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Vacinação contra Covid-19 completa cinco meses com lentidão e metas descumpridas

Por Priscila Pacheco

18 de junho de 2021, 18h53

A campanha de vacinação contra Covid-19 no Brasil completou cinco meses nesta semana marcada pelo ritmo lento, com 28,2% da população tendo recebido pelo menos uma dose da vacina até agora, e pelo acúmulo de promessas não cumpridas pelo governo federal.

Em fevereiro, por exemplo, o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello anunciou que 50% dos brasileiros estariam totalmente vacinados no primeiro semestre, o que não ocorreu. Ele também projetou a chegada de 230,7 milhões de doses até julho, mas agora a pasta conta com a entrega de 176,3 milhões de vacinas nesse prazo.

Já o atual titular da Saúde, Marcelo Queiroga, disse em março que o país passaria a aplicar 1 milhão de doses por dia no curto prazo. Porém, desde então, essa marca foi alcançada pontualmente, em apenas sete dias. Além disso, a recente promessa do ministro de antecipar a chegada de vacinas da Janssen foi frustrada pelo cancelamento da entrega pela empresa.

A seguir, Aos Fatos mostra o que o governo Bolsonaro prometeu, e não cumpriu, para fazer avançar a vacinação no país.

  1. Janeiro: pontapé inicial com duas vacinas
  2. Fevereiro: pouca oferta, grandes ambições
  3. Março: governo dobra a aposta
  4. Abril e maio: Atrasos em série
  5. Junho: Janssen adiada

Janeiro: pontapé inicial com duas vacinas

Na primeira semana de 2021, o Ministério da Saúde propagandeava que o Brasil possuía 354 milhões de doses de vacinas contra Covid-19 asseguradas para 2021. O montante incluía 202,4 milhões de doses da vacina AstraZeneca e 100 milhões da CoronaVac, imunizantes autorizados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no dia 17 de janeiro. Além disso, previa 42,5 milhões que seriam entregues pelo Covax Facility, consórcio liderado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Entretanto, mais da metade das doses requeridas ao Instituto Butantan (54 milhões) ainda não estavam contratadas, e o Covax Facility não tinha saído do papel. Mesmo assim, no fim daquele mês, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que vinha dando seguidas declarações contrárias à imunização da população, afirmou em um discurso que, em breve, o Brasil estaria entre os países que mais vacinaram no mundo.

Fevereiro: pouca oferta, grandes ambições

Antes de completar um mês do início da campanha, municípios brasileiros começaram a interromper a vacinação por falta de imunizantes. Nesse cenário, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, prometeu vacinar toda a população até o fim do ano, mesmo admitindo dificuldades para adquirir imunizantes no exterior. “Vamos vacinar o país em 2021. 50% até junho e 50% até dezembro”, disse ao Senado no dia 11 de fevereiro.

Em reunião com governadores no dia 17, Pazuello apresentou um cronograma para entregar 230,7 milhões de doses até julho. No entanto, o documento incluía 10 milhões da Sputnik V e 20 milhões da Covaxin já com os primeiros lotes previstos para março, mas os dois imunizantes ainda não tinham contrato de compra nem autorização da Anvisa.

A pasta também dizia que receberia 9,3 milhões de doses da CoronaVac, mas o Butantan havia citado um número inferior em coletiva de imprensa na mesma data da reunião com governadores. No dia seguinte, o Ministério da Saúde disse que iria rever o calendário de entregas. O mês terminou com 4,8 milhões de doses de CoronaVac entregues.

O Butantan e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), responsável por fabricar a vacina AstraZeneca no Brasil, tiveram a produção impactada por causa de atrasos na importação do IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), componente vindo da China para ser utilizado na fabricação dos imunizantes.

Março: governo dobra a aposta

O Instituto Serum, da Índia, comunicou à Fiocruz em 4 de março o atraso na entrega de 8 milhões de doses prontas da AstraZeneca/Oxford que deveriam começar a chegar ao Brasil em abril. Sem considerar isso, o Ministério da Saúde anunciou que disponibilizaria mais 270 milhões de doses de vacinas que estavam com acordos fechados, casos da AstraZeneca e da CoronaVac, imunizantes enviados pelo Covax Facility, e da Covaxin, que ainda não tinha autorização da Anvisa para uso.

