Nem tudo é o que se vê: 5 dicas essenciais para checar fotos nas redes sociais

Por Ana Rita Cunha

2 de janeiro de 2020, 14h36


Shoppings realmente estão contratando papais noéis com uniforme verde amarelo? É verdade que uma macaquinha chorou com o filhote morto nos braços em queimada na Amazônia? O uso de fotos antigas fora de contexto tem sido uma das estratégias mais recorrentes na disseminação de desinformação. Por isso, o Aos Fatos elaborou um guia para que, em 2020, você possa identificar se as imagens que recebe são, de fato, atuais.

1.

Antes de compartilhar, tenha calma.

Uma boa estratégia contra a desinformação é fazer perguntas antes de compartilhar conteúdos nas redes sociais e em aplicativos de mensagem.

Quando receber uma imagem, pergunte à pessoa que enviou se ela sabe a origem da foto. Ela é de uma fonte confiável, como um jornal ou um site oficial? A pessoa conhece o autor ou autora da foto? Quando e onde ela foi tirada? A foto é original ou alterada?

Se não conseguir responder a essas perguntas ou se continuar em dúvida, siga as dicas que o Aos Fatos separou para que você saiba se uma imagem está fora de contexto ou foi manipulada antes de decidir compartilhá-la.

Ao não checar a veracidade de uma informação e compartilhar um conteúdo enganoso, ele vai chegar a seus familiares e amigos que, confiando em você, podem compartilhar a informação falsa com mais gente, criando assim uma rede de desinformação.

2.

Como checar a data de uma imagem usando Tineye

Existem vários sites que permitem a chamada busca reversa de imagem. Nela, você usa uma imagem no lugar de palavras para procurar algo. Entre as informações que você consegue buscar está a data mais antiga em que uma foto foi publicada na internet. Isso é importante para saber, por exemplo, se uma imagem atribuída a um evento recente não refere-se, na verdade, a uma situação passada.

Um exemplo: em agosto, em meio à repercussão do aumento de queimadas na Amazônia, circulou uma foto de um macaco segurando no colo um filhote. Na época, a imagem teve mais de 5.000 compartilhamento e era acompanhada de uma legenda que afirmava que o bebê-macaco teria morrido asfixiado "pela queimada criminosa da sua mata". Mas, conforme o Aos Fatos checou, a imagem era, na verdade, de 2017, tinha sido tirada na Índia. Segundo seu autor, o fotógrafo Avinash Lodhi, o filhote não estava morto, havia apenas tropeçado.

É possível repetir os passos da checagem do Aos Fatos usando o site Tineye. Tanto no celular quanto no computador, a busca pode ser feita copiando o endereço da imagem (figura 1) ou fazendo o upload da foto no site (figura 2).

No Tineye, é possível filtrar pelas imagens mais antigas (figura 3). Ao fazer isso no caso dos macacos, a imagem mais velha que aparece é de abril de 2017 (figura 4), o que já mostra que a foto não é das queimadas na Amazônia deste ano. A busca reversa também revelou que ela foi publicada por jornais ingleses que entrevistaram o autor da imagem.

3.

Como checar a data de uma imagem usando Google Image

Outra forma de checar a data de uma imagem é por meio do Google Imagens (figura 1). Você pode fazer o upload da foto ou colar o endereço da imagem no campo de busca. A ferramenta do Google é feita apenas para computador; para fazer busca no celular, é preciso abrir o link no navegador Chrome, clicar na foto e selecionar a opção “Pesquisar a imagem no Google”.

No Google Imagens, em “Ferramentas”, é possível selecionar um intervalo personalizado de tempo para a busca (figura 2). Para checar se este ano shoppings estão recrutando papais noéis vestidos de verde e amarelo como forma de protestar contra o PT, como afirmam publicações nas redes sociais, é preciso escolher um intervalo que vá do presente até o uma data, por exemplo, de 30 anos atrás (o importante é ir o mais distante possível no passado para encontrar a primeira publicação da imagem).

Como resultado, aparece que a mesma foto foi publicada em 2015 (figura 3), ou seja, já circulava na internet muito antes. Ainda que você não saiba qual a origem da foto já é possível saber que não se trata de uma situação atual.

De acordo com a busca, a foto foi publicada pela primeira vez em uma reportagem do portal de notícias G1 de dezembro de 2012 (figura 3). Ela mostra, na verdade, uma ação beneficente que ocorreu na cidade de Itapira (SP) naquele ano e que não tinha qualquer ligação com protesto contra partidos políticos.

Além dos buscadores citados anteriormente existem outras páginas que permitem fazer a busca reversa (Bing e Yandex), cada um deles com um algoritmo diferente para procurar imagens semelhantes. Em quanto mais páginas você puder buscar, mais informações diferentes você pode obter sobre uma imagem.

4.

A história está nos detalhes

Além das ferramentas de busca reversa, olhar as fotos com cuidado pode permitir identificar detalhes que indiquem que ela foi tirada de contexto ou até mesmo manipulada. Um dos casos mais recorrentes de desinformação são fotos de protestos usadas para inflar a participação em manifestações ou desmerecer os manifestantes.

Em maio, por exemplo, uma foto do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, com uma multidão ao fundo circulou como se tivesse sido tirada durante uma das mobilizações a favor do governo federal que ocorreram naquele mês.

A bandeira de um candidato no meio da multidão e o adesivo na camisa de Bolsonaro com o número de candidato, típicos de épocas de campanha eleitoral (o que não é o caso de 2019, ano sem eleições nacionais ou regionais), no entanto, são indícios para desconfiar da data da foto e não passar à frente.

Ao fazer a busca reversa descobrimos que se tratava, na verdade, de uma foto publicada no perfil oficial de Flávio em setembro de 2018, durante a campanha eleitoral. A imagem retrata um comício em favor da candidatura à Presidência de Jair Bolsonaro, conforme mostrou a checagem do Aos Fatos.

Observar a foto com atenção permite também identificar marcas explícitas de adulteração. Foi o caso de imagem que circulou exibindo mensagens falsas de manifestantes a favor do governo Bolsonaro e que tem sinais de manipulação como: a cor de fundo de parte dos cartazes é diferente e parte do retângulo do cartaz “corta” os dedos das manifestantes.

A imagem original foi publicada por um perfil pessoal no Twitter. Como é possível observar, as causas defendidas originalmente não tinham qualquer relação com as sugeridas pelo boato que circulou com a foto adulterada.

5.

Conte com o Aos Fatos

Mesmo com este guia, se o processo de verificação de imagens parecer muito complicado ou se tiver dúvidas sobre o resultado, você pode ver o que o Aos Fatos já checou ou pedir que gente cheque para você pelo nosso site ou pelo WhatsApp.

Você também pode sugerir checagens por meio da hashtag #vamosaosfatos no Twitter e no Facebook.