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Candidatos no Rio citam informações falsas sobre transporte, pandemia e emprego

Por Priscila Pacheco e Bernardo Barbosa

13 de novembro de 2020, 17h51

Os quatro candidatos que lideram as intenções de voto para prefeito do Rio nas últimas pesquisas Ibope e Datafolha recorreram a alegações falsas ou imprecisas na reta final da campanha do primeiro turno ao abordar temas como passagem de ônibus, efetivo de profissionais de saúde para enfrentar a pandemia e níveis de desemprego na cidade. A seguir, Aos Fatos mostra a veracidade do que disseram nos últimos dias Eduardo Paes (DEM), Marcelo Crivella (Republicanos, candidato à reeleição), Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT).

Marcelo Crivella (Republicanos)


FALSO

“O Rio tem a passagem de ônibus mais barata entre as maiores capitais do país.” – post no Facebook

A declaração é FALSA, porque há pelo menos quatro grandes capitais nas quais a passagem de ônibus é mais barata do que a do Rio de Janeiro.

Entre as 12 cidades que o candidato lista em post no Facebook como “as maiores capitais do país” para comparar as tarifas, 6 não são de fato as maiores, segundo o IBGE: Maceió, Campo Grande, Cuiabá, João Pessoa, Florianópolis e Natal.

De acordo com os dados do instituto, as 12 maiores capitais são: São Paulo, Rio, Brasília, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Manaus, Curitiba, Recife, Goiânia, Belém e Porto Alegre.

Destas, pelo menos quatro têm tarifas de ônibus menores do que as do Rio (R$ 4,05): Recife (R$ 3,45), Fortaleza (R$ 3,60), Belém (R$ 3,60) e Manaus (R$ 3,80).

Procurada por e-mail para comentar a checagem, a assessoria da campanha de Crivella respondeu que não o faria.


FALSO

“Se você dividir o número de mortos [pela Covid-19] da cidade de São Paulo pela população da cidade de São Paulo e se você dividir o número de mortos da cidade do Rio de Janeiro pela população do Rio de Janeiro, você vai ver que (...) nós perdemos menos pessoas no Rio de Janeiro do que perdemos em São Paulo, o que mostra que realmente nós não estávamos errados.” – Live no dia 10 de novembro

A declaração é FALSA, porque o resultado da divisão do número de mortos por Covid-19 pelo tamanho da população é maior no Rio do que em São Paulo, segundo dados do Ministério da Saúde.

A plataforma SUS Analítico, do ministério, disponibiliza dados que foram computados até o dia 6 de novembro. Até aquela data, São Paulo tinha 13.715 mortos por Covid-19 com 12.252.023 habitantes. Até a mesma data, a cidade do Rio acumulava 12.268 mortes por Covid-19, com 6.718.903 habitantes.

Com isso, a proporção de mortos por Covid-19 em relação à população total no Rio é de 0,18%, contra 0,11% em São Paulo.

A plataforma do governo federal também mostra que São Paulo tem uma taxa de 112 mortes por 100 mil habitantes, contra 183 no Rio.

Procurada por e-mail, a assessoria da campanha de Crivella disse que não se manifestaria sobre a checagem.

Eduardo Paes (DEM)


IMPRECISO

“Descobriram lá um negócio de uma mala de dólar no chefe de gabinete dela [Martha Rocha], são fatos noticiados pela imprensa.” – sabatina Folha/UOL

De fato, em 1994, o delegado Inaldo Júlio de Santana, então chefe de gabinete de Martha Rocha (PDT) no DGPE (Departamento Geral de Polícia Especializada) foi preso por ter sido acusado de intermediar pagamentos de propina envolvendo bicheiros. Entretanto, a declaração de Paes foi classificada como IMPRECISA, porque o portador dos dólares não era Santana.

Segundo uma notícia publicada em 24 de abril de 1994 pela Folha de S. Paulo, Fernando Ignácio, genro do bicheiro Castor de Andrade, tentou subornar o delegado Mário Covas com US$ 7 mil. Inaldo Santana teria intermediado o encontro entre Ignácio e Covas, que depois veio a ser secretário da Polícia Civil fluminense.

Dias antes, em 8 de abril de 1994, a Folha noticiou que Ignácio foi preso em flagrante em outubro de 1993 “com uma mala de dólares que, segundo a polícia, serviriam para subornar o delegado Mário Covas”.

Em 1996, Martha Rocha foi afastada do seu cargo na polícia por suspeita de envolvimento em esquema de propina entre a Polícia Civil e bicheiros. No entanto, as investigações concluíram que ela era inocente.

Em nota enviada por e-mail, a campanha de Paes defendeu que a afirmação do candidato está correta, e que ele não disse "que a mala foi apreendida com o chefe de gabinete". "Eduardo Paes se referiu à Inaldo Júlio Santana, ex-chefe de gabinete do Departamento Geral de Polícia Especializada (DPGE), que segundo matérias jornalísticas à época, teria sido o responsável por intermediar a entrega da propina a mando do genro do bicheiro Castor de Andrade, Fernando Ignácio, para o diretor do DPGE, Mário Covas", diz a nota da campanha.


VERDADEIRO

“Aqui no Rio, nós não temos subsídio da passagem de ônibus.” – sabatina Folha/UOL

A declaração de Paes durante sabatina feita pela Folha de S.Paulo e pelo UOL no dia 5 de novembro foi classificada como VERDADEIRA, pois as quatro empresas (Transcarioca, Santa Cruz, Internorte e Intersul) responsáveis pelos ônibus da cidade de fato não recebem subsídios da prefeitura para arcar com as passagens.

