Vídeo mostra celebração na Turquia, não marcha de imigrantes para Ceuta

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Um vídeo que mostra milhares de pessoas caminhando em uma montanha não mostra imigrantes marroquinos se dirigindo para a fronteira de Ceuta, enclave espanhol no Norte da África, no final de julho. A gravação viral, na verdade, foi registrada na Turquia no início daquele mês, quando ocorreu uma cerimônia em homenagem a Noé.

Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos 2.500 interações no Instagram e no Facebook até a tarde desta sexta-feira (7).

Milhares de imigrantes se dirigem à fronteira de Ceuta e aumentam a tensão entre Marrocos e Espanha

A fotografia exibe uma ampla multidão caminhando por um terreno montanhoso e irregular, coberto por vegetação rasteira de tom amarelo-acastanhado. As pessoas, capturadas a certa distância, apresentam tons de pele variados e majoritariamente cabelos escuros, vestindo trajes diversos que incluem camisas brancas, azuis e pretas, calças escuras e chapéus. Uma das pessoas no canto inferior esquerdo carrega uma cadeira de plástico branca. O céu ao fundo é azul e claro. Sobreposta na parte superior da imagem, há uma caixa de fundo branco contendo um emoji de sirene vermelha e o seguinte texto em letras escuras: 'Milhares de imigrantes se dirigem à fronteira de Ceuta e aumentam a tensão entre Marrocos e Espanha'.

Um vídeo que mostra uma comemoração na Turquia tem circulado nas redes sociais como se registrasse uma onda de imigrantes em direção a Ceuta.

Por meio de busca reversa, Aos Fatos identificou que a gravação foi compartilhada, originalmente, no dia 5 de julho. A entrada em massa de imigrantes no território espanhol, por sua vez, aconteceu no dia 30 do mesmo mês.

Outros indícios, presentes na publicação original e na própria imagem, também atestam que a gravação viral foi feita na Turquia:

  • O post original diz que o vídeo foi registrado no monte Judi, na Turquia. Segundo a tradição cristã e islâmica, esse seria o local onde Noé teria ancorado sua arca após o dilúvio;
  • Naquela data, ocorreu a 4ª Cerimônia Comemorativa do Profeta Noé, conforme noticiou a imprensa turca (aqui, aqui e aqui);
  • Uma comparação entre frames do vídeo e imagens publicadas pela mídia mostram que se trata do mesmo local (veja abaixo);
A imagem exibe uma composição de dois painéis sobrepostos que mostram uma grande aglomeração de pessoas e veículos em uma paisagem montanhosa e árida de tons castanhos. No painel superior, a perspectiva revela pequenas figuras humanas caminhando em primeiro plano ao longo do que parece ser uma barreira — cujas características físicas específicas de cor de pele, cabelo e vestuário não são discerníveis devido à grande distância —, rodeadas por diversos carros, vans e estruturas brancas semelhantes a tendas. Três círculos laranjas destacam elementos específicos nesta cena: um veículo longo e claro, uma pequena tenda de teto quadrado e uma grande estrutura coberta retangular. O painel inferior apresenta uma vista aérea mais ampla do mesmo local, exibindo uma vasta multidão, fileiras de veículos estacionados e o mesmo conjunto de tendas, com os três círculos laranjas marcando os exatos mesmos pontos destacados no painel superior.
Tendas e caminhões que aparecem em transmissão do evento no Youtube são idênticos aos da imagem das peças de desinformação (Reprodução)

Onda migratória. Em um período de cerca de 24 horas, cerca de 70 mil imigrantes atravessaram de forma irregular a fronteira marítima e entraram em Ceuta.

O governo espanhol culpa uma decisão da Suprema Corte do país que, no mês passado, decidiu que imigrantes interceptados no mar não poderiam ser sumariamente deportados para o Marrocos, como ocorria com pessoas que tentavam cruzar fronteiras físicas.

Autoridades europeias suspeitam que a onda imigratória foi alimentada por desinformação relacionada à decisão: publicações nas redes distorceram o entendimento do Supremo espanhol, sugerindo que imigrantes que chegassem pelo mar não poderiam ser deportados e, assim, permaneceriam no país.

A onda migratória foi marcada por confrontos com o Exército e a polícia local e resultou em ao menos cem mortos, muitos deles por afogamento durante a travessia. O governo espanhol afirma que a maior parte dos imigrantes já retornou para o Marrocos, mas que cerca de 5.000 ainda estão em Ceuta.

Essa peça de desinformação também foi checada pela Reuters.

O caminho da apuração

Aos Fatos fez uma busca reversa por frames do vídeo e encontrou a mesma gravação em publicações no dia 5 de julho, com indicação de que teria sido registrada na Turquia. A reportagem pesquisou, então, eventos que aconteceram naquela data e encontrou a comemoração relacionada a Noé.

Também foram consultadas informações sobre a onda migratória ocorrida em Ceuta na última semana para compor o contexto da checagem.

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