Não é verdade que o governo federal suspendeu a vacinação contra a dengue no Brasil para esperar a aprovação do imunizante do Instituto Butantan, que seria ligado a Fábio Luís da Silva, o Lulinha. Os posts que fazem essa alegação distorcem que a suspensão se deu após relatos de reações adversas, que a vacina suspensa foi a do Butantan e que a PF não revelou envolvimento de Lulinha com o imunizante.
Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos 3.000 curtidas no Instagram até a tarde desta quarta-feira (26).
Para beneficiar o Lulinha, Lula suspendeu a aplicação de vacinas e o Brasil bateu recorde de mortes por dengue: ‘já podemos chamar o Lula de genocida?’.

Publicações enganosas têm viralizado nas redes ao alegar que o presidente Lula (PT) teria suspendido a imunização contra a dengue para favorecer uma vacina que geraria lucros para seu filho, Fábio Luís da Silva, o Lulinha. Essa alegação, no entanto, não tem respaldo na realidade.
As peças de desinformação alegam que:
- O filho de Lula teria dito que o pai “vai comprar nossa vacina” em mensagens com a lobista Roberta Luchsinger, alvo de inquérito da PF (clique aqui para ver porque isso é falso);
- Lulinha e Roberta ganhariam 20% “em todo acordo que fechassem com o governo” (clique aqui para ver porque isso é falso).
- Lula teria paralisado a imunização contra a dengue para esperar “a vacina do Lulinha”, produzida pelo Butantan (clique aqui para ver porque isso é falso);
Nada disso é verdade.
Primeiramente, a troca de mensagens que supostamente cita a vacina não foi entre Lulinha e Roberta, mas entre a lobista e Gustavo Gaspar, ex-assessor do senador Weverton Rocha (PDT-MA), preso em meio às investigações de fraudes no INSS.
Revelada pela Veja no dia 20 de agosto de 2026, a conversa entre os dois ocorreu no dia 27 de janeiro de 2025:
Gaspar: “Olha só. No Brasil tão falando muito em dengue”.
Roberta: “Ele vai comprar. Está na fase técnica. Não tem muito o que fazer. O que tinha e precisa fazer eu tenho feito”.
Gaspar: “Acho que demora ainda uns 3 meses. Normal. Nada é do dia pra noite”.
Roberta: “Vamos aguardar. Temos prazo porque Fábio vai embora”.

Roberta, então, cita o nome de Lulinha e diz que ele iria se mudar do Brasil — de fato, meses depois, ele e a família foram morar em Madri. Em nenhum momento, portanto, ela ou Lulinha disseram “nossa vacina” ou que Lula teria paralisado a imunização nacional para aguardar esse imunizante, como afirmam as publicações.
Na terça (25), a Folha de S.Paulo detalhou o provável contexto da conversa: Roberta tinha planos de mediar uma venda de testes rápidos de dengue ao Ministério da Saúde. O contrato, com previsão de R$ 1 bilhão, não foi fechado pela pasta.
A PF, ainda segundo o jornal, entende que Lulinha poderia ser um beneficiário indireto desses contratos citados nas mensagens.
Também não há provas de que Lulinha e Roberta ganhariam “20% em todo acordo que fechassem com o governo federal”, como afirmam as publicações. Essa acusação é, na verdade, fruto de uma distorção de uma reportagem do Estadão.
O jornal divulgou mensagens que revelam que Roberta tentou fechar um contrato de cannabis medicinal com o Ministério da Saúde. Na minuta do contrato, a lobista estipulava como sua remuneração “20% do faturamento da empresa relacionada à venda de subprodutos de cannabis para órgãos da administração pública”. O contrato, no entanto, nunca foi fechado.
Já o contrato entre o Ministério da Saúde e o Butantan para a aquisição de vacinas não tem nenhuma citação a Roberta ou Lulinha. Em nota enviada ao Aos Fatos, o instituto negou a informação e disse que nunca trabalhou com comissões a terceiros.
Por fim, a peça de desinformação também desinforma sobre a distribuição de vacinas da dengue no Brasil.
- O governo Lula incorporou ao PNI (Programa Nacional de Imunização) o primeiro imunizante contra a doença — a vacina japonesa QDenga, de duas doses — em dezembro de 2023;
- O número de doses oferecidas pela empresa era reduzido e, por isso, o governo optou por restringir a vacinação para regiões e grupos prioritários;
- A vacinação com o imunizante japonês foi iniciada em fevereiro de 2024. Até o final de 2025, o país havia aplicado 7,8 milhões de doses contra a dengue;
- Em novembro de 2025, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a vacina do Instituto Butantan, de dose única, que estava sendo produzida desde 2009;
- Ela foi incorporada ao PNI em janeiro do ano seguinte, mas, por causa da quantidade limitada de doses, também foi restrita a grupos prioritários.
- A suspensão da vacinação ocorreu em junho de 2026 — cerca de cinco meses após a troca de mensagens revelada — e atingiu apenas a vacina do Butantan. O motivo para a paralisação foi a identificação de 42 casos suspeitos de reações adversas, incluindo dois óbitos;
- A aplicação do imunizante continua suspensa até hoje, enquanto durar a investigação.
Logo, as alegações feitas nas peças de desinformação não fazem sentido: a paralisação só ocorreu meses após a troca de mensagens, por causa de uma investigação de reações adversas, e afetou justamente o imunizante que é apontado como “do Lulinha”.
Desde a paralisação, no entanto, a vacinação contra a dengue continua com o imunizante QDenga, no SUS, e a Dengvaxia, no sistema privado. O Ministério da Saúde registrou 769 mil doses aplicadas em julho e agosto deste ano.
Mortes. Até a alegação de que o Brasil haveria registrado um recorde de óbitos por dengue após a suspensão da vacinação é mentirosa. A série histórica (veja abaixo) mostra que o recorde de mortes aconteceu em 2024, quando a vacina QDenga já estava incorporada no PNI e o imunizante do Butantan sequer havia sido aprovado pela Anvisa.
Até o momento, foram registrados 302 óbitos por dengue no Brasil em 2026.
O caminho da apuração
Aos Fatos transcreveu o vídeo enganoso por meio da ferramenta Escriba e separou as afirmações passíveis de checagem. A reportagem procurou mensagens entre Lulinha e Roberta vazadas pela imprensa e buscamos citações à vacina. Complementamos ainda essa parte da apuração com reportagens da Veja e da Folha de S.Paulo.
Além disso, Aos Fatos pesquisou dados sobre a dengue no Ministério da Saúde. E, por último, a reportagem traçou uma linha do tempo para explicar o contexto da vacinação contra a dengue.
Aos Fatos também entrou em contato com o Instituto Butantan e com o Ministério da Saúde para que eles pudessem comentar a acusação feita pelas peças de desinformação. Apenas o Butantan respondeu até a publicação do texto.





