Vídeos que mostram religiosos enfrentando agentes de imigração nos EUA são gerados por IA

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Foram gerados por inteligência artificial os vídeos que mostram religiosos enfrentando agentes de imigração nos Estados Unidos para defender fiéis dentro de suas igrejas. As publicações foram feitas por um perfil especializado em conteúdo manipulado. Além disso, Aos Fatos analisou as imagens e encontrou distorções que apontam que as cenas não são reais.

Publicações com os conteúdos falsos acumulavam ao menos 25 mil visualizações no Instagram, milhares de visualizações no TikTok e dezenas de compartilhamentos no Facebook até a tarde desta terça-feira (13).

Cardeal católico corajoso enfrenta o ICE para defender seus fiéis dentro da igreja.

Imagem mostra vídeo em ambiente externo, diante da fachada clara de uma catedral com arcos altos e detalhes góticos. No centro, aparece um homem idoso de pele clara, calvo, usando solidéu vermelho e veste religiosa escura, visto de perfil, cercado por pessoas com roupas pretas e rostos desfocados nas laterais, sugerindo agentes ou seguranças. Na parte inferior, sobre uma faixa preta, há um texto em letras brancas que diz: ‘Cardeal católico corajoso enfrenta o ICE para defender seus fiéis dentro de sua catedral’.

Publicações nas redes têm compartilhado como se fossem reais dois vídeos gerados por IA que mostram supostos cardeais enfrentando agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega, em português) nos Estados Unidos para impedir a detenção de fiéis que estariam em suas igrejas.

Aos Fatos encontrou as gravações originais e constatou que elas foram publicadas por um perfil no Instagram especializado na produção de conteúdos manipulados por inteligência artificial.

O primeiro vídeo, que mostra o suposto cardeal discutindo com agentes de imigração, apresenta diversas inconsistências que apontam para manipulação digital. Entre eles, estão os movimentos pouco naturais e excessivamente rápidos das mãos do religioso e a presença de veículos ao fundo que desaparecem da cena sem que tenham entrado no enquadramento.

Imagem composta por dois quadros verticais colocados lado a lado, com bordas arredondadas. Em ambos os quadros aparece a mesma cena registrada de ângulos muito semelhantes. No centro da imagem há três homens usando roupas pretas, coletes à prova de balas e gorros, com a palavra “ICE” escrita em letras grandes e brancas nas costas dos coletes. Dois deles estão de costas para a câmera e um está de perfil. À frente deles está um homem mais velho, usando vestes religiosas escuras e um solidéu rosa na cabeça, com óculos e uma expressão de fala, voltado para os agentes. O fundo mostra uma construção grande de estilo gótico, com arcos altos e detalhes arquitetônicos ornamentados, além de grades metálicas e estruturas temporárias na área externa. Em cada um dos quadros há um círculo laranja destacando a região das mãos do religioso. Abaixo das duas imagens há um fundo branco com dois tópicos em texto preto, em formato de lista, escritos em português. No canto inferior direito aparece um pequeno logotipo preto com as letras “af.”.

Meu Deus não é “laranja”, meu Deus é amor!

Imagem mostra uma cena externa em frente à entrada de um prédio, com homem idoso de pele clara, cabelo curto grisalho, usando óculos e veste longa branca com faixa vertical dourada, inclinado para a frente e estendendo o braço direito em direção a pessoas que estão à direita do enquadramento; ao redor, há outras pessoas parcialmente visíveis, incluindo indivíduos com roupas escuras. A fachada tem colunas e uma porta escura aberta, e na parte inferior da imagem aparece um texto sobreposto parcialmente visível que diz ‘Meu Deus não é laranja, meu Deus é amor’.

Já o outro vídeo que simula uma briga entre um cardeal e agentes do ICE apresenta os seguintes indícios de manipulação:

  • O traje do suposto cardeal não corresponde às vestimentas usadas por membros do alto clero (cardeais não utilizam roupas inteiramente brancas com detalhes dourados);
  • O objeto que o religioso segura é pequeno demais para ser uma Bíblia e não apresenta qualquer identificação religiosa;
  • Uma pessoa ao fundo aparece sem traços faciais definidos;
  • Apesar de o áudio indicar reações exaltadas do público, as pessoas quase não se movem nem articulam os lábios de forma compatível.
Imagem composta por dois quadros verticais colocados lado a lado, com cantos arredondados. Nos dois quadros aparece um homem mais velho vestindo uma túnica branca longa, com uma faixa vertical clara com detalhes dourados pendendo do pescoço até a altura das pernas. Ele está em frente à entrada de um edifício com grandes colunas de pedra clara e uma porta aberta ao fundo. No quadro da esquerda, o homem segura um objeto escuro com a mão direita, estendendo o braço em direção a um agente que usa roupa preta, gorro e colete com a palavra “ICE” em letras brancas nas costas; o agente está de perfil e caminha para a direita. No quadro da direita, o mesmo homem aparece com o braço estendido mais à frente, ainda segurando o objeto escuro, enquanto várias pessoas estão reunidas ao fundo, algumas usando casacos, gorros e máscaras, e algumas segurando celulares. Em ambos os quadros há números brancos em círculos pretos posicionados sobre diferentes partes da imagem, numerados de 1 a 4. Abaixo das imagens há um bloco de texto em português, em fundo branco, organizado em quatro itens numerados, escritos em preto. No canto inferior direito da imagem aparece um pequeno logotipo preto com as letras “af.”.

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Somente nesta segunda-feira (12), o perfil publicou outros 32 vídeos gerados por IA com a mesma proposta: agentes do ICE realizando apreensões violentas de pessoas em locais públicos.

 Imagem mostra montagem em formato de grade com vários quadros, em que aparecem agentes do ICE em coletes e uniformes escuros, em diferentes ambientes como saguões e corredores internos, ruas e áreas comerciais. Em alguns quadros, há civis sendo abordados, escoltados ou conversando com os agentes. Em um quadro, uma mulher usa lenço na cabeça e sobretudo claro; em outros, há cenas noturnas com veículos e pessoas ao redor. Também há quadros em mercados e restaurantes, com mulheres manuseando frutas e pratos, e cenas de policiamento com equipamentos táticos.
Imagem mostra 18 dos 32 vídeos mais recentes publicados pelo perfil — todos produzidos com inteligência artificial e simulando ações do ICE (Reprodução/Instagram)

De acordo com as informações disponíveis nas redes do responsável pela conta, ele comercializa cursos que prometem ensinar como ganhar dinheiro com vídeos feitos por geradores de IA, como o Sora 2 e o Veo.

O caminho da auração

Aos Fatos realizou uma busca reversa de imagens e localizou as gravações originais, constatando que elas foram produzidas por um perfil especializado em conteúdos gerados por IA.

Em seguida, a reportagem analisou os vídeos em busca de padrões recorrentes em conteúdos sintéticos, como inconsistências de movimento, textura e iluminação.

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