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Vídeos da contagem de votos não provam que eleição nos EUA foi fraudada

Por Luiz Fernando Menezes

6 de novembro de 2020, 15h19

É falso que dois vídeos de momentos distintos da contagem de votos nos EUA provariam que as eleições no país foram fraudadas, como publicações sustentam nas redes sociais (veja aqui). Um dos registros, em que um mesário faz anotações em uma cédula, exibe um procedimento rotineiro da apuração. No outro, um homem manipula papéis, chegando a amassar alguns, mas não há indícios de que seriam votos nem a imagem evidencia isso.

Os dois vídeos foram reunidos em uma publicação do canal de YouTube Brasil Acima de Tudo do dia 5 de novembro. Só no Facebook, reproduções do vídeo já acumulavam mais de 35 mil compartilhamentos até a tarde desta sexta-feira (6). Todas as postagens foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de monitoramento da rede social (saiba como funciona).


FALSO

Dois vídeos que o canal de YouTube Brasil Acima de Tudo reproduziu com alarde não provam que as eleições nos EUA foram fraudadas, como sustenta a voz da narradora da gravação.

No primeiro vídeo, um homem faz anotações em cédulas de votação. A Comissão Eleitoral de Maryland, responsável pelo local onde foram gravadas as imagens, explicou que o processo é completamente legal e é chamado de “prospeção”. Nessa ação, os funcionários revisam os votos para garantir que a escolha do eleitor seja computada pelo scanner. Caso o preenchimento não tenha sido feito do modo correto — sem uma caneta escura ou sem ocupar todo o círculo, por exemplo —, o funcionário deve completar o voto.

“Isso tem sido uma parte regular do processo de votação por muitos anos e é necessário para que a cédula do eleitor seja digitalizada e, assim, contabilizada. O Conselho de Prospectores tem a obrigação de garantir que cada cédula reflita a intenção do eleitor e que todos os votos sejam contados”, afirmou a Comissão Eleitoral.

Além disso, é incorreta a informação da narradora do vídeo de que só o homem mais próximo da câmera estaria com uma caneta. No trecho destacado pela peça de desinformação, é possível ver que outro, mais ao fundo, também faz uso do objeto (veja abaixo).

Descarte de votos. O segundo vídeo da peça de desinformação mostra um homem gesticulando enquanto separa o que parecem ser cédulas de votação. Em um momento do vídeo, ele também amassa um papel e o coloca em outra pilha. De acordo com a autora da postagem, o voto supostamente descartado seria para Donald Trump.

As imagens são reais e foram veiculadas em uma transmissão ao vivo no site USA Today no dia 4 de novembro. O homem de fato aparece separando os documentos em pilhas diferentes e amassando alguns papéis, o que fez o vídeo ser compartilhado nas redes sociais como se fosse um registro de irregularidades. Essa narrativa, inclusive, foi disseminada por Donald Trump Jr. e Eric Trump, filhos do presidente americano.

A gravação, no entanto, não traz elementos suficientes que permitam concluir o que ocorria, conforme afirmou a verificação do site americano de checagem Snopes. Pelas imagens disponíveis, não é possível afirmar que o homem estava descartando votos, muito menos que esses votos seriam para Trump, pois o conteúdo é ilegível no vídeo. A afirmação de que o funcionário estaria alterado em razão de seus posicionamentos políticos também não se sustenta, já que não é possível ver sua expressão exata ou entender o que ele diz.


Outro lado. O vídeo que junta as duas gravações foi publicado originalmente pelo canal Brasil Acima de Tudo, que já disseminou desinformações sobre as eleições brasileiras neste ano. É de sua autoria, por exemplo, a peça checada pelo Aos Fatos que dizia que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) teria permitido o voto pelo celular nos próximos dois pleitos.

Aos Fatos entrou em contato com a Agência Fato News, indicada como responsável pelo canal, para apresentar a checagem e abrir espaço para eventuais comentários. Até a publicação deste texto, no entanto, não houve retorno.

Desinformação. Desde o início da contagem dos votos nos EUA, na noite da terça-feira (3), publicações falsas e distorcidas que sugerem a existência de fraudes eleitorais passaram a circular nas redes sociais brasileiras. Só nesta sexta-feira (6) Aos Fatos já desmentiu publicações que diziam que uma denúncia recente apontou irregularidades nos registros eleitorais de Detroit e que um vídeo mostrava mesários inserindo votos falsos nas urnas.

O Estadão Verifica produziu uma checagem semelhante sobre a peça de desinformação.

Referências:

1. Comissão Eleitoral de Maryland
2. USA Today
3. Newsweek
4. Snopes
5. Aos Fatos (Fontes 1, 2 e 3)

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