Site que promete indenização para quem comprou produtos Ypê é golpe

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É golpe o site que diz ajudar usuários a descobrir se têm direito a uma indenização da Ypê pela suspensão da venda e da fabricação de produtos determinada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A empresa negou que o site seja oficial e Aos Fatos detectou indícios de fraude digital para roubar dinheiro e dados pessoais.

O portal falso está sendo compartilhado por páginas de anúncio no Facebook que acumulavam centenas de compartilhamentos até a tarde desta terça-feira (12).

DESCUBRA AGORA SE VOCÊ TEM DIREITO A RECEBER UMA INDENIZAÇÃO DE ATÉ R$ 3 MIL [da Ypê].

Captura de tela de telejornal com dois apresentadores divididos em telas lado a lado. À esquerda, um homem de terno azul e gravata aparece olhando para baixo; à direita, uma mulher de cabelo escuro fala diante da câmera. Na parte inferior, uma faixa vermelha e azul com o título ‘RISCO SANITÁRIO’ acompanha um texto em destaque: ‘DESCUBRA AGORA SE VOCÊ TEM DIREITO A RECEBER UMA INDENIZAÇÃO DE ATÉ 3 Mil reais’, seguido da frase ‘se você estiver com um produto contaminado em sua casa’. No canto superior direito aparece a indicação ‘AO VIVO’.

Um site que promete ajudar usuários que compraram produtos Ypê a obter “indenizações de até R$ 3.000”, é, na verdade, um golpe para roubar dinheiro e dados pessoais de usuários.

Aos Fatos simulou todo o caminho para fazer a solicitação de indenização e detectou indícios de que se trata de uma fraude digital:

  • Não há nenhum órgão ou autoridade responsável pelo site, que foi criado pelo Lovable, plataforma de vibe-coding (desenvolvimento de sites, programas e aplicativos por meio de ferramentas de IA);
  • A reportagem que aparece no site como suposta prova de que a indenização seria paga foi editada. O vídeo original, veiculado pela CNN Brasil na sexta (8), não fala do suposto ressarcimento;
  • Os comentários que aparecem “ao vivo” são repetitivos e pouco naturais;
  • Aos Fatos inseriu dados pessoais falsos e, mesmo assim, recebeu a mensagem de que tem acesso ao direito;
  • Também é possível enviar qualquer imagem como “prova” de aquisição de um produto contaminado e receber a resposta padrão do site de que a reparação financeira está disponível.
página com aparência de alerta online sobre suposta contaminação de produtos da Ypê. No topo, uma faixa vermelha exibe a mensagem ‘ALERTA: PRODUTO CONTAMINADO’. Abaixo, há um ícone de alerta triangular e o texto em destaque: ‘Confirmado: este produto está contaminado’. O conteúdo afirma que a análise identificou um lote contaminado e que a pessoa estaria habilitada a receber indenização. No centro da página, aparece uma miniatura de um suposto comunicado oficial da Ypê. Na parte inferior, um quadro destaca ‘INDENIZAÇÃO LIBERADA Até R$ 3.000’ com promessa de pagamento via Pix em até 24 horas, seguido de um botão azul escuro com a frase ‘Receber indenização agora →’.
Enviamos a capa de uma checagem publicada ontem sem nenhum produto, e o site alegou que se tratava de um item contaminado (Reprodução)

Após a inserção de dados pessoais como nome, email e CPF e o envio da suposta imagem do produto contaminado, o site pede que o usuário faça um Pix de R$ 19 para receber a indenização. O destinatário está registrado anonimamente na plataforma Nexium Payments.

Página de pagamento com cronômetro em destaque mostra ‘14:51’ abaixo da frase ‘ATENÇÃO: TEMPO LIMITADO’. O texto informa que a taxa deve ser paga dentro do prazo para que a suposta indenização seja liberada. No centro da imagem, há um QR Code para pagamento via Pix. Abaixo, aparece um código Pix longo para ‘copia e cola’, seguido de um botão com a frase ‘Copiar código PIX’. Na parte inferior, um aviso afirma que, após o pagamento, a indenização cairia automaticamente na chave Pix do usuário.
Site golpista pede pagamento de R$ 19 para ‘liberar pagamento da indenização’ (Reprodução)

O consumidor tem direito à indenização?

Depende do caso.

