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2015 de Dilma já superou número de pedidos de impeachment do último ano de Collor

3 de dezembro de 2015, 16h06

Se os dados do único caso de impeachment da história do presidencialismo brasileiro servirem de base, a presidente Dilma Rousseff pode se deparar com um cenário mais crítico do que já está na mesa agora.

A decisão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de abrir o processo contra Dilma pode ter seguido motivações próprias, como amplamente tem sido aceito nos bastidores da política, mas também acontece num ano em que o montante de pedidos de impedimento contra ela se acumula de forma espantosa.

Repare, abaixo, no comportamento de pedidos de impeachment desde 1990.

Há uma sutil similaridade temporal entre dois presidentes com maior popularidade (Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva) e os de menor popularidade (Fernando Collor de Mello e Dilma).

Veja aqui os dados de popularidade do Datafolha.

A linha no eixo X (horizontal) do gráfico é praticamente estável em certos períodos para Dilma e Collor, o que indica que muitas denúncias foram feitas no mesmo ano. Para FHC e Lula, as linhas são mais graduais ao longo do tempo, ficando mais estáveis principalmente perto de períodos eleitorais, mas sempre com certa ascensão (mais suave para Lula). Isso reflete uma correlação com a popularidade do presidente em questão.

Dilma, em 2015, teve notas abismais de aprovação, enquanto no primeiro mandato suas notas foram melhores (o que explica menos pedidos de impedimento). Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, de novembro, os níveis de rejeição contra a petista (67%) estão entre os mais altos já registrados desde 1987.

Em junho de 1992, poucos meses antes de seu processo de impeachment, Collor tinha uma rejeição de 68% (aqueles que consideravam seu governo péssimo ou ruim), também segundo o Datafolha.

No gráfico abaixo, é possível ver como o total de denúncias contra Dilma em 2015 se assemelha com Collor em 1992.

Note que, para FHC e Lula, as denúncias se concentravam coincidentemente nos períodos de 2001 (FHC) e 2005 e 2006 (Lula). Para FHC, foi o ano da crise elétrica com o chamado "apagão". Para Lula, foi a época da crise do "mensalão".

Isso aconteceu com Dilma em menor escala em 2014, apenas sete pedidos naquele turbulento ano eleitoral, mas o real impulso nas denúncias contra ela aconteceu em 2015, no primeiro ano de seu segundo mandato, com 28 denúncias de impeachment.

Collor estava um pouco mais avançado em seu mandato em 1992, mas ainda tinha mais dois anos pela frente no cargo.

Essa correlação não significa que Dilma necessariamente terá o mesmo destino de Collor. O processo é bastante tortuoso e precisa de aprovação de maioria de 2/3 no Congresso (342 deputados e 54 senadores). Os dados, entretanto, dizem muita coisa sobre as confluências de dois cenários e períodos bem distintos.

Leia ainda: Com Collor, STF enfrentou questões semelhantes às de Dilma

Ainda é incerto o apoio parlamentar sobre um processo de impeachmentcontra Dilma. Segundo pesquisa Datafolha publicada no fim de outubro, 39% dos deputados que aceitaram participar da consulta disseram ser a favor da abertura do processo, enquanto 32% afirmaram que votariam contra, e 29% não se posicionaram. No Senado, o grupo contrário era maior, de 43%. A favor, 37%.

O problema da consulta do Datafolha, no entanto, é que quase 40% dos parlamentares (mais de 200) não quiseram participar, não foram encontrados ou não se posicionaram sobre certas questões, o que deixa uma grande margem para qualquer lado.

Não são dados perfeitos, mas é um termômetro a se observar.

Dilma já é recordista em pedidos de impeachment, com 42 no total, de acordo com dados oficiais da Câmara dos Deputados enviados para o Volt Data Lab e Aos Fatos em outubro.

Collor teve 29 no total, segundo os mesmos dados. Obviamente, ele ficou menos tempo no poder, enquanto Dilma já está em seu quinto ano.

Veja os dados da Câmara organizados pelo Volt aqui

De toda forma, se o passado serve como referência, o humor no Palácio do Planalto — que já não está nada bom há algum tempo — pode ser ainda mais azedado por um vinagre com 25 anos de idade.


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