Vídeo de baile funk atribuído a Paraisópolis foi gravado em Salvador, apontam indícios

Por Amanda Ribeiro

9 de dezembro de 2019, 18h53


Uma série de indícios reunidos por Aos Fatos aponta que teria sido gravado em Salvador, não em Paraisópolis, um vídeo que circula nas redes sociais mostrando o momento em que tiros são disparados para o alto durante um baile funk. Em páginas e grupos de apoio à polícia militar, as imagens viralizaram como se fossem da festa na zona sul de São Paulo que terminou com nove mortos após ação da PM na semana passada (veja aqui).

O vídeo mostra um local amplo e com edifícios que, após análise, Aos Fatos constatou ser semelhante a uma área em Nordeste de Amaralina, bairro da capital baiana. Nas imagens, é cantado ainda um funk que cita o Comando Vermelho, facção criminosa rival da que controla o tráfico em Paraisópolis, o PCC (Primeiro Comando da Capital). Apesar de todos os indícios, Aos Fatos não conseguiu localizar a origem exata do vídeo.

Compartilhado por páginas e perfis pessoais, postagens que trazem o vídeo acumulavam cerca de 44 mil compartilhamentos até a tarde desta segunda (9). Todas as publicações foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de monitoramento da rede social (entenda como funciona). O conteúdo também foi enviado por leitores do Aos Fatos no WhatsApp como sugestão de checagem (inscreva-se aqui).


FALSO

Começa aparecer a verdade sobre o massacre no pancadão de Paraisópolis.

Um vídeo que circula como se tivesse sido gravado em um baile funk em Paraisópolis mostra, na verdade, uma festa em Nordeste de Amaralina, bairro de Salvador, mais precisamente na localidade conhecida como Areal. É o que Aos Fatos constatou ao analisar a gravação e imagens da favela paulistana e do bairro soteropolitano no Google Street View.

O primeiro indício é espacial: a rua que concentra mais gente nos bailes em Paraisópolis, a Ernest Renan (abaixo, à esquerda), é estreita, diferente do local mostrado no vídeo (abaixo, à direita), mais amplo. Foram em duas vielas próximas a essa rua que nove pessoas morreram pisoteadas no dia 1º de dezembro, após ação da PM no local.

Outras duas ruas que cruzam a via e também concentram o público durante os bailes, a Herbert Spencer e a Rodolf Lotze também não se assemelham ao local mostrado no vídeo.

Também são diferentes das de Paraisópolis as construções que aparecem no vídeo no entorno da área onde as pessoas estão concentradas para o baile. O vídeo mostra prédios baixos com acabamento e pintura, com dois ou três andares (veja abaixo), um tipo de imóvel bem diferente dos existentes nas ruas que reúnem os frequentadores do baile funk da favela paulistana.

A paisagem mostrada na gravação é bastante similar à que aparece em outros vídeos de bailes funk em Nordeste de Amaralina: tanto em termos de largura da via quanto ao estilo das construções, confira abaixo.

Homenagem. Outra característica que indica que o vídeo não foi gravado em Paraisópolis é que o funk que se ouve antes dos tiros cita uma facção criminosa que é rival ao PCC, que controla o tráfico em São Paulo: o Comando Vermelho.

Na música Nosso fuzil tá demais, MC Poze do Rodo canta “Nós vai voltar pra onde é cria / E meter bala nos milícia / Só glockão com pentão de 30 / Que o Comando Vermelho administra”. Poze, preso por apologia ao crime em outubro deste ano, também é conhecido por outras canções em homenagem ao CV, como “Homenagem pra Tropa do Rodo”, que homenageia quem “morreu metendo bala pelo Comando Vermelho”.

Nos primeiros segundos da gravação, um jovem aparece ainda fazendo com as mãos o gesto que indica o número dois. O símbolo faz menção à saudação “tudo dois”, que é atribuída ao Comando da Paz, que controla o tráfico em favelas da região metropolitana de Salvador, e ao Comando Vermelho.

Desde a ação policial que deixou mortos em Paraísópolis, vídeos fora de contexto têm sido compartilhados nas redes sociais para se contrapor às críticas à conduta da PM no caso. Aos Fatos já checou duas dessas peças de desinformação: a primeira usa um vídeo gravado neste ano no interior de São Paulo para afirmar que policiais foram agredidos por frequentadores do baile funk; a segunda descontextualiza imagens gravadas em favela da zona norte de São Paulo em 2016.

Referências:

1. G1
2. Correio 24 Horas
3. O Popular
4. Letras Terra (Fontes 1 e 2)
5. Vice
6. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)