Assalto ao Capitólio mostra que Zuckerberg confunde a fronteira entre o real e o virtual

Por Tai Nalon

9 de janeiro de 2021, 16h20


Quando Mark Zuckerberg acordou nesta quinta-feira (7) de sonhos intranquilos, viu-se impelido a banir o presidente de seu país das plataformas sociais que aliciaram por metade de uma década o trumpismo. Segundo o CEO do Facebook, Donald Trump usou as redes durante anos de modo "compatível com as regras", mesmo que "às vezes sujeito à remoção ou à marcação de conteúdos que violassem essas mesmas regras". Para além da declaração contraditória, Zuckerberg afirma crer que o público de sua plataforma "tem direito ao mais amplo acesso ao discurso público, mesmo que seja controverso". Diz ainda que, agora, o contexto é "fundamentalmente diferente", "envolvendo o uso da plataforma para incitar uma insurreição violenta contra um governo democraticamente eleito".

Única das grandes plataformas a adotar prática mais rígida contra o presidente americano, o Facebook parece ainda ter dificuldade de entender que a vida real também acontece nas suas dependências virtuais. Não é porque uma horda de radicais saiu de frente dos teclados e invadiu o Congresso americano que tudo mudou: a violência simbólica construída nas redes sociais durante toda a Era Trump preparou o terreno para o atentado de 6 de janeiro.

Zuckerberg erra ao avaliar que há um ponto de inflexão no discurso trumpista. Se há alguém que apresentou consistentemente o mesmo comportamento ao longo desse período foi o mandatário da Casa Branca. E ele não precisou invadir pessoalmente o Capitólio: Trump já estava lá o tempo todo, com acesso garantido pelas regras rígidas que o CEO do Facebook diz manter.

A nota de Zuckerberg reforça a retórica fictícia de que o Facebook assegura aos seus usuários amplo acesso ao discurso público. Um algoritmo pouco transparente, que valoriza conteúdo "controverso", é qualquer coisa menos a garantia de que liberdades constitucionais são cumpridas. Para ser plena, a liberdade de expressão pressupõe níveis equivalentes de acesso à informação por todos os usuários. A premissa do Facebook é exatamente o contrário: seus usuários terão acesso apenas àqueles conteúdos que a empresa julgar compatíveis com seus hábitos.

Um ambiente que valoriza a liberdade de expressão não limitaria a circulação de conteúdo verificado nem venderia como secundário o trabalho da imprensa de contraditar mentiras proferidas por políticos. Além de dificultar a circulação de notícias em suas redes, o Facebook não permite que checadores marquem em suas plataformas declarações falsas de autoridades eleitas. Ao contrário, concede a esses representantes uma espécie de imunidade oficiosa ao escrutínio público, já que só a eles — e apenas a eles — é permitido publicar conteúdo de qualquer natureza.

Se Zuckerberg até hoje não conseguiu entender que o que está nas suas plataformas é real, o Facebook há anos confunde liberdade de expressão com direito ao acesso à desinformação. Banir Trump depois de cinco anos de atentado às instituições é indício de que suas lideranças ainda entendem pouco de abuso e liberdade e parecem não ter conseguido aprender nada sobre o combate à desinformação.

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Às 20h21 desta sexta-feira (8), depois do fechamento desta newsletter, o Twitter também anunciou o banimento de Trump de sua plataforma sob a premissa de que contas como a do presidente americano "não estão totalmente acima das nossas regras". Conforme a nota, Trump não pode usar o Twitter para incitar a violência, "entre outras coisas". Os pesos e as medidas seguem tão pouco claros quanto aqueles usados pela rede social vizinha.


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