eficácia de 100% para casos moderados e graves. Depois, em 12 de janeiro, o governo estadual reafirmou o percentual, apesar de Ricardo Palacios, diretor médico de pesquisa clínica do Butantan, ter dito à imprensa que o número ainda não tinha significância estatística. Somente no dia 17 de janeiro é que a Anvisa autorizou o uso emergencial da vacina.


São Paulo foi o primeiro estado que (...) tomou a decisão de voltar às aulas.

É FALSO que São Paulo foi o primeiro estado a permitir o retorno das aulas, pois, em agosto do ano passado, o Amazonas reabriu 123 escolas estaduais de Manaus com lotação máxima de 50% das salas. A retomada do ensino presencial na rede paulista se deu a partir de outubro de 2020, também de forma escalonada.

No início de junho deste ano, ao lado do secretário de Educação, Rossieli Soares, Doria anunciou a ampliação da reabertura para aulas presenciais a partir de 2 de agosto. Já o governo do Amazonas anunciou retomada de 100% das aulas presenciais nas redes municipal e estadual de Manaus apenas na segunda-feira (23).

Procurada, a assessoria do governador afirmou que "a declaração está correta" porque "São Paulo foi o primeiro estado a decidir o retorno às aulas presenciais, conforme anúncio realizado em coletiva de imprensa no dia 24 de junho de 2020". Contudo, o governo do Amazonas comunicou o retorno às aulas presenciais antes, no dia 28 de maio do ano passado.


[São Paulo] foi o primeiro estado a tornar obrigatório o uso de máscara.

A declaração é FALSA porque o São Paulo adotou a obrigatoriedade do uso de máscaras depois de pelo menos outros dez estados. O decreto nº 64.959, que regula a utilização do equipamento, foi publicado no dia 5 de maio de 2020 no Diário Oficial. Até 27 de abril, normas similares já haviam sido baixadas em Pará, Mato Grosso, Roraima, Piauí, Pernambuco, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo e Santa Catarina, segundo um levantamento da Agência Brasil.

O primeiro estado a exigir o uso de máscaras foi Mato Grosso, que adotou em 3 de abril do ano passado a regra para estabelecimentos públicos e privados e, no dia 27 daquele mês, estendeu a obrigação a todo o território.


São Paulo é o estado que mais vacina, percentualmente e numericamente também.

A declaração é VERDADEIRA. Segundo dados do LocalizaSUS, o governo paulista aplicou 46,3 milhões de doses de vacina contra Covid-19 até o dia 23 de agosto, sendo o líder de vacinação em números absolutos. Em segundo lugar está Minas Gerais, com 16,5 milhões.

Já a porcentagem da população vacinada estimada pelo Mapa da Vacinação do G1 mostra que 71,66% dos paulistas já receberam ao menos a primeira dose e 33,11% estão completamente imunizados. Em segundo lugar está o Rio Grande do Sul, com 63,47% da população tendo recebido ao menos uma aplicação e 32,4% totalmente imunizados.

Referências:

1. Twitter João Doria
2. Rádio Bandeirantes
3. YouTube Pânico Jovem Pan
4. YouTube Governo do Estado de São Paulo
5. Agência Brasil
6. G1
7. Anvisa (Fontes 1 e 2)
8. Instituto Butantan
9. Governo do Amazonas (Fontes 1 e 2)
10. Secretaria da Educação de São Paulo (Fontes 1 e 2)
11. Assembleia Legislativa de São Paulo
12. Governo de São Paulo (Fontes 1 e 2)
13. Legisweb
14. Secretaria de Estado de Fazenda do Mato Grosso
15. LocalizaSUS

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