Vídeo em que Lula se pronuncia sobre morte do cão Orelha é gerado por IA

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Não é verdade que o presidente Lula (PT) se pronunciou sobre a morte de Orelha, cão comunitário que vivia em Florianópolis (SC). O vídeo compartilhado pelas peças de desinformação em que o petista diz que o caso não ficará impune foi gerado por IA e publicado originalmente por um perfil que compartilha conteúdos sintéticos.

As peças enganosas acumulavam 884 mil visualizações no TikTok e 3.000 compartilhamentos no Facebook até a tarde desta terça-feira (3).

Caso do cachorro Orelha. Lula ficou bravo: eles vão pagar!

Montagem dividida em duas partes. Na parte superior, aparece o presidente Lula — homem de pele clara, cabelo curto grisalho e barba branca — vestindo terno escuro, camisa clara e gravata, segurando um microfone e falando diante de um fundo azul. Sobre essa parte da imagem há um texto que diz: ‘Caso do cachorro Orelha. Lula ficou bravo: eles vão PAGAR!’. Na parte inferior, é exibido o close de um cachorro de pelagem escura.

Posts nas redes têm compartilhado como se fosse autêntico um vídeo gerado por IA em que Lula afirma que aplicará uma punição severa contra os responsáveis pela morte do cão Orelha. Por meio de busca reversa, Aos Fatos verificou que a gravação foi publicada originalmente por um perfil no TikTok que posta conteúdos sintéticos de forma recorrente.

Além disso, a reportagem analisou as imagens e encontrou inconsistências que atestam que a gravação não é real:

  • Em determinado trecho do vídeo (entre 14’’ e 16’’), a boca do presidente aparece distorcida;
  • A mão de Lula parece se fundir à sua boca em alguns dos momentos nos quais o presidente gesticula;
  • A pessoa que aparece ao fundo da gravação no momento em que a câmera se afasta de Lula também tem a boca distorcida;
  • No trecho final do vídeo, o presidente pede que os usuários curtam e comentem no post, situação incoerente com um discurso oficial.
homem idoso, de pele clara, cabelo curto grisalho e barba grisalha — falando ao microfone em um ambiente com fundo azul, usando terno escuro, camisa clara e gravata; em cada quadro, há um círculo laranja destacando a região da boca e do rosto, e, na parte inferior, aparece a imagem de um cachorro com um texto em faixa vermelha parcialmente visível que menciona ‘caso do cachorro’ e ‘Lula’. Abaixo dos quadros, há três tópicos em texto preto que apontam supostas inconsistências no vídeo, mencionando distorção na boca entre os segundos 14 e 16, a mão do presidente aparentando se fundir à boca durante gestos e um pedido para curtir e comentar no final do vídeo, descrito como incoerente com um discurso oficial, além da marca ‘af.’ no canto inferior direito.
Comparativo mostra os indícios de que o vídeo foi gerado por IA

O conteúdo falso usou como base o discurso de Lula na cerimônia de 90 anos de criação do salário mínimo, que aconteceu em 16 de janeiro.

Por meio da ferramenta Escriba, Aos Fatos transcreveu a gravação do evento e verificou que o presidente não fez menção ao caso de Orelha, encontrado com ferimentos graves por moradores de Florianópolis no dia anterior.

Ao contrário de Lula, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, se manifestou na terça passada (27) sobre o caso de Orelha.

“Eu nunca entendi o que se passa na cabeça e no coração de quem tem coragem de maltratar outro ser vivo. Principalmente, um ser indefeso, como um cachorro. Acho que por isso o caso do cachorro Orelha, que foi brutalmente assassinado por adolescentes em Florianópolis, tem me causado tanta tristeza e indignação”, disse Janja em post no Instagram.

Entenda o caso. Orelha era conhecido como um dos mascotes da Praia Brava, bairro nobre de Florianópolis. Segundo relatos, ele desapareceu e foi encontrado dias depois agonizando por um dos moradores que cuidavam dele. O animal foi levado a uma clínica veterinária, mas, devido à gravidade dos ferimentos, não resistiu e passou por eutanásia.

O caso segue em análise e, até o momento, mais de 20 pessoas foram ouvidas. Três adolescentes estão sendo investigados.

O caminho da apuração

Por meio de busca reversa de imagens, Aos Fatos identificou a publicação original, postada por um perfil especializado em conteúdo sintético. A reportagem analisou, então, a gravação quadro a quadro para localizar distorções visuais e comportamentos incompatíveis com registros oficiais.

Em seguida, transcrevemos o discurso usado como base para a peça de desinformação por meio da ferramenta Escriba e comparamos o texto integral com a fala atribuída ao presidente pelas peças de desinformação.

Por fim, verificamos perfis oficiais e registros públicos para checar a existência de declarações sobre o caso de Orelha.

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