“Coisas que eu achei que todo mundo fazia, mas na verdade são sintomas de autismo”, diz a legenda de um entre os muitos vídeos no TikTok que trazem relatos sobre a condição. Enquanto uma adolescente dança, aparecem na tela uma série de supostos sintomas, que incluem não gostar de usar meias e não misturar a salada com o restante da comida.
Nos comentários, usuários que se identificam com o post apontam a possibilidade de terem também a condição, que afeta cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil, segundo estimativa da OMS (Organização Mundial da Saúde). Especialistas apontam, no entanto, que vídeos como esse não trazem critérios precisos de diagnóstico e podem ajudar a espalhar desinformação.

Em busca simples no TikTok, Aos Fatos identificou ao menos 50 conteúdos que trazem supostas listas de sintomas do autismo ou apresentam testes rápidos de autodiagnóstico. Juntos, eles acumulam cerca de 47,6 milhões de visualizações na rede.
Em geral, os vídeos são curtos e focados em sintomas abrangentes, ou trazem testes simplificados, como desafios de abaixar os dedos para cada característica identificada. Alguns ainda direcionam os usuários para testes rápidos em links no perfil do criador do conteúdo.
Benefícios e prejuízos
Para especialistas consultados pelo Aos Fatos, o debate é complexo por se tratar de um fenômeno ambivalente. Por um lado, os conteúdos ampliam o interesse sobre o tema e podem levar pessoas a buscarem ajuda especializada; por outro, trazem discursos superficiais e que induzem ao autodiagnóstico, que pode ser perigoso.
Gustavo Picallo, psiquiatra da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), alerta que muitos desses conteúdos desinformam ao induzir os usuários a pensarem seus problemas por meio de um diagnóstico.
“Existem muitos vídeos com premissas falsas que tentam inferir sintomas e diagnósticos, e isso repercute em como as pessoas têm enfrentado os seus problemas de vida e nos acessos a serviços e benefícios para pessoas autistas”, explica.

Jéssica Parrilha, psicóloga clínica e professora da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), destaca que o movimento também contribui para um discurso de medicalização ao dizer que uma pessoa desatenta tem TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) ou chamar alguém tímido ou com interesses específicos de autista.
O coordenador do Laboratório Distúrbios de Desenvolvimento da USP (Universidade de São Paulo), Francisco Baptista, ressalta que o autodiagnóstico representa um risco geral, não só para o paciente. Ele também critica a superficialidade com que boa parte dos vídeos tratam o autismo.
“Se eu me interesso por discos antigos, isso é um interesse específico, não autismo. Mas essas questões é que acho que vão chamar a atenção nos vídeos, porque são inscrições tolas, superficiais, rasas, e isso tem consequências muito sérias”.
Impactos sociais e econômicos
Os especialistas consultados pelo Aos Fatos também alertam para um outro risco: a transformação do autismo em um produto. O aumento da procura por diagnósticos têm impulsionado indústrias adjacentes, que oferecem serviços e tratamentos de forma apressada, muitas vezes sem benefícios reais ou cientificamente comprovados.
O cenário abre brechas para profissionais com menos ética se aproveitarem da alta demanda por diagnósticos como uma oportunidade de mercado. E isso não está restrito à área da saúde: há também impactos em áreas como o marketing, a indústria farmacêutica e o campo legal.
“Não é incomum que os pacientes digam ‘olha, um advogado me disse que com um laudo desse diagnóstico eu consigo me aposentar ou ter um acesso a tal benefício’. É um lugar muito difícil, porque às vezes você está frustrando a expectativa ao dizer que os benefícios são destinados para outras pessoas”, afirma Gustavo Picallo.
A monetização dos vídeos em plataformas como o TikTok também incentiva a produção de conteúdos cada vez mais chamativos para gerar engajamento e, consequentemente, lucro.
Um estudo da Universidade de Drexel observou que dos 133 vídeos mais populares da plataforma utilizando a hashtag #autism, apenas 27% continham informações precisas sobre o transtorno.
“Com a monetização dos conteúdos, existe uma grande disputa de influência e de visualizações nas redes sociais. Se a intenção é espalhar o máximo possível, a pessoa pode criar certas polêmicas sabendo que isso será controverso para gerar mais visualizações, mais debates e de alguma maneira se beneficiar”, afirma o psiquiatra.
O especialista destaca que o diagnóstico vai além do consultório médico — ele possui implicações sociais e econômicas. Em geral, profissionais da saúde são convocados para validar ou restringir o acesso a políticas públicas, benefícios, medicações e espaços de tratamento.
Aumento na busca e critérios de diagnóstico
Os especialistas consultados pelo Aos Fatos afirmaram ter percebido um aumento significativo no número de pessoas que chegam ao consultório com um autodiagnóstico baseado em conteúdos de redes sociais:
“É cada vez mais comum que a primeira questão levantada seja esse autodiagnóstico de autismo ou TDAH. Antes mesmo de dizer o que tem apresentado, a experiência pessoal, os prejuízos sociais, vem um ‘vi um vídeo sobre tal diagnóstico e me identifiquei’. Isso é uma frase que eu ouço praticamente toda semana”, afirma Picallo.
A psicóloga Jéssica Parrilha aponta a pandemia de Covid-19 como um fator que impulsionou esse fenômeno. O uso intenso das redes durante o período e o aumento global do sofrimento psíquico fizeram com que mais pessoas buscassem informações sobre transtornos mentais e neurodivergências.

