Uso de máscaras não aumenta a acidez no sangue nem prejudica a imunidade

Por Priscila Pacheco

3 de setembro de 2020, 12h32


É falso que usar máscara deixa o sangue ácido e enfraquece o sistema imunológico, como afirmam postagens nas redes sociais (veja aqui). Não há evidências de que o equipamento cause hipercapnia, quando grande quantidade de CO₂ é inalada e aumenta a acidez no sangue arterial. De acordo com o Ministério da Saúde e especialistas ouvidos por Aos Fatos, as proteções recomendadas hoje contra a Covid-19 têm poros e saídas que não prejudicam a respiração correta nem a imunidade.

Esta peça de desinformação reúne ao menos 1.374 compartilhamentos nesta quinta-feira (3) e foi marcada com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

“O uso de máscara faz você respirar o gás que se expirou. Isso aumenta a acidez no sangue e baixa o sistema imunológico”

Voltaram a circular nas redes sociais publicações que afirmam que o uso de máscaras de proteção provoca a acidificação do sangue e reduz as defesas do organismo. Nada disso é verdade, de acordo com o Ministério da Saúde e especialistas.

O processo que torna o sangue ácido é chamado de hipercapnia. Ele é provocado quando há aumento da concentração de gás carbônico no sangue arterial, que é rico em oxigênio. Não há evidências de que as máscaras recomendadas pelas autoridades de saúde hoje provoquem esse quadro.

As bases de estudos da OMS (Organização Mundial de Saúde), da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e do NCBI (National Center for Biotechnology Information) não contêm pesquisas sólidas que evidenciam o uso de máscaras à acidificação do sangue. Até o momento, Aos Fatos localizou apenas um estudo preliminar na Espanha que, em junho, apontou redução de oxigênio e aumento de CO₂ durante exercícios aeróbicos.

Daniel Lahr, professor do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo) disse, em checagem anterior, que as máscaras são feitas para permitir a respiração ao mesmo tempo em que filtram o ar. “Se está muito difícil de respirar, está usando uma máscara inadequada, com tecido muito grosso”, comenta.

O médico Carlos R. Zárate-Bladés, do laboratório de imunorregulação da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), afirmou que, se a oxigenação no corpo humano caísse pelo tempo de uso da máscara, quem usa o equipamento por longos períodos passaria mal ou teria lesões provocadas por hipóxia crônica, o que não ocorre. Ele cita como exemplos pesquisadores em laboratórios, trabalhadores de indústrias farmacêuticas e de alimentos, e médicos e enfermeiras em salas de cirurgia.

O Ministério da Saúde também ressaltou que não há embasamento técnico científico que comprove a ocorrência de acidificação do sangue por causa do uso de máscaras. Segundo a entidade, os poros do material permitem as trocas gasosas.

Imunidade. Frