Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

Por que fazer álcool em gel em casa pode ser perigoso e ineficaz

Por Priscila Pacheco

18 de março de 2020, 20h03


Receitas de álcool em gel caseiro têm sido compartilhadas nas redes sociais como uma alternativa para a falta do produto no comércio em meio à pandemia do novo coronavírus. Contudo, especialistas ouvidos pelo Aos Fatos apontam que parte dos ingredientes citados, como álcool superconcentrado, têm venda proibida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e sua manipulação em casa pode ser perigosa. Além disso, o produto final pode ser ineficaz na eliminação de microrganismos como o Sars-Cov-2, que causa a Covid-19.

Veja abaixo o que apuramos:

1. Higiene pessoal e o sumiço do álcool gel

A correta higienização das mãos é uma das medidas de prevenção mais eficazes contra o Sars-Cov-2, vírus causador da Covid-19. Segundo o Ministério da Saúde e a OMS (Organização Mundial da Saúde), o melhor método é lavá-las com água e sabão (veja instruções aqui) e, quando não for possível, usar álcool em gel de no mínimo 60 ºGL (concentração de 60%).

Desde que a pandemia começou, tem se tornado mais difícil achar o produto em supermercados e farmácias. Empresas como a Ambev anunciaram que usariam suas fábricas para produzir o antisséptico para ser fornecido a hospitais das maiores cidades do país. Na terça-feira (17), a Anvisa liberou que farmácias de manipulação fabriquem o produto.

Nas redes sociais, também começaram a circular receitas para fazer álcool gel em casa. Os vídeos e imagens compartilhados recomendam a mistura de álcool líquido (etílico ou isopropílico) de diferentes concentrações com outros ingredientes, como gelatina incolor, gel para cabelo e aloe vera.

A busca por "como fazer álcool gel" no Google também cresceu significativamente, como é possível ver no gráfico do Trends abaixo:

Especialistas ouvidos pelo Aos Fatos, entretanto, apontam que a fabricação do antisséptico em casa pode ser perigosa e o produto final, ineficaz contra o novo coronavírus.

2. Venda proibida e perigos

A comercialização de álcool etílico líquido com teor acima de 54 ºGL foi proibida para o público geral pela Anvisa em 2013, seguindo uma resolução de 2002. A substância só pode ser comercializada em gel e por fábricas regularizadas, pois os produtos passam por avaliações e testes antes de serem disponibilizados para o público.

Wagner Contrera, gerente de fiscalização do CRQ-4 (Conselho Regional de Química da 4ª Região), comenta que, por isso, dificilmente alguém conseguirá comprar um álcool de alto teor. O de de 96 º GL, por exemplo, que é recomendado por algumas receitas, só está disponível para indústria, laboratórios e hospitais.

Nesta terça-feira (17), a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de Decreto Legislativo (PDL 87/2020) que suspende por 90 dias parte dessa resolução da Anvisa. Se aprovado pelo Senado, o texto permitirá a venda para o público geral de álcool com concentração de 70 ºGL em forma líquida e em embalagens maiores do que as autorizadas atualmente.

Mas um dos motivos de a venda ter sido proibida é que a substância é perigosa, portanto a manipulação caseira é contraindicada mesmo para quem tiver acesso ao produto. Além de ser extremamente inflamável, o álcool etílico superconcentrado pode provocar queimaduras e irritação na pele.

Contrera lembra que há um histórico de acidentes causados pelo uso de álcool perto de fogo – por exemplo, ao acender uma churrasqueira. Algumas das receitas disponíveis na internet sugerem o uso de água quente, logo, há um risco de a pessoa tentar fazer o produto próximo a um fogão.

O uso de álcool isopropílico, citado em algumas publicações, também não é recomendado para uso na pele porque “resseca muito a mão e é tóxico se absorvido”, comenta Luisa Fernanda Rios Pinto, engenheira química e pesquisadora na Unicamp. O produto em sua forma líquida pode ser aplicado com um pano para higienizar aparelhos eletrônicos, segundo o Conselho Federal de Química.

3. Ineficácia do produto final

Diferentemente dos produtos industrializados, o álcool em gel caseiro não passa por testes e, portanto, é impossível saber se de fato é eficaz como antisséptico, como alerta o Conselho Federal de Química.

Há diversos aspectos que influenciam a ação do álcool em gel e que são difíceis de ser controlados em casa. O primeiro é que, se a mistura final acabar com uma concentração baixa de álcool, não será eficaz. Um álcool de 46,2 ºGL, citado em uma das receitas que circulam, pode eliminar algum microrganismo, mas não com a mesma eficácia de um álcool em gel com concentração de 70 ºGL.

Mas só o alto teor de álcool não é sinônimo de maior eficiência para eliminar o vírus. “Um álcool com mais concentração é mais volátil. Então ele vai ter menos tempo de contato com o vírus”, diz Contrera. Ele explica que, na indústria, o problema é resolvido utilizando componentes específicos para dar a viscosidade ideal para o álcool em gel de 70 ºGL.

Já Rios Pinto, da Unicamp, diz que a interação de ingredientes não convencionais com o álcool líquido pode reduzir o efeito antisséptico. A gelatina, por exemplo, citada nas receitas, é composta por proteínas complexas e sais minerais, que podem diminuir a eficácia do produto. Já o gel para cabelo não deve ser usado no corpo nem puro. “Além de criar um produto grudento para as mãos, o gel tem produtos que ajudam a dar brilho no cabelo. Não é produto para usar no corpo”, explica.

Por fim, a engenheira afirma que a falta de equipamentos adequados e protocolos de higienização pode impedir que as misturas sejam feitas de uma maneira adequada.

Referências:
1. Anvisa
2. G1
3. Conselho Federal de Química
4. Ministério da Saúde
5. OMS
6. Aos Fatos
7. Senado
8. Câmara dos Deputados
9. G1
10. Agência Brasil
11. O Globo

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