Em Davos, especialistas debatem crise de confiança do jornalismo

Por Tai Nalon

19 de janeiro de 2024, 11h44

Aviso: este texto é uma análise e foi publicado originalmente na newsletter O Digital Disfuncional.


Assine de graça e receba análises exclusivas.


#23 | 🤝 O problema da confiança

O painel que tratou de modo mais objetivo do impacto da desinformação durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), trouxe uma sequência de debates pertinentes ao exercício do jornalismo — e que rondam a indústria desde que os algoritmos passaram a misturar de modo problemático o noticiário com qualquer outra coisa. Objetivamente, não trouxe soluções, pois não há nada novo, mas me chamou a atenção um paradoxo proposto de maneira talvez involuntária por lideranças de marcas como New York Times e Wall Street Journal.

Ao lado de Emma Tucker, editora-chefe do WSJ, a CEO do NYT, Meredith Kopit Levien, afirmou nesta quinta-feira (18) que o jornalismo precisa de marcadores de confiabilidade para garantir a fidelidade de seus leitores.

"Precisamos ser muito mais transparentes sobre como apuramos as notícias para manter a confiança, pois a confiança é nosso ativo mais valioso", disse. "Precisamos ser honestos quando cometemos erros. Não podemos ter medo disso. E acredito também que precisamos ter um relacionamento muito mais aberto com nossos leitores. Devemos ser mais receptivos ao que eles querem, ao que esperam de nós, e devemos simplesmente ter mais diálogo."

Quem trabalha com comunicação – do jornalista ao influencer, do publicitário ao cineasta – tem alguma noção do impacto do próprio trabalho por meio de critérios objetivos: números, sejam de leitores, assinaturas, impressões ou espectadores. A crise da desinformação também é a crise da desmediação, uma vez que quem decide uma proporção significativa desses números não são mais as estruturas de distribuição das empresas de mídia, mas as plataformas digitais. E, se informação confiável não chega mais ao usuário por quaisquer meios, alguma outra coisa preenche essa função.

Quando alguém fala que é necessário entender o próprio leitor, pressupõe-se que em breve estará traçada uma estratégia de retenção, e não de expansão. Eis o paradoxo: os marcadores de confiabilidade a que as executivas se referiram durante o painel dizem respeito sobretudo à audiência que já existe – ou seja, trata-se de uma estratégia para quem já confia no jornalismo que elas representam, e não para efetivamente combater a desinformação entre os que mais precisam.

Levien de fato reconhece mais adiante que essa estratégia é pouco eficiente para alcançar quem desde o início deveria ser o alvo, mas encerra seu raciocínio por aí: "acredito que o desafio para nós é que as pessoas que afirmam confiar em nós e querem entender por que deveriam confiar tendem a ser as mesmas pessoas. Estamos pregando para os convertidos".

Ao longo da última década, um sem número de iniciativas com nomes parecidos incentivaram a adoção de marcadores de credibilidade para ajudar leitores a entenderem se um texto é opinativo ou não, por quem foi escrito e editado, de que lugar no mundo foi enviado, quais fontes foram consultadas, qual a política de erros do veículo. Essas mesmas designações constam de manuais de educação midiática, como se o problema do leitor médio fosse apenas o de entender se o círculo é, de fato, quadrado. O problema é que, quando se atravessa o Rubicão da descrença na humanidade, percebe-se que o sistema métrico é outro.

É difícil falar em termos generalistas e de modo tão breve, mas, supondo que alguns grupos radicais compartilham mais ou menos dos mesmos valores, uma das suas certezas mais fervorosas é que não é possível separar o mundo material da ideologia. Não é necessário ir até Hannah Arendt e afirmar que a ideologia protege os homens da experiência do real, mas desconfio de verdade que grupos totalitários que não acessam a informação mediada pelo jornalismo são assim porque simplesmente não estão interessados nos fatos.

Os marcadores de credibilidade poderão persistir num futuro próximo como bússola para quem navegar na massa disforme de desinformação que modelos de inteligência artificial sobrepostos podem gerar. Se certos tipos de informação são organizados por padrões, fica mais fácil saber a qualidade do conhecimento com o qual se deve alimentar as máquinas. Para que tenhamos bons assistentes baseados em IA, é necessário preservar esses marcadores, produzindo novas mídias com atribuição obrigatória de fonte e distinção para conteúdo sintético. Do contrário, anular qualquer rastro de criação humana no que for produzido por modelos de IA generativa será apagar também o traço de confiança que ainda nos resta.

Topo

Usamos cookies e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade. Ao continuar navegando, você concordará com estas condições.