Foi gerado por inteligência artificial o vídeo que mostra uma professora discursando em meio a um protesto contra o reajuste de 0,37% no piso salarial da categoria. Aos Fatos analisou as imagens e encontrou indícios de que as cenas não são reais, como deformidades nos cartazes e distorções nas figuras que estão fora da área focal da gravação.
Publicações com o conteúdo manipulado acumularam cerca de 190 mil interações no Instagram e 600 mil visualizações no TikTok até a tarde desta quinta-feira (15).
Professora arrependida de ter votado no Lula ‘Com Bolsonaro era melhor’.

Publicações nas redes têm compartilhado como se fossem reais cenas geradas por IA que mostram uma professora protestando contra o reajuste do piso salarial da categoria estimado para este ano, apontado como inferior a 1%.
Apesar de Aos Fatos não ter localizado a publicação original, há diversos elementos que atestam que o vídeo foi manipulado digitalmente:
- Os cartazes contêm erros de grafia; “Bolsonaro”, por exemplo, está descrito como “lsonaro”, uma falha recorrente em conteúdos gerados por IA;
- Há também discrepâncias visíveis entre a nitidez da área focal (rosto da professora em primeiro plano) e o cenário ao fundo, recurso comumente usado para ocultar imperfeições digitais;
- Os rostos da multidão ao fundo não se mexem na maior parte do tempo. Algumas pessoas também permanecem o vídeo todo imóveis;
- Algumas figuras ao fundo aparecem sem rosto.

É fato, porém, que o reajuste do piso salarial dos professores em 2025 foi de 0,37%, o equivalente a R$ 18, o que deixou a categoria insatisfeita. De acordo com o governo federal, o percentual segue os critérios estabelecidos pela Lei do Magistério, em vigor desde 2008.
A norma determina que o piso seja reajustado com base no mesmo percentual de crescimento do valor mínimo investido por aluno no Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), principal mecanismo de financiamento do ensino público no País.
Na prática, isso significa que o reajuste acompanha a variação do valor mínimo investido por estudante de um ano para o outro.
Com base nesse cálculo, o piso nacional passaria neste ano de R$ 4.867,77 para R$ 4.885,78, um dos menores aumentos já registrados e inferior à inflação acumulada no período.
Também é verdadeira a comparação feita no vídeo entre o reajuste deste ano e o de 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), quando o piso salarial dos professores foi corrigido em 33,24%.
O aumento ocorreu após dois anos sem reajuste, devido aos efeitos da pandemia de Covid-19. Em 2021, não houve alteração dos valores, porque o custo aluno do Fundeb foi negativo. Em 2022, o aumento foi definido após um estudo técnico realizado pelo Ministério da Educação.
À época, a decisão gerou reação de prefeitos e governadores, responsáveis pelo pagamento dos salários na educação básica, que alegaram impacto significativo nas contas públicas. Eles pressionaram o governo para alterar a legislação e o modelo de cálculo do reajuste, como forma de reduzir os efeitos financeiros para estados e municípios.
Reajuste. Frente à repercussão negativa, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou em vídeo publicado nas redes na semana passada que o governo pretende editar uma medida provisória para assegurar um reajuste superior aos 0,37% inicialmente previstos.
Santana disse ter participado de uma reunião com o presidente Lula (PT), o ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT). Ainda não há definição sobre o novo percentual, mas o chefe do MEC informou que Lula deverá anunciar mudanças no cálculo e que as novas regras podem ser divulgadas nesta semana.
Esta peça de desinformação também foi checada pelo Estadão Verifica.
O caminho da apuração
Aos Fatos tentou localizar o registro original do vídeo atribuído à professora, mas não encontrou versões confiáveis que confirmassem sua autenticidade.
Em seguida, foram analisados os elementos visuais da gravação e identificadas falhas recorrentes em conteúdos gerados por inteligência artificial, como erros ortográficos em cartazes e discrepâncias fora da área focal.
Para contextualizar, a reportagem verificou os dados oficiais sobre o reajuste do piso salarial do magistério, com base na Lei do Magistério e nos critérios de cálculo vinculados ao Fundeb. Por fim, consultamos declarações públicas de membros do governo sobre o tema.




