Entenda o debate sobre impactos ambientais de hidrelétricas, tidas como fonte limpa de energia

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O percentual de fontes renováveis na matriz energética do Brasil é um dos argumentos apresentados em fóruns internacionais para defender que o país apoia o desenvolvimento sustentável e o combate à emergência climática. Um exemplo disso é que, na Assembleia Geral da ONU, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) citaram que a maior parte da energia elétrica brasileira seria gerada por fontes limpas e renováveis.

De acordo com o BEN (Balanço Energético Nacional) deste ano, elaborado pela estatal EPE (Empresa de Pesquisa Energética), 87,9% da matriz elétrica brasileira vem de fontes renováveis — biomassa, hidráulica, eólica e solar. Dentre elas, a água é a que tem maior participação na produção de eletricidade: 61,9% de toda a energia elétrica renovável do Brasil vem dessa fonte.

No entanto, ainda que a energia gerada por hidrelétricas seja renovável, há um debate sobre a exatidão de classificá-la como uma fonte limpa — ou seja, que não polui o meio ambiente:

  • Críticos argumentam que as usinas emitem metano — um dos gases causadores do efeito estufa — e que sua construção gera diversos impactos nos ecossistemas, como a alteração no habitat de animais e a mudança nas características dos rios;
  • Defensores do modelo, por outro lado, dizem que as emissões de poluentes são significativamente menores do que as liberadas por outras fontes de energia e que as usinas geram impactos positivos nas economias locais, como abastecimento de água e gestão de secas.

O Aos Fatos entrevistou especialistas e consultou documentos e estudos para explicar a discussão.

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Hidrelétricas são fontes limpas de energia?

Nem sempre. A depender do modelo, do tamanho da estrutura e do local de instalação, essas estruturas podem poluir tanto quanto ou até mais do que fontes de energia fósseis — geradas pela queima de recursos como o carvão e o petróleo e altas emissoras de gases causadores do efeito estufa.

Conforme lista o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), as usinas hidrelétricas podem representar sérios problemas ambientais e impactos sociais:

  • As barragens podem alterar habitats ecológicos, levando à migração de animais e causando mudanças nas características e no curso dos rios;
  • A derrubada de vegetação local para a construção dos reservatórios também torna as usinas causadoras de desmatamento;
  • Mudanças na correnteza também podem gerar problemas à saúde ao fazer com que se formem criadouros de mosquitos que causam doenças como a malária;
  • O alagamento de grandes áreas faz com que a matéria orgânica inundada gere metano, gás que contribui mais para as mudanças climáticas do que o próprio gás carbônico;
  • Por fim, a construção das usinas acaba obrigando a população da região a se deslocar.

Imagem mostra área desmatada no entorno da usina de Belo Monte, no Pará
Desmatamento. Obras da usina de Belo Monte desmataram grande área de floresta para abrigar reservatório (Tiago Costa/Ibama)

Um estudo da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) publicado em 2016 analisou 18 usinas brasileiras na Amazônia e constatou que seis delas possuíam uma emissão de gases causadores do efeito estufa comparável à de usinas termelétricas.

Isso acontece porque a abundância de vegetação e outros organismos vivos torna a Amazônia uma região rica em matéria orgânica. Quando, portanto, há o alagamento de áreas do bioma para a construção de hidrelétricas, a biomassa da vegetação derrubada e a matéria orgânica presente no solo se decompõem e geram dióxido de carbono (CO₂) e metano. As emissões podem ser ainda maiores caso a limpeza da área a ser inundada não seja feita da maneira correta durante o processo de construção.

Em entrevista ao Aos Fatos, o professor do Instituto de Geociências da USP Dailson Bertassoli Júnior confirmou que as emissões por área alagada tendem a ser maiores nas hidrelétricas construídas na região amazônica em comparação com reservatórios fora de áreas mais quentes. O problema, segundo ele, é que o potencial hidrelétrico próximo aos centros consumidores já está bastante explorado “e a nova fronteira é justamente a Amazônia”.

Foto mostra água corrente na usina de Balbina, no Amazonas
Balbina. Criada em 1987, usina inundou uma área de 2.360 quilômetros quadrados e tem uma emissão estimada de 7.000 toneladas de carbono por dia (Prefeitura de Presidente Figueiredo)

Hidrelétricas poluentes. Considerada um mau exemplo na geração de energia limpa, a usina hidrelétrica de Balbina, localizada no rio Uatumã, no Amazonas, foi apontada por pesquisadores como responsável por liberar dez vezes mais gases do efeito estufa do que uma termelétrica de carvão.

A usina de Belo Monte, localizada no rio Xingu, no Pará, também já foi apontada como responsável por aumentar a emissão de gases de efeito estufa na região, mesmo operando a fio d’água. Essa opção é considerada mais ambientalmente correta, já que gera energia apenas a partir da força da correnteza, sem a necessidade de estocar grandes volumes de água.

