Bolsonaristas usam reportagem do JN fora de contexto para reforçar desinformação sobre ‘sala secreta’ do TSE

Por Débora Ely

11 de maio de 2022, 17h39

Políticos e influenciadores bolsonaristas resgataram nesta semana uma reportagem de 2014 do Jornal Nacional, da TV Globo, para sustentar de maneira enganosa que a contagem de votos das eleições é feita em uma “sala secreta” do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Essas postagens ganharam tração nas redes sociais após a corte negar ao Ministério da Defesa, na segunda-feira (9), que esse cômodo exista de fato.

A notícia, veiculada no JN de 28 de outubro de 2014 — dois dias após o segundo turno das eleições —, não atesta a existência da “sala secreta”, e mostra apenas o trabalho do departamento de processamento de eleição do TSE, que monitorava o recebimento de boletins de urna. Os técnicos acompanhavam “os parâmetros de equipamentos para que o recebimento dos dados de urnas eletrônicas ocorresse sem sobressaltos”, segundo a corte.

Ao afirmar que “um seleto grupo acompanhou a contagem voto a voto”, o Jornal Nacional se referia à equipe do TSE responsável pela totalização, que, por conta do fuso horário, teve que segurar a divulgação das parciais do pleito presidencial até que a votação fosse encerrada no Acre, às 20h no horário de Brasília. A medida foi tomada para evitar “influência indevida” no eleitorado, segundo o TSE. Em 2022, o horário de votação será unificado no país.

Além disso, a contagem de votos não é feita no TSE, como mostrou Aos Fatos. Ao fim da votação, as informações do cartão de memória presente nas urnas são transmitidas das zonas eleitorais aos TREs (Tribunais Regionais Eleitorais) por meio de uma rede privada que só pode ser acessada em equipamentos da Justiça Eleitoral. Depois disso, um sistema realiza apenas a somatória dos votos.

As urnas também imprimem, ao fim do horário de votação, cópias do boletim com o resultado dos votos que foram depositados nelas. O documento é afixado na zona eleitoral e fica disponível para representantes dos partidos. Assim, divergências com o resultado mostrado após a totalização dos votos podem ser auditadas e denunciadas.

Em 2022, os boletins de urna ficarão disponíveis online em tempo real, para que possam ser conferidos ainda durante a contagem dos votos das eleições.

Postagens que usam o vídeo do JN circulam no Twitter desde o final de abril. Na segunda-feira (9), o caso voltou à tona com um post de Sarita Coelho, que se apresenta como servidora federal. “O TSE respondeu ao Ministério da Defesa que não existe sala secreta de apuração. Mas não é o que diz essa reportagem do Jornal Nacional”, escreveu.

Outros bolsonaristas, como o deputado federal José Medeiros (PL-MT) e o empresário Filipe Sabará também amplificaram a desinformação, que reuniu ao menos 38.600 interações no Twitter. O conteúdo também circulou amplamente no Facebook e no Instagram: os deputados federais Bia Kicis (PL-DF) e Hélio Lopes (PL-RJ), por exemplo, tiveram mais de 151 mil interações nessas plataformas.

Questionado por Aos Fatos, Lopes insistiu que a reportagem demonstra a existência de uma sala secreta no TSE. Kicis e Medeiros também foram procurados, mas não responderam até esta publicação. Coelho e Sabará não foram localizados.

A alegação falsa também é frequentemente repetida pelo presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo o contador de checagens de declarações mantido pelo Aos Fatos, Bolsonaro já recorreu a ela ao menos oito vezes.

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