🕐 Esta reportagem foi publicada há mais de seis meses

Drenagem postural não é eficaz para tratar falta de ar em pacientes com Covid-19

Por Marco Faustino

2 de março de 2021, 16h07

Não é verdade que a drenagem postural, técnica que serve para eliminar as secreções do pulmão pela ação da gravidade, seja eficaz para tratar pacientes com falta de ar devido à Covid-19, conforme afirmam postagens nas redes (veja aqui). Além da doença não provocar um volume de secreções como de outras infecções, a postura pode agravar o quadro de saúde, pois aumenta o trabalho do diafragma e dificulta a respiração.

Posts com o conteúdo enganoso somavam ao menos 161.130 compartilhamentos nesta terça-feira (2), e foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


Esta informação é de interesse geral. NO CASO DE NÃO OBTER OXIGÊNIO EM HOSPITAIS OU NÃO PODE COMPRAR DRENAGEM POSTURAL: “É uma forma de ajudar a tratar problemas respiratórios causados ​​por inflamação e excesso de muco nas vias respiratórias dos pulmões. Essa técnica antiga se desvaneceu com o tempo, já que temos respiradores e outras máquinas. No caso de hospitais entrarem em colapso e você sentir falta de ar, considere esta técnica.

Posts nas redes sociais alegam, de maneira enganosa, que uma técnica conhecida como drenagem postural pode ser utilizada em pacientes com Covid-19 que estejam com falta de ar. Especialistas afirmam que a técnica não é eficaz, pois a infecção não provoca secreções como outras doenças virais ou bacterianas. Além disso, as posturas indicadas podem atrapalhar o funcionamento dos pulmões, piorando o quadro de saúde da pessoa.

A drenagem postural é um tratamento fisioterápico para auxiliar na drenagem de secreções em diferentes áreas dos pulmões e melhorar a respiração. Entretanto, a falta de ar causada pela Covid-19 possui outros fatores, como o desequilíbrio entre a ventilação (entrada e saída de ar nos pulmões) e a perfusão pulmonar (mecanismo que bombeia o sangue dentro do órgão). Esse descasamento dos dois processos pode levar à insuficiência respiratória.

“A hipoxemia na Covid-19 é manifestação de forma grave e deve ser tratada em ambiente hospitalar. Não adianta nada manobras que eliminem a secreção”, afirmou ao Aos Fatos Fred Fernandes, pneumologista e presidente da SPPT (Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia). A hipoxemia ocorre quando o nível de oxigênio circulante cai abaixo dos valores considerados normais (entre 95% e 100%).

Ao aplicar as posições exigidas na drenagem pulmonar, prossegue Fernandes, o paciente aumenta o trabalho do diafragma e dificulta ainda mais a respiração, por estar contra a gravidade. Raquel Stucchi, infectologista da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, concorda e afirma que o quadro de Covid-19 não justifica a aplicação desta técnica.

“A drenagem postural não tem indicação em pacientes com Covid-19. A doença não causa quadro pulmonar secretivo como as infecções bacterianas ou outros quadros virais”, disse Stucchi.

Co-autor de uma revisão científica sobre a eficácia da drenagem postural, Maurício Jamami, doutor em Fisioterapia Respiratória e professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), afirmou que a técnica não deve ser aplicada em qualquer paciente com falta de ar. "Indicar a drenagem postural de forma genérica para o tratamento da Covid-19 seria incorreto e poderia provocar mais malefícios do que benefícios”.

Já o pneumologista e médico do sono pelo HCFMUSP (Hospital Geral Otávio de Freitas da Universidade de São Paulo), Rodolfo Bacelar, disse ao Aos Fatos que a drenagem postural pode ser usada com sucesso em doenças como a bronquiectasia, em que o acúmulo de secreção destrói o tecido pulmonar e favorece outras infecções, e em pacientes com fibrose cística, condição hereditária que afeta as glândulas produtoras de muco.

Pronação. Os especialistas consultados ressaltaram ainda que a drenagem postural não deve ser confundida com a posição prona, uma manobra utilizada para combater a hipoxemia nos pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo. Nela, o paciente é deitado de bruços, em ângulo diferente, para aumentar o fluxo de oxigênio.

“Ao deitar de barriga para baixo ocorre o aumento da área de troca pulmonar — aumenta a área para receber oxigênio, pois há ‘mais pulmão’ nas regiões posteriores. Na pandemia [de Covid-19], essa posição passou a ser usada em pacientes não intubados, e foi observado que poderia ser uma forma de evitar a intubação. Mas essa conduta é de exceção - só deve ser feita sob vigilância médica. Caso haja falha, a indicação é de prosseguir para cuidados intensivos”, explicou o pneumologista Rodolfo Bacelar.

Origem. Essa peça de desinformação circula nas redes sociais desde março do ano passado em diversos países e já foi verificada pelo TheJournal.ie, AFP Factual, ChequeaBolivia, BoliviaVerifica, Newtral e, no Brasil, pelo Estadão Verifica. Por aqui, o conteúdo enganoso ganhou tração devido à crise sanitária em Manaus, em janeiro, marcada pela falta de oxigênio em hospitais da rede pública e privada.

Referências:

1. ACAM - RJ
2. UOL
3. PUC - PR
4. Unidos pela Vida
5. BBC Brasil
6. G1
7. TheJournal.ie
8. AFP Factual
9. ChequeaBolivia
10. BoliviaVerifica
11. Newtral
12. Estadão Verifica
13. Nexo Jornal


De acordo com nossos esforços para alcançar mais pessoas com informação verificada, Aos Fatos libera esta reportagem para livre republicação com atribuição de crédito e link para este site.

Usamos cookies e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade. Ao continuar navegando, você concordará com estas condições.