A suspensão do lote 1 de alguns produtos da Ypê decretada pela Anvisa configura vício de qualidade. Com isso, o consumidor tem direito à substituição do item ou ao reembolso do preço pago pelo produto, de acordo com especialistas ouvidos por Aos Fatos.

Os pedidos de substituição ou reembolso devem ser feitos pelo SAC da Ypê. A empresa também disponibilizou um formulário para atendimento ao consumidor.

Close em embalagem branca de detergente de coco da Ypê. O rótulo exibe frases como ‘ALTO PODER DESENGORDURANTE’ e selo de ‘TESTADO DERMATOLOGICAMENTE’. Na parte inferior da embalagem aparecem informações impressas em tinta preta com dados de fabricação e validade, incluindo ‘FAB: OUT23’ e ‘VAL: OUT25’, além de um código de lote e horário de produção. Um dedo aparece apontando para a área onde as informações estão impressas.
Decisão da Anvisa atinge detergentes, desinfetantes e lava-louças de lotes com final 1 (Reprodução/Youtube)

Um consumidor, no entanto, só tem direito à indenização caso seja documentado prejuízo em decorrência da contaminação relatada pela Anvisa.

“O simples fato de ter comprado um dos produtos afetados não significa automaticamente que exista direito à indenização. Normalmente é preciso demonstrar que sofreu algum prejuízo, como problemas de saúde, reação adversa ou intoxicação”, disse Rogério Nigro, membro da Comissão Especial de Direito do Seguro e da Comissão de Compliance da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil).

Natália Ciuffi, advogada do escritório MFBD Advogados, ressalta que essas reparações são válidas mesmo que a Ypê tenha entrado com recurso contra a determinação da Anvisa e a decisão esteja suspensa no momento. A expectativa é que o caso seja analisado pelo colegiado da agência ainda nesta semana.

A recomendação atual da Anvisa é que os consumidores não usem os produtos listados na decisão e procurem o SAC da Ypê.

Como não cair em golpes

Com a popularização das ferramentas de inteligência artificial, as fraudes digitais têm sido cada vez mais comuns nas redes. A facilidade e a rapidez com que esses posts enganosos são criados faz com que os criminosos aproveitem o noticiário para aplicar golpes em usuários.

Antes de fazer qualquer pagamento, sempre analise o site que oferece a promoção ou promete a suposta reparação judicial. Além disso:

  • Procure pelo responsável pelo portal. É uma empresa conhecida? É um órgão governamental? Golpistas geralmente não deixam informação de contato ou maneira de serem identificados;
  • Sempre procure os canais oficiais da empresa ou do órgão para verificar se o auxílio ou promoção também foi divulgado por lá;
  • Analise o link para verificar se ele se parece ao do portal original e procure inconsistências, como letras e números excessivos ou finais diferentes de “.com.br” e “.org”;
  • Observe se os comentários de clientes são genéricos e se seus conteúdos se repetem sob outros nomes com o passar do tempo;
  • Nunca insira seus dados bancários;
  • Pesquise em sites como o Reclame Aqui se alguém já denunciou a página que você está acessando.

Caso tenha sido vítima do golpe e realizado o pagamento via Pix, é possível recorrer ao MED (Mecanismo Especial de Devolução), sistema criado pelo BC (Banco Central) para reparar danos gerados por fraude com o uso da tecnologia. Também é possível recorrer à Justiça.

O caminho da apuração

A assessoria de imprensa da Ypê alertou a reportagem sobre a disseminação do golpe. Aos Fatos identificou que o site não só estava sendo compartilhado como também estava sendo atualizado para tornar a fraude mais crível. Fizemos, então, o caminho do golpe e constatamos diversos indícios de que, de fato, se trata de fraude.

Também conversamos com especialistas em direito do consumidor para perguntar se é cabível o pedido de indenização por parte de consumidores no caso da Ypê. Foram consultados Natália Ciuffi e Rogério Nigro.

Por fim, recuperamos dicas de como evitar golpes nas redes e de como o consumidor pode tentar recuperar o dinheiro perdido caso tenha sido vítima de fraude.

Referências

  1. CNN Brasil
  2. Anvisa (1 e 2)
  3. Ypê (1 e 2)
  4. g1
  5. Aos Fatos
  6. Reclame Aqui
  7. Banco Central

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