Diferente de outras áreas da medicina, que identificam doenças por meio de exames laboratoriais ou de imagem, o diagnóstico do autismo é clínico — ou seja, feito a partir da análise das falas e comportamentos dos pacientes, bem como por entrevistas com familiares e pessoas próximas.
Também é possível se valer de outros recursos, como avaliações fonoaudiológicas, psicológicas ou funcionais, bem como testes realizados por neuropsicólogos.
Entre os critérios universais para se definir um diagnóstico estão a temporalidade — quando e como os sinais apareceram, se são crônicos ou transitórios — e o impacto na vida da pessoa — ou seja, o grau de prejuízo funcional causado pelos sintomas.
Por isso, ressalta Francisco Baptista, o caminho para o diagnóstico é complexo e não pode ser reduzido a uma mera somatória de sintomas, como muitos dos vídeos virais fazem. “É preciso juntar sintomas, prejuízo adaptativo, ver quem é esse indivíduo e a partir daí raciocinar para realizar um diagnóstico”, afirma
Como diferenciar
Em meio à enxurrada de conteúdos sobre autismo nas redes, especialistas apontam alguns critérios essenciais para diferenciar conteúdos informativos de materiais potencialmente prejudiciais.
Um dos primeiros pontos a se observar é o objetivo do vídeo. É importante questionar se o criador do conteúdo está apenas compartilhando conhecimento ou se está tentando gerar uma demanda que tenta suprir por meio da venda de cursos ou supostos tratamentos.

Outro sinal de alerta são publicações que reduzem o diagnóstico a listas de comportamentos e sintomas. Picallo afirma que frases como “Se você faz isso, pode ter autismo ou TDAH” são marcas importantes disso, já que apontam uma tentativa de reduzir e simplificar a condição.
Por outro lado, há conteúdos que podem ser interessantes. Materiais que apresentam estudos científicos recentes, análises teóricas e relatos pessoais bem contextualizados, que deixam claro que são apenas uma entre muitas experiências possíveis, são alguns exemplos.
O caminho da apuração
Aos Fatos reuniu diversos vídeos relacionados a testes de autodiagnósticos no TikTok para dimensionar o alcance do tema. Em seguida, entrevistamos especialistas em psicologia, neuropsicologia e psiquiatria. Também utilizamos notícias para contextualizar a matéria.




