Vídeos que promovem 'tratamento precoce' para Covid-19 ampliam audiência e seguem no YouTube, apesar de nova política da plataforma

Por Bernardo Barbosa, Débora Ely e João Barbosa

28 de abril de 2021, 18h03

Em dois meses, 60 vídeos em que médicos defendem o tratamento da Covid-19 com o uso de remédios sem eficácia comprovada contra a doença acumularam ao menos 2,8 milhões de visualizações no YouTube. Apesar de a plataforma ter anunciado no último dia 16 que removeria conteúdos que difundissem o uso de ivermectina ou hidroxicloroquina para tratar ou prevenir a infecção, apenas um dos vídeos analisados pelo Radar Aos Fatos tinha sido retirado do ar até o momento da publicação desta reportagem.

Em 26 de fevereiro, o Radar publicou reportagem sobre 82 vídeos em que médicos disseminavam desinformação sobre a Covid-19. Em 60 deles, os profissionais recomendavam o uso de ivermectina ou hidroxicloroquina no tratamento da doença. Na manhã desta quarta-feira (28), um estava fora do ar e, em seu link, havia o aviso de que ele foi removido por “violar as diretrizes da comunidade do YouTube”, mas sem citar qual delas.

Procurado pelo Aos Fatos, o YouTube disse por e-mail que a mudança de política só entrou em vigor em abril de 2021 porque “assuntos complexos, como a Covid-19”, exigem a consulta a especialistas externos, “considerando as diferenças regionais para garantir que a alteração proposta seja aplicada de forma justa em todo o mundo”.

Após a publicação desta reportagem, o YouTube enviou novo e-mail na noite de quarta informando que dois dos vídeos citados no gráfico acima foram removidos da plataforma por violarem as "políticas de desinformação médica sobre a COVID-19".

SEM COMPROVAÇÃO

O YouTube afirma que a mudança na política ocorreu para “para refletir as últimas orientações das autoridades de saúde globais”. O Radar questionou a plataforma para saber a quais orientações ela se refere, mas ainda não obteve resposta.

De fato, à medida que novas pesquisas científicas são publicadas, as orientações de autoridades de saúde costumam ser atualizadas. Mas quando o Aos Fatos publicou a reportagem de 26 de fevereiro, já existiam estudos sólidos que apontavam a ineficácia da hidroxicloroquina e da ivermectina na prevenção e no tratamento da Covid-19.

Ainda em dezembro do ano passado, o Aos Fatos noticiou que entidades como a OMS (Organização Mundial da Saúde), a FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora de medicamentos e alimentos dos EUA) e o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, órgão de saúde dos EUA) já não recomendavam naquele momento nenhum medicamento para prevenir a Covid-19.

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A recomendação mais recente da OMS, de março, é para que a hidroxicloroquina não seja usada contra o coronavírus, e que a ivermectina seja utilizada apenas em testes clínicos (leia aqui o documento com as orientações, em inglês).

No Brasil, a SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) já havia publicado dois informativos, em dezembro e janeiro, dizendo que não havia comprovação científica de eficácia do uso desses medicamentos contra o coronavírus. Em março, a SBI divulgou uma seleção de perguntas e respostas sobre o coronavírus na qual reiterou que “não há um tratamento antiviral específico e totalmente eficaz para Covid-19, tampouco terapia precoce que previna o desenvolvimento da doença”.

POLÍTICA DE REMOÇÃO

O YouTube informou que os vídeos citados pela reportagem estão sendo revisados e serão removidos caso violem as políticas da plataforma. A empresa fez a ressalva de que há exceções em caso de conteúdo com contexto claramente “educacional, documental, científico ou artístico”.

“Por exemplo, conteúdo que afirme que a Covid-19 não existe será permitido apenas se o áudio ou as imagens contidas nele também refutarem diretamente essas alegações ou derem maior peso ao consenso das autoridades médicas e sanitárias de que as afirmações não são verdadeiras”, diz um post do blog do YouTube sobre este tipo de exceção.

O YouTube também explicou que, quando muda uma regra, oferece aos criadores de conteúdo um “período de adaptação”. Segundo a empresa, a adoção de um tempo de carência é uma medida comum quando há mudanças na política da plataforma e que, mesmo quando isso ocorre, conteúdos que violem as regras são retirados do ar.

