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Dilma muda discurso sobre crise econômica

18 de janeiro de 2016, 03h26

A presidente Dilma Rousseff admitiu pela primeira vez na última sexta-feira (15) que a crise econômica se intensificou já em 2013. Em declaração durante café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, Dilma afirmou que só agora é possível ver que houve "uma inflexão [na economia brasileira] a partir do final de 2013".

Nós começamos a falar que tinha chegado ao fim do superciclo das commodities. Nós mesmos levamos um tempo para perceber — nós e o mundo, aliás. (…) Hoje, olhando de agora, a gente vê isso, não é? Começou a haver uma inflexão a partir do final de 2013, tem gente que diz que isso veio antes, veio de antes. Tem analistas econômicos que dizem que veio antes, que começaram os indícios antes.

A afirmação de Dilma vai ao encontro do que Aos Fatos revelou em agosto do ano passado, quando mostrou que a presidente sabia desde 2013 da gravidade da crise, conforme relatório de órgão oficial ligado ao Palácio do Planalto. Naquele período, críticos do governo afirmavam que faltava a Dilma fazer um mea culpa mais enfático pela crise econômica imposta ao país e colocar em contexto suas decisões.

À época, Dilma disse:

Errei em ter demorado tanto para perceber que a situação era mais grave do que imaginávamos. Talvez tivéssemos que ter começado a fazer uma inflexão antes. Não dava para saber ainda em agosto. Não tinha indício de uma coisa dessa envergadura. Talvez setembro, outubro, novembro. (…) A crise começa em agosto, mas só vai ficar grave, grave mesmo, mesmo entre novembro e dezembro [de 2014]. É quando todos os estados da federação percebem que a arrecadação caiu.

A declaração da presidente recebeu o selo FALSO de Aos Fatos, porque, segundo a Carta de Conjuntura do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) de dezembro de 2013, economistas do governo já alertavam para o esgotamento do modelo adotado pelo Planalto para reagir às condições externas desfavoráveis.

"A perda de dinamismo da região se deve basicamente a três fatores: a deterioração dos termos de troca; o menor crescimento da economia mundial, especialmente com a recessão na Europa e a desaceleração chinesa; e o esgotamento do impacto das medidas anticíclicas adotadas em toda a região em reação à crise financeira de 2008–2009. Aparentemente, os países do Mercado Comum do Sul (Mercosul) — em especial, a Argentina, o Brasil e o Paraguai — foram mais rapidamente afetados, de forma que o crescimento do PIB se desacelerou fortemente já em 2012", dizia o Ipea.

O documento também registra que "as entradas de capital tornaram-se insuficientes para cobrir todo o deficit externo, de forma que o saldo geral do balanço de pagamentos tornou-se negativo pela primeira vez desde meados de 2009, quando o país sofria os efeitos da crise financeira internacional". Ou seja, o próprio governo já previa que a deterioração das contas públicas poderia gerar um cenário de retração da atividade econômica.

Além disso, conforme diagnóstico do governo, maio de 2014 já apresentava forte retração da arrecadação federal. O primeiro mês de arrecadação inferior ao mesmo período de 2013 é julho — cuja justificativa, segundo o governo, seria a realização da Copa do Mundo. Ali, registrou-se o pior resultado em quatro anos.

A mudança de tom de Dilma ocorre em meio a uma nova ofensiva de comunicação do Palácio do Planalto, cujo objetivo é "humanizar" a presidente. Dilma tem tentado responder semanalmente a críticas diretas ao seu governo com um rascunho de planejamento para o ano. A ideia é construir uma figura que ouve mais e que, eventualmente, demonstra que absorve ataques à gestão.

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