Vídeo dissemina mentiras sobre atuação de Barroso no TSE para alegar fraude em 2022

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Não é verdade que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso ordenou a compra de microchips que continham votos em Lula ou descartou urnas para ocultar evidências de fraude em 2022. Também não há evidências de que o magistrado tenha pago propina a deputados para derrubar a PEC do Voto Impresso na Câmara. O vídeo que faz essas acusações distorce fatos sobre o último pleito presidencial.

Publicações com o conteúdo enganoso acumulavam 6.000 compartilhamentos no Facebook e centenas de curtidas no Instagram até a tarde desta segunda-feira (11).

Inacreditável. Estas ações foram ralizadas por um ministro do STF!

Print de um vídeo publicado nas redes que mostra, ao centro, uma mulher branca desconhecida, de cabelos grisalhos, usando uma roupa cinza. Ao fundo, aparecem os olhos do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal — um homem branco de cabelos grisalhos. Abaixo, está uma imagem que mostra o rosto do ministro. Acima da imagem, está escrita a frase: ‘Inacreditável. Estas ações foram realizadas por um ministro do STF!’.

Um vídeo que circula nas redes dissemina mentiras para alegar que, durante o tempo em que presidiu o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), entre 2020 e 2022, o ministro Luís Roberto Barroso teria tomado uma série de decisões para permitir que houvesse fraude eleitoral e garantir a derrota de Jair Bolsonaro (PL). As peças de desinformação se baseiam em três argumentos enganosos:

  • O de que Barroso teria pago R$ 9 milhões a líderes partidários em 2021 para derrubar a PEC do Voto Impresso na Câmara, alegação feita sem apresentar provas ou qualquer indício;
  • O de que o ministro teria ordenado a compra de microchips produzidos em Taiwan que continham milhões de votos para Lula — na verdade, foram adquiridos semicondutores, equipamentos que controlam a corrente elétrica e não são capazes de armazenar dados;
  • E, por fim, o fato de que o magistrado teria decidido destruir 200 mil urnas para apagar indícios de fraude — na realidade, o descarte de urnas antigas acontece desde 2010.

Compra de votos. O autor do vídeo não apresenta nenhuma prova de que Barroso teria feito pagamentos de até R$ 9 milhões a líderes e vice-líderes partidários para que trocassem deputados favoráveis ao voto impresso por parlamentares contrários à pauta durante a análise da PEC (Proposta de Emenda à Constituição), em 2021.

Na época, a decisão de substituir os parlamentares que participavam da comissão partiu da direção dos partidos. Entre as siglas que se colocaram contra o modelo estavam o PSL, partido pelo qual Bolsonaro disputou a eleição em 2018, e o PL, atual sigla do ex-presidente.

No início daquele mês, Barroso participou de um debate da comissão geral da Câmara dos Deputados sobre propostas de PEC que tratavam de temas eleitorais. Na ocasião, o magistrado defendeu o modelo eletrônico do voto e afirmou que o voto impresso era uma “solução desnecessária para um problema que não existe”.

Apesar de ter dialogado com líderes e dirigentes partidários, não há provas de que o ministro tenha promovido pagamentos pela rejeição da matéria.

Imagem mostra cinco urnas eletrônicas.
Modelo mais recente de urna eletrônica usada nas eleições brasileiras (Foto: Antonio Augusto/Secom/TSE)

Microchips. O vídeo enganoso também alega que o ministro teria adquirido, com ajuda do “deep state americano”, microchips produzidos em Taiwan que teriam sido manipulados para incluir “milhões de votos” para Lula nas eleições de 2022.

A alegação falsa distorce o contexto de escassez mundial de semicondutores entre 2021 e 2022 devido à pandemia de Covid-19. Usadas para controlar a corrente de eletricidade em equipamentos eletrônicos, as peças não são capazes de armazenar dados, diferentemente do que apontam as peças de desinformação.

Para evitar que a produção das urnas eletrônicas fosse interrompida pela escassez dos semicondutores, a diplomacia brasileira agiu para importar peças de Taiwan e dos Estados Unidos. O ministro Barroso agradeceu, na época, os diplomatas envolvidos na negociação.

Como o TSE (veja aqui e aqui) e o Aos Fatos já explicaram, os testes de integridade das urnas eletrônicas são feitos de forma pública e com a presença de auditores externos. O processo permite analisar se houve votos inseridos nos equipamentos antes de iniciar a votação com a impressão da zerésima e do BU (boletim da urna). Os testes não indicaram nenhum tipo de fraude em 2022.

Toda a produção das urnas eletrônicas no Brasil é feita pela empresa Positivo Tecnologia, em Ilhéus (BA).

A mentira sobre os semicondutores teve origem na distorção de uma fala do ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, Mike Benz, em audiência pública na Câmara na última quarta-feira (6). Na ocasião, Benz afirmou que semicondutores de Taiwan teriam sido inseridos nas urnas a pedido de Barroso.

Imagem mostra Mike Benz — homem de pele clara, cabeça raspada e barba cheia, vestindo terno azul com gravata vermelha. Ele usa fones de ouvido e fala diante de um microfone. Ao fundo, há uma estante de livros, um sofá marrom e uma lareira com estátuas decorativas sobre a prateleira. No canto inferior esquerdo, aparece o nome ‘Mike Benz’.
Em audiência na Câmara no último dia 6, Mike Benz disseminou uma série de desinformações sobre as eleições brasileiras (Reprodução/Câmara dos Deputados)

Descarte de urnas. A terceira alegação mente ao afirmar que o TSE decidiu destruir quase 200 mil urnas eletrônicas para esconder indícios de fraude nas eleições de 2022.

Como já explicado pelo Aos Fatos, o processo de descarte dos equipamentos acontece ao menos desde 2010 e serve para substituir urnas que já atingiram sua vida útil, que dura em média dez anos ou seis eleições.

Peças enganosas que questionam o processo eleitoral voltaram a circular nas redes após uma audiência pública convocada pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara receber, na última quarta-feira (6), o ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, Mike Benz.

Ao longo da sessão, Benz e parlamentares brasileiros repetiram uma série de mentiras sobre a atuação da Usaid (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, em português) e sobre a suposta interferência do governo de Joe Biden nas eleições brasileiras de 2022.

Aos Fatos entrou em contato com o TSE por email, mas não recebeu retorno até a publicação desta checagem.

O caminho da apuração

A reportagem consultou notas oficiais e materiais já publicados pelo TSE, além de reportagens anteriores do Aos Fatos, para checar informações sobre o funcionamento das urnas eletrônicas, o processo de descarte de equipamentos e as negociações para compra de semicondutores. Também foram conferidos registros públicos da Câmara dos Deputados para contextualizar a participação do ministro Luís Roberto Barroso em debates sobre o voto impresso.

A equipe também procurou o TSE por email para obter posicionamento sobre as alegações, mas não recebeu resposta até a publicação.

Referências

  1. Uol (1 e 2)
  2. TSE (1, 2, 3, 4 e 5)
  3. Metrópoles
  4. Aos Fatos (1, 2, 3 e 4)
  5. Conjur
  6. Interesse Nacional
  7. CNJ
  8. Câmara dos Deputados

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