A informação pode ser conferida nos contratos disponíveis na página “Transparência da Mobilidade”, mantida pela prefeitura. É dito no tópico 5.8 de cada contrato que a concessionária reconhece que o valor das tarifas é suficiente para a remuneração dos serviços, a amortização de investimentos e o retorno econômico.


Martha Rocha (PDT)


FALSO

“Direito de resposta de Martha Rocha [por conta de ataques de Eduardo Paes].” – post no Twitter

Na terça-feira (11), a campanha de Martha Rocha veiculou no Twitter, no Facebook e no YouTube um vídeo que seria um “direito de resposta” contra Eduardo Paes. No entanto, a Justiça Eleitoral não concedeu direito de resposta a ela contra o candidato do DEM, o que torna a alegação FALSA.

Em uma consulta no sistema público da Justiça Eleitoral, a reportagem localizou quatro pedidos de direito de resposta feitos por Martha Rocha contra Paes e sua campanha (aqui, aqui, aqui e aqui). Nenhum deles foi aceito.

Na segunda-feira (10), o jornal O Globo noticiou o caso, e informou que a campanha de Paes entrou com ação para impedir a divulgação da peça de propaganda que leva a crer que Martha Rocha conseguiu direito de resposta.

Em nota enviada por e-mail para o Aos Fatos, a campanha de Martha Rocha disse que “exerce seu direito de responder às difamações proferidas pelo ex-prefeito, uma vez que os cariocas têm o direito de saber a verdade sobre as calúnias que o candidato tem feito através de sua propaganda, mesmo que covardemente não se identifique nelas”.


VERDADEIRO

“Em 2019, o Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro apontou um rombo, do atual prefeito, de R$ 4 bilhões.” – entrevista à CNN Brasil

A declaração é VERDADEIRA porque, segundo informações da própria Prefeitura do Rio, a cidade fechou 2019 com praticamente R$ 4 bilhões no vermelho.

De acordo com um relatório do TCM (Tribunal de Contas do Município) citado em reportagens do G1 e do jornal O Globo, o déficit chegaria a R$ 4,24 bilhões. O valor também aparece em nota da Câmara Municipal carioca publicada em julho.

Uma outra notícia do G1 fala que o TCM apontou um rombo de “aproximadamente R$ 4 bilhões” nas contas municipais em 2019. A fonte original desse dado é a CGM (Controladoria-Geral do Município), que na prestação de contas de 2019 informou que o Rio fechou o ano com uma “situação financeira negativa” de R$ 3,996 bilhões.

Benedita da Silva (PT)


FALSO

“O índice de desemprego [está] na casa, no Rio de Janeiro, de quase 1,2 milhão de desempregados na nossa cidade.” –- entrevista à CNN Brasil

A declaração da candidata Benedita da Silva (PT) durante entrevista à CNN Brasil no dia 9 de novembro foi classificada como FALSA, pois o número de mais de 1,2 milhão de desempregados é referente ao estado do Rio de Janeiro, não à capital.

A informação foi divulgada em setembro pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e apontava que a taxa de desemprego no estado era de 16,1%, maior do que a média nacional (14,4%). A cidade do Rio de Janeiro tem 470 mil pessoas desempregadas, de acordo com a Pnad Contínua do primeiro trimestre de 2020, dado mais recente disponível sobre capitais. A taxa de desocupação na capital é de 13%, também segundo o dado do IBGE.


FALSO

“E ainda contou com a loucura do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, que foi o Crivella, na demissão de profissionais [de saúde] no momento em que nós estamos passando por uma pandemia.” –- entrevista à CNN Brasil

A Prefeitura do Rio de Janeiro demitiu 5.000 profissionais da Saúde em janeiro após romper contrato com o Viva Rio, organização social que era responsável pela administração de 75 unidades de saúde municipais. Entretanto, o primeiro caso de Covid-19 só foi registrado no Brasil em 26 de fevereiro, na cidade de São Paulo, e a pandemia foi decretada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 11 de março.

Além disso, em fevereiro, a RioSaúde, empresa pública de saúde, assumiu unidades municipais e diz ter contratado mais de 4.000 profissionais. Assim, a declaração de Benedita da Silva (PT) foi classificada como FALSA.

Em junho, houve demissões em hospitais federais da cidade, mas os estabelecimentos não são responsabilidade da prefeitura.

O Aos Fatos questionou todos os candidatos sobre as declarações checadas, mas não obteve retorno da campanha de Benedita da Silva até a publicação da checagem nesta sexta-feira (13).

Referências:

1. G1 (Fontes 1, 2, 3, 4, 5 , 6, 7 e 8)

2. Folha de S. Paulo (Fontes 1, 2, 3 e 4)

3. Facebook de Marcelo Crivella (Fontes 1, 2)

4. IBGE (Fontes 1, 2, 3 e 4)

5. Riocard

6. Consórcio Grande Recife

7. Prefeitura de Fortaleza

8. Amazonas Atual

9. Ministério da Saúde

10. Twitter de Martha Rocha

11. Facebook de Martha Rocha

12. YouTube de Martha Rocha

13. Justiça Eleitoral (Fontes 1, 2, 3, 4, 5)

14. O Globo (Fontes 1, 2 e 3)

15. YouTube CNN Brasil (1, 2)

16. Prefeitura do Rio (Fontes 1, 2, 3, 4, 5 e 6)

17. UOL (Fontes 1 e 2)

18. OMS

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