Diretor da OMS não afirmou que quarentena agrava pandemia

Por Luiz Fernando Menezes

9 de abril de 2020, 14h21


Vídeo com trecho de uma declaração do diretor-executivo de Emergências de Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan, circula em publicações nas redes sociais para sugerir que ele teria dito que medidas de isolamento social ampliam infecções pelo novo coronavírus. Na fala completa, porém, o médico sustenta que as quarentenas devem ser acompanhadas de ações informativas de prevenção e, no caso de pessoas doentes, devem ocorrer em outros locais que não suas próprias casas. Em nenhum momento ele põe em dúvida ou nega a eficácia da medida.

O vídeo com o trecho fora de contexto chegou a ser veiculado pelo deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) nas redes sociais para defender o fim das medidas de restrição. Só suas publicações já acumulam mais de 10 mil compartilhamentos. No Facebook, posts que reproduzem a desinformação foram marcados com o selo FALSO na ferramenta de verificação disponibilizada pela rede social (saiba como funciona).


FALSO

Para defender que o isolamento de pessoas aumenta os casos de Covid-19, o deputado federal e ex-ministro Osmar Terra (MDB-RS) compartilhou em suas redes um vídeo que traz uma fala do diretor-executivo de Emergências de Saúde da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan. Diferentemente do que sugere Terra, no entanto, Ryan não disse que as quarentenas estão “piorando a epidemia”, mas que elas, sozinhas, não têm grande eficácia e devem estar acompanhadas de medidas educacionais, informação sobre prevenção e de uma ação rápida do poder público.

Na ocasião, uma coletiva de imprensa da OMS realizada no dia 30 de março, Ryan respondia uma pergunta sobre a efetividade do isolamento em casa no combate à epidemia. Antes da fala destacada pelo vídeo publicado por Terra, o médico diz:

“Em áreas de baixa incidência em que existem casos ou grupos esporádicos, aconselhamos que todas as pessoas que tiveram contato [com algum caso suspeito] devem estar em quarentena. Idealmente, a quarentena deve ocorrer em um local que não seja o lar e, por esse motivo, um, porque se essa pessoa ficar doente, ela poderá já ter infectado sua família.

Mas isso nem sempre é possível, então pelo menos colocar as pessoas em quarentena em casa com bons conselhos de saúde sobre não transmitir doenças se ficarem doentes e com o monitoramento regular desse indivíduo é uma opção para os países. É difícil fazer isso no meio de uma transmissão intensa, onde você pode ter centenas de milhares de contatos porque está tendo milhares de casos por dia.

É difícil lidar com isso. Portanto, a quarentena de contatos em casa é aceitável com informações, educação e, mais importante, um sistema muito rápido para tirar essas pessoas de suas casas se ficarem doentes”.

Só após esse trecho que vem a declaração de Ryan que está no vídeo compartilhado por Osmar Terra:

"A pessoa mais provável para se tornar um caso é alguém que tenha tido um contato significativo com outro caso e, no momento, em muitas partes do mundo, devido aos lockdowns, a maior parte da transmissão agora está acontecendo em casa. Em alguns sentidos, a transmissão foi retirada das ruas e empurrada de volta às unidades familiares. Agora precisamos procurar as famílias para encontrar as pessoas que podem estar doentes, removê-las e isolá-las de uma maneira segura e digna."

Em nota enviada ao Aos Fatos, a OMS afirma que "medidas físicas de distanciamento podem diminuir a velocidade do vírus, de modo que o sistema de saúde possa lidar; mas eles não impedirão essa pandemia puramente por direito próprio. Para mudar a pandemia, os países precisam investir em uma abordagem abrangente e combinada. Para suprimir e controlar as epidemias, os países devem isolar, testar, tratar e rastrear".

A hipótese difundida por Terra a partir do uso distorcido do vídeo, de que a quarentena aumenta o número de infecções por obrigar familiares a conviverem com doentes, não faz sentido, de acordo com Natália Pasternak, bióloga e pesquisadora do IQC (Instituto Questão de Ciência). Segundo ela, sem medidas restritivas à circulação, as pessoas voltariam para suas casas depois de atividades externas e colocariam familiares em risco de contaminação do mesmo modo. Permanecendo em casa, elas evitam exposição ao vírus e, por consequência, reduzem significativamente as chances de disseminação.

Estudos científicos divulgados até o momento apontam que as quarentenas têm diminuído o ritmo de transmissão das doenças. Um exemplo é o publicado pelo Imperial College London, que concluiu que “intervenções não farmarcológicas [medidas de distanciamento social] tiveram um impacto substancial na redução da transmissão em países onde a epidemia está mais avançada". Na Europa, por exemplo, as restrições à circulação podem ter evitado a morte de 120 mil pessoas.

Esta não é a primeira vez que Aos Fatos checa o uso de trechos isolados de autoridades da OMS para justificar, em posts nas redes sociais, uma suposta ineficácia do isolamento social. No dia 1 de abril, publicações distorceram um trecho da fala do diretor-geral da instituição, Tedros Ghebreyesus, para afirmar que ele teria recuado da recomendação de isolamento social.

Outro lado. Procurado por Aos Fatos, Osmar Terra não respondeu até a publicação desta checagem, na tarde de quinta-feira (9).

Referências:

1. OMS
2. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
3. Imperial College London


Esta checagem foi atualizada às 17h45 do dia 9 de abril para adicionar a nota enviada pela OMS.

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