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Vacinas de RNA contra a Covid-19 não são capazes de alterar o DNA

Por Luiz Fernando Menezes

4 de dezembro de 2020, 17h36

São falsas as afirmações apresentadas em vídeo pela médica americana Christiane Northrup sobre as vacinas de RNA contra a Covid-19. Ao contrário do que ela afirma na gravação que tem circulado nas redes sociais (veja aqui), as imunizações produzidas por meio dessa tecnologia não são capazes de alterar o DNA humano nem de transformar as pessoas em “quimeras”. Como o Aos Fatos já explicou, essas vacinas inserem um gene do Sars-CoV-2 no organismo para estimular o sistema imune.

Outra informação enganosa disseminada pela médica é a de que a imunização faria parte de um plano de dominação mundial que enviará dados biométricos da população à Fundação Bill e Melinda Gates. As vacinas desenvolvidas hoje contra Covid-19 não inserem chips ou nanorrobôs em pessoas e o projeto da organização não tem relação com pandemia nem imunização, mas com criptomoedas e sensores externos.

O vídeo com as desinformações circulou inicialmente nas redes sociais em língua inglesa em outubro e novembro. Aqui, a peça tem sido disseminada principalmente no WhatsApp, onde foi sugerida por leitores do Aos Fatos como checagem (inscreva-se aqui). Ela também aparece em publicações no Facebook que acumulavam centenas de compartilhamentos até a tarde desta sexta-feira (4). Todas foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (veja como funciona).


Isso [vacina de RNA] mudará fundamentalmente o DNA das pessoas.

Na primeira parte do vídeo, a médica americana Christiane Northrup alerta que as vacinas de RNA produzidas para combater a Covid-19 iriam “mudar fundamentalmente o DNA das pessoas”. Afirmações semelhantes circulam nas redes desde o final de agosto e já foram desmentidas pelo Aos Fatos duas outras vezes (aqui e aqui).

Ao contrário do que Northrup sugere, as vacinas de ácido nucleico não alteram o código genético humano, apenas inserem um gene do vírus no corpo para estimular o sistema imune. Ou seja, o que as farmacêuticas fazem é alterar o gene do vírus Sars-CoV-2 para torná-lo inofensivo antes de inoculá-lo no corpo humano.

A única informação verdadeira sobre o assunto é que as vacinas de RNA nunca foram utilizadas em humanos. De fato, trata-se de uma nova tecnologia, que só tinha sido aplicada em imunizações de animais. Por causa da Covid-19, no entanto, alguns laboratórios, como a Pfizer e a Moderna, investiram nesse tipo de vacina por ela ter uma produção mais rápida.

A médica diz ainda, no vídeo, que as vacinas transformariam as pessoas em “quimeras”. Segundo Laura de Freitas, farmacêutica e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo), a autora provavelmente se refere ao quimerismo genético, uma vez que Quimera é o nome do ser mitológico com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente. O quimerismo genético acontece quando a pessoa tem células no corpo com DNAs diferentes, como no caso de indivíduos interssexuais. Isso acontece quando dois óvulos fecundados se fundem nos primeiros dias de desenvolvimento. “Então uma vacina não tem como transformar a gente em uma quimera. Porque isso tem que acontecer no momento da fecundação”, explicou ao Aos Fatos.


[A vacinação contra a Covid-19 é um] plano de conectar os vacinados à criptomoeda tornando todos os humanos uma mercadoria.

Na outra metade do vídeo que vem sendo compartilhado, a doutora cita pontos do que seriam, segundo ela, provas de que a imunização contra a Covid-19 seria um plano de dominação mundial realizado pelas farmacêuticas com Bill Gates, um dos fundadores da Microsoft. Nada do que ela disse, no entanto, é verdade. Algumas informações enganosas até mesmo já foram desmentidas pelo Aos Fatos.

O primeiro erro de Northrup é afirmar que as vacinas possuem nanopartículas que “são como pequenos robôs, pequenas antenas” que irão armazenar e repassar dados biométricos da população via conexão 5G. Renato Kfouri, pediatra e diretor da SBIM (Sociedade Brasileira de Imunizações), explicou ao Aos Fatos em checagem anterior que não há nenhuma vacina em estudo contra o novo coronavírus que contenha chips ou tecnologias semelhantes em sua composição.

Kfouri apontou ainda que as vacinas já em testes contra a Covid-19 são registradas no Clinical Trial, site sobre estudos em humanos, e devem mostrar as informações das composições. A lista de imunizações também está disponível no site da OMS (Organização Mundial da Saúde) com direcionamento para informações detalhadas.

A médica, então, afirma que esses dados seriam armazenados em uma nuvem e que a Fundação Bill e Melinda Gates teriam a patente para obtê-los, gerar um código de barras e conectar pessoas a um sistema de criptomoedas. Ela chega a citar o número da suposta patente (060606).

Por mais que a Microsoft de fato tenha entrado com um processo para patentear um sistema de criptomoedas usando dados corporais identificado com o número W020200060606A1, ele não tem relação com a vacinação da Covid-19. Na descrição do projeto, há a explicação de que se trata de um processo de mineração de criptomoedas por meio de atividades do corpo humano.

O documento disponibiliza uma ilustração do processo, que mostra que a patente não pretende inserir nenhum chip ou nanorrobô em pessoas. Segundo o registro, seria um sensor que identifica a realização de atividades de uma maneira previamente determinada para, depois, recompensar os indivíduos com a moeda digital.

Além disso, conforme pode ser verificado na base da European Patent Office, a patente para a tecnologia foi enviada em junho de 2019, antes do início da pandemia.

Luciferase. Uma outra afirmação feita pela doutora no vídeo é a de que o MIT (Massachusetts Institute of Technology) estaria produzindo uma tinta chamada “Luciferase” que permitirá identificar quem foi ou não vacinado. Aqui, há duas distorções: a primeira é que luciferase não é um produto, mas um termo utilizado na ciência para se referir a enzimas que produzem bioluminescência.

O MIT de fato estava pesquisando uma maneira de facilitar a identificação da imunização em crianças por meio de uma tinta injetável, mas o estudo foi publicado em dezembro de 2019 — antes, portanto, da pandemia do novo coronavírus — e não utilizava esse tipo de enzima. Conforme explicou a própria instituição, a tecnologia consiste em nanocristais que podem ficar até cinco anos debaixo da pele e que só podem ser detectados por meio de equipamentos especiais. Ela, no entanto, nem sequer foi testada em humanos.

Autoria. A pessoa que aparece no vídeo é a obstetra Christiane Northrup, autora de diversos livros sobre a saúde da mulher. O vídeo que vem sendo compartilhado nas redes foi retirado de uma entrevista dada em outubro deste ano a Polly Tommey, produtora britânica responsável pelos documentários antivacinação Vaxxed.

A peça de desinformação circulou primeiro em língua inglesa e foi desmentida pelas equipes do Boom Live e do Factly. No Brasil, a Agência Lupa e o Boatos.org também publicaram checagens sobre o assunto.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2 e 3)
2. Vox
3. Boom Live
4. Factly
5. Agência Lupa
6. Boatos.org
7. OMS
8. World Wide
9. STM
10. MIT

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