“Isso significa que vídeos postados antes da mudança ou até um mês depois da atualização são removidos do YouTube, mas não geram um Aviso (strike) como penalidade. Depois desse período de carência, os criadores que postarem novos vídeos em desacordo com a diretriz passam a receber sanções”, disse a gerente de políticas públicas do YouTube no Brasil, Alana Rizzo, no blog da plataforma.

As regras do YouTube preveem o uso de um sistema gradativo de alertas e punições em caso de violação de suas políticas. Um canal é retirado do ar de forma permanente se receber três avisos de violação de políticas em um intervalo de 90 dias. Segundo notícias da imprensa americana, períodos de carência já foram utilizados quando houve mudança de política sobre desinformação relativa às eleições de 2020 nos EUA (aqui e aqui, em inglês).

BOLSONARO

Não são apenas médicos que se valem do YouTube para divulgar o uso de remédios sem eficácia contra a Covid-19. O presidente Jair Bolsonaro continua usando a plataforma para fazer propaganda da hidroxicloroquina, como fez na sua mais recente live, no dia 22 de abril. Com mais de 230 mil visualizações no YouTube, o vídeo continuava no ar nesta quarta-feira.

"Por que nesse caso [Covid-19] não se pode falar de remédio, meu Deus do céu? (...) Tem alguma coisa aí, eu não vou falar para não cair a live, eu tomei um negócio ano passado, se eu tiver problema de novo, eu vou tomar a mesma coisa, a mesma coisa. Não faz mal. E aquilo que eu tomei serve para malária, para lúpus e para artrite, se não me engano. Inclusive, dado o consumo disso no ano passado, tivemos que recompor o estoque regulador, o Exército fabricou um pouco mais disso aí. (...) E o pessoal consumiu muito isso, como consumiu outro negócio também que não pode falar o nome aqui, né. E para muita gente deu certo. Para mim, deu certo", disse Bolsonaro na live.

No dia 20, o G1 noticiou que o YouTube tirou do ar, depois de procurado pelo veículo de imprensa, a gravação de outra live de Bolsonaro que teria violado a nova política da plataforma. No entanto, naquele dia continuavam disponíveis vídeos de ao menos outras três transmissões nas quais o presidente falava sobre tratamentos sem eficácia comprovada para Covid-19. Na ocasião, o YouTube declarou que “diversos vídeos” estavam sendo revisados e ainda poderiam ser removidos.

A reportagem do Radar verificou que os três vídeos de Bolsonaro citados pelo G1 continuavam no ar na tarde de sexta-feira (23). À noite, o G1 noticiou que dois deles tinham sido tirados do ar, além de outras duas lives. A transmissão de 15 de abril deste ano, com quase 500 mil visualizações, continuava disponível nesta quarta-feira.

OUTRO LADO

O Radar entrou em contato com os responsáveis pelos canais dos vídeos que tiveram mais visualizações e aparecem no gráfico acima, e apenas dois responderam. O médico Renato Cassol, do canal Renato Cassol - Médico Infectologista, disse que, se o Aos Fatos “considera os medicamentos ineficazes no tratamento”, não tem nada a acrescentar, “pois o juízo já está feito”.

Já o chefe de redação da Gazeta do Povo, Ewandro Schenkel, encaminhou um recente editorial do jornal paranaense. Em um trecho, o texto afirma que “não nos cabe, aqui, afirmar se o ‘tratamento precoce’ funciona ou não (...). Há estudos apontando para todas as direções, e cujos resultados estão sob constante escrutínio da comunidade científica e da imprensa especializada”.

Em fevereiro, o Radar entrou em contato também com os médicos que aparecem nos vídeos. As suas manifestações podem ser lidas na reportagem.

Referências:

1. G1 (1, 2, 3)
2. Google (1, 2)
3. Aos Fatos (1, 2)
4. OMS (1, 2)
5. SBI (1, 2, 3)
6. YouTube (1, 2, 3)
7. The Verge
8. TechCrunch
9. Gazeta do Povo


Esta reportagem foi atualizada às 11h20 de 29 de abril de 2021 para incluir a informação de que o YouTube removeu dois vídeos por violação de sua política de desinformação médica sobre Covid-19.

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Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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