Fora de contexto, vídeos são usados para acusar chineses de disseminar novo coronavírus

Por Amanda Ribeiro

1 de abril de 2020, 17h51


Trechos de cinco vídeos gravados em pontos diversos do mundo têm sido compartilhados fora de contexto nas redes sociais para sugerir que chineses estariam dando início a uma “guerra biológica” disseminando a Covid-19 (nome da doença causada pelo novo coronavírus). Nas gravações, pessoas aparecem cuspindo e espalhando saliva por bancos, paredes e elevadores. Das cinco gravações, Aos Fatos identificou que três não têm qualquer relação com a atual pandemia. Os outros dois trechos não tiveram a origem nem o contexto identificados.

Compartilhados por páginas e perfis pessoais do mundo todo, os conteúdos têm circulado no Brasil principalmente por meio do WhatsApp (inscreva-se aqui para receber nossas checagens). No Facebook, postagens do tipo foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de monitoramento (entenda como funciona).


FALSO

Segundo a peça de desinformação, um dos vídeos mostraria uma mulher sendo detida após cuspir em frutas em um mercado. Gravadas em Gordon, na Austrália, e veiculadas no canal 7News no dia 19 de março, as imagens mostram um policial prendendo uma mulher que teria discutido com funcionários de um supermercado. O motivo da discussão não foi noticiado, mas a reportagem aborda regras adotadas por estabelecimentos comerciais para evitar o desabastecimento em meio à pandemia do novo coronavírus.

No trecho da gravação mostrado na reportagem, enquanto a mulher se debate, o agente afirma: “Coloque suas mãos para baixo. Você está resistindo à prisão. Você entende isso?”. A polícia de New South Wales, contatada pelo portal news.com.au, afirmou que a mulher de 54 anos foi presa depois de entrar em conflito com a equipe do supermercado e se recusar a deixar o local, mesmo após ser instruída pela polícia. Não há indícios de que ela estivesse contaminada com Covid-19 nem que cuspiu em produtos à venda.

Este trecho de vídeo que mostra uma mulher assoando o nariz com um lenço para então passá-lo sobre um banco público em uma praça foi, de fato, gravado no Canadá, como alegam as postagens checadas, mas bem antes do início do surto de Covid-19 na China e no resto do mundo.

As imagens originais foram transmitidas ao vivo em setembro de 2019 — há cerca de sete meses, portanto — pelo canal do canadense Trevor Daneliuk no Twitch. Daneliuk é conhecido por fazer transmissões ao vivo de mochilões por vários países do mundo. A gravação (assista o trecho por volta de 1h12min) foi feita na cidade de Saint John.

Também é importante ressaltar que, apesar de ter as feições orientais, não é possível determinar se a mulher é, de fato, chinesa, como afirma a peça de desinformação.

O vídeo que mostra uma mulher cuspindo nos botões de um elevador foi gravado quando a China já combatia o surto de Covid-19, mas não mostra a tentativa de infectar outros países. De acordo com o site que publicou o vídeo, as imagens foram feitas na cidade de Chongqing, na China, no dia 9 de fevereiro e, segundo as autoridades policiais, a mulher estaria irritada por conta de uma briga, por isso teria decidido cuspir no elevador. Ela acabou sendo presa pela polícia local, mas não tinha sintomas da doença nem havia estado em locais com casos confirmados nos 14 dias anteriores.

Não encontrados. A apuração do Aos Fatos não teve sucesso em verificar a origem dos outros dois vídeos que também integram a montagem que vem sendo compartilhada.

Em um deles, uma mulher aparece cuspindo em uma banca de frutas em um supermercado. Apesar de as imagens parecerem ter sido retiradas de câmeras de segurança, não há indicação de data. A legenda da gravação aponta que se trata de “chinesa contaminando frutas em mercado na Austrália”.

Em checagem, a agência AFP — que também não conseguiu determinar a origem das imagens — traz um print do vídeo que poderia indicar de onde veio a legenda das imagens brasileiras. Nele, há a inscrição: “Chullora Woolworths”, nome de uma rede de supermercados australiana. À agência de notícias, a rede de mercados informou que o vídeo não foi gravado nas suas unidades.

Aos Fatos também não conseguiu verificar a origem da gravação mostrada na imagem acima, em que uma mulher cospe e atira algum tipo de líquido contra uma parede. No topo da tela, é possível verificar que a inscrição das câmeras de segurança aponta que, de fato, o vídeo foi gravado neste ano, durante o mês de março. Não há nenhuma indicação nas redes, no entanto, de onde a gravação foi feita e se a pessoa retratada é, de fato, chinesa.

Referências:

1. News.com.au
2. Twitch
3. Newsflare
4. AFP


De acordo com nossos esforços para alcançar mais pessoas com informação verificada, Aos Fatos libera esta reportagem para livre republicação com atribuição de crédito e link para este site.