Lula não tem conta com 250 milhões de euros no Banco do Vaticano

Por Luiz Fernando Menezes

28 de junho de 2022, 14h18

Não é verdade que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha 250 milhões de euros depositados no Banco do Vaticano, como afirmam publicações nas redes sociais (veja aqui). O banco não possui contas de pessoas físicas, apenas de entidades relacionadas à Igreja Católica. As peças se baseiam em uma denúncia falsa feita em 2019 por um suposto diácono chamado Jorge Sonnante e que já foi desmentida pela instituição financeira e pela Santa Sé.

O conteúdo enganoso vem sendo compartilhado principalmente no Facebook, onde acumula ao menos 140 mil compartilhamentos, e no Kwai, onde já possui mais de 35 mil visualizações.


Selo falso

Descobriram que Lula tem 250 milhões de euros escondido no banco do Vaticano.

Post recicla denúncia falsa de que Lula tem 250 milhões de euros no banco do Vaticano

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem 250 milhões de euros no Banco do Vaticano, nome pelo qual se conhece o IOR (Instituto para as Obras de Religião), como afirmam postagens nas redes sociais. O banco informa em seu site oficial que atende apenas clientes que fazem parte da Igreja Católica ou estão a serviço dela, como instituições soberanas da Santa Sé, do Estado do Vaticano e entidades legais canônicas ou civis do Vaticano. Em nota enviada ao Aos Fatos, a Santa Sé reiterou essa informação.

Ainda segundo a própria instituição, em dezembro de 2021, o IOR possuía 14.519 clientes: 50% deles de ordens religiosas, 23% de departamentos da Cúria Romana, escritórios da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano e nunciaturas apostólicas, 9% de conferências episcopais, dioceses e paróquias, 8% de cardeais, bispos e clero, 7% de funcionários e aposentados do Vaticano e 3% de fundações e outras entidades de Direito Canônico.

Falsa denúncia. No vídeo, o professor Emílio, apresentador da TV Nossa Senhora de Fátima, canal católico no YouTube, atribui a informação a uma falsa denúncia feita em janeiro de 2019 ao canal argentino Ahora com Roxana por um homem que se apresenta como diácono Jorge Sonnante. Na ocasião, ele apresentou documentos com indícios de falsificação para dizer que Lula e outros líderes da esquerda latino-americana mantinham contas secretas no IOR.

Conforme mostrou a agência Colômbia Check, as supostas provas estavam escritas em espanhol — quando o idioma oficial da instituição é o italiano —, possuíam erros de tradução e ainda tinham sinais de adulteração de assinaturas.

Em outubro de 2019, Alessandro Gisotti, então diretor do banco, desmentiu as alegações ao Vatican News, órgão de imprensa oficial do Vaticano: “Nenhuma das pessoas mencionadas jamais teve uma conta bancária no IOR, nem a possui atualmente, nem possui assinaturas de delegados em nome de terceiros, nem teria — devido às novas normas adotadas pelo instituto — algum título para realizar alguma operação”.

Sonnante se apresenta como diácono, título da Igreja Católica concedido a religiosos em funções administrativas e de suporte, mas o Aos Fatos não encontrou provas de que a Santa Sé o reconheça como tal.

Em seu perfil no Twitter, Sonnante publicou documentos com a alegação de que eles comprovariam seu trabalho na Cúria Romana entre 2013 e 2015. Nos arquivos, tanto o selo “Secretaria de Estado” quanto o carimbo “Secretaria di Stato” erram o nome do órgão, cujo nome correto é “Segreteria di Stato”. Além disso, uma das assinaturas no documento datado de 12 de abril de 2013 é do espanhol Rodriguez Carballo, nomeado como arcebispo. Ele só foi ordenado para o cargo um mês depois, em 18 de maio de 2013.

Outro lado. Contatado por Aos Fatos, Emílio disse que o conteúdo foi publicado no seu canal quando Lula ainda estava preso e posteriormente deletado, “para que o vídeo não seja usado politicamente”. Ele ainda afirmou que não acredita na palavra do Vaticano sobre o caso e que nunca houve uma investigação a respeito.

Essa alegação falsa foi desmentida também pelo Projeto Comprova. Em 2020, o Aos Fatos desmentiu outra peça de desinformação com alegação semelhante.

Referências:

1. IOR
2. Aos Fatos (1 e 2)
3. Colombia Check
4. Vatican News
5. Twitter (@JorgeSonnante)
6. Segreteria di Stato
7. Franciscanos.org


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