Até o fim do ano, a pasta dizia que o número ultrapassaria 400 milhões, pois estavam sendo negociadas 178 milhões de doses de Pfizer, Janssen, Moderna e Sputnik V. Poucos dias após o anúncio, Pazuello aumentou a promessa para 562 milhões de doses.

O montante incluía 30 milhões de doses da CoronaVac que ainda precisavam de contrato — as instituições já haviam formalizado a compra de todas as 100 milhões de doses anunciadas em janeiro — e imunizantes que permaneciam sem autorização da Anvisa. Por outro lado, a Moderna não havia sido contabilizada por ainda estar em tratativa.

Ao assumir o Ministério da Saúde no lugar de Pazuello, o médico Marcelo Queiroga permaneceu dando destaque às 562 milhões de doses. Além disso, Queiroga prometeu que seriam aplicadas 1 milhão de vacinas diariamente em curto prazo.

“Hoje, aplicamos 300 mil por dia. O Ministério da Saúde assume o compromisso, a curto prazo, de aumentar em três vezes essa velocidade de vacinação, para 1 milhão de vacinas todos os dias. É uma meta plausível”, disse em uma reunião do dia 24 de março.

Até o momento, o país aplicou 1 milhão de vacinas ou mais em cinco dias do mês de abril e dois dias em junho. Nesta quinta-feira (17), foram 2.220.845 vacinas aplicadas, um recorde.

Queiroga também disse que havia possibilidade de o Brasil aumentar o pedido de doses do Covax Facility de 10% para 20% da população, mas ainda não há informações sobre a mudança.

Abril e maio: Atrasos em série

Apesar de terem sido aplicadas cerca de 1 milhão de doses em alguns dias de abril, a campanha de vacinação voltou a ser impactada por atrasos na entrega do IFA. Municípios chegaram a postergar a aplicação da segunda dose da CoronaVac por falta de imunizantes.

Em maio, um levantamento do UOL apontou que o ritmo de vacinação no país havia caído 17% até o dia 18 daquele mês em relação a abril. Na época, o Ministério da Saúde disse que contrataria mais 100 milhões de doses da Pfizer, além dos 100 milhões já acertados. A encomenda, já formalizada, agora deve ser entregue até o quarto trimestre de 2021.

Junho: Janssen ADIADA

Queiroga também anunciou que negocia 100 milhões de doses da vacina da Moderna, mas não informou previsão de entrega. Em março, Pazuello havia começado a negociar 13 milhões para serem entregues a partir do segundo semestre e 50 milhões para 2022.

Alguns dias depois, em 12 de junho, Queiroga disse em uma entrevista coletiva que havia conseguido antecipar para este mês a entrega de cerca de 3 milhões de doses da Janssen do montante de 38 milhões previstos somente para o quarto trimestre. As doses com o prazo de validade perto do vencimento tiveram um desconto de 25%, mas a Anvisa autorizou a ampliação da validade para até 8 de agosto. O laboratório, entretanto, cancelou o envio marcado para terça-feira (15) e não tem previsão de nova data.

O Ministério da Saúde anunciou, então, que conseguiu antecipar 7 milhões de doses da Pfizer. De acordo com o calendário de projeção de entregas de vacinas atualizado na última quarta-feira (16), o país tem contratos firmados para 572,5 milhões de doses, contabilizando o que começou a ser entregue desde janeiro. Outras 90 milhões de doses ainda previstas para 2021 seguem em tratativas.

Referências:

1. Our World In Data
2. Ministério da Saúde (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18 e 19)
3. Agência Brasil
4. Fiocruz
5. Palácio do Planalto
6. Folha de S. Paulo (Fontes 1, 2, 3, 4 e 5)
7. G1
8. Poder 360
9. Site da Câmara
10. Zero Hora
11. UOL
12. Metrópoles

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