Um estudo liderado pelo Instituto de Geociências estimou que, além da decomposição de matéria orgânica inundada, a desaceleração do curso do rio causada por Belo Monte também aumentou a quantidade de sedimentos na água. Ao se decomporem, esses sedimentos também geram metano.

Em nota enviada ao Aos Fatos, a Norte Energia, que controla a Usina da Belo Monte, contestou as informações apresentadas pelo estudo do Instituto de Geociências. De acordo com a concessionária, o desmatamento das obras foi acompanhada de trabalhos para evitar o alagamento da vegetação e foi autorizada pelo Ibama. Além disso, a empresa trabalha na recuperação dos 22 mil hectares desmatados com o plantio de mudas nativas. Sobre a emissão de gases, a Norte Energia reforça que a usina tem um indicador de emissões reduzido e produz energia limpa.

Outra estrutura apontada como poluente é a usina de Tucuruí, localizada no rio Tocantins, no Pará. Em levantamento publicado pelo Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), o biólogo Philip Fearnside aponta que, caso sejam levadas em consideração todas as emissões — desde a construção da barragem, por exemplo — “os impactos no aquecimento global de Tucuruí podem até ultrapassar os da geração a partir de combustíveis fósseis”.

Contrapontos. Em nota técnica sobre a “emissão de gases de efeito estufa em reservatórios hidrelétricos”, a EPE aponta que todas as formas de geração de energia têm “algum nível de emissão associado”. A empresa defende, no entanto, que o índice máximo de emissões das hidrelétricas ainda é significativamente inferior à taxa mínima de emissões das fontes fósseis e que usinas como a de Balbina são exceção.

Charles Lenzi, presidente-executivo da Abragel (Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa, formada por empresas do setor hidrelétrico), argumenta na mesma linha: “Todas as fontes, mesmo as renováveis, produzem emissões de gases de efeito estufa durante sua vida útil devido às emissões causadas pela manufatura dos equipamentos, construção e operação”.

Apesar de apontar os impactos ambientais dessa forma de geração de energia, o IPCC também considera que a fonte “fornece eletricidade flexível e competitiva com baixas emissões, traz benefícios econômicos locais e promove serviços auxiliares, como abastecimento municipal de água, irrigação e gestão de secas, navegação e recreação, e controle de cheias”.

Já Bertassoli Júnior ressalta que as hidrelétricas não são tão vilãs das mudanças climáticas quanto as termelétricas, e defende que haja investimentos em estruturas menos poluentes. “O que a ciência mostra é que existem reservatórios malfeitos e que precisamos levar isso em conta na construção de hidrelétricas.”

De fato, estudos apontam que o nível de emissões está relacionado ao tipo de barragem e pode ser proporcional ao tamanho das usinas — afinal, quanto maior o empreendimento, maior costuma ser a área desmatada e alagada. De acordo com os dados mais recentes da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), há 1.351 usinas hidrelétricas ativas no país, que podem ser divididas em três categorias:

  • 709 CGHs (Centrais Geradoras Hidrelétricas), com potência outorgada de 875 mil kW;
  • 427 PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas), que juntas possuem potência outorgada de 5,7 milhões de KW;
  • E 215 UHEs (Usina Hidrelétrica de Energia), que totalizam 103 milhões de KW de potência outorgada.

Lenzi aponta que os reservatórios das PCHs e CGHs possuem áreas inundadas inferiores a 15 km², o que torna seus reservatórios pequenos comparados aos das UHEs. “Além disso, há que se considerar que as PCHs e CGHs, em sua grande maioria, são usinas que operam a fio d’água, ou seja, geram energia a partir da água que chega no reservatório e passa pelas turbinas, sem reservar ou acumular água”, afirma.

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Falta de dados. A ausência de levantamentos e relatórios detalhados das empresas de energia sobre os níveis de emissão de gases poluentes impede que se estime quanto da energia de origem hidrelétrica produzida no Brasil é, de fato, limpa, aponta Bertassoli Júnior.

Um dos principais levantamentos realizados por órgãos governamentais, o Projeto Balcar (Balanço de Carbono em Reservatórios), conduzido pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica da Eletrobras, por exemplo, monitorou entre 2011 e 2013 apenas 11 reservatórios de usinas brasileiras. Desses, oito estavam em funcionamento.

O próprio estudo aponta, inclusive, que a ausência de dados de monitoramento em campo antes do enchimento dos reservatórios dificulta a estimativa das emissões, que se baseou em premissas e modelos de cálculo.

“É uma discussão bastante polêmica, porque não existe uma metodologia única. Dependendo do estudo, você vai ter um fator maior ou menor, e essa emissão não é contabilizada internacionalmente”, explica Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente).

Colaborou Gisele Lobato.


Esta reportagem foi atualizada às 12h25 do dia 4 de outubro de 2023 para acrescentar o posicionamento da Norte Energia sobre o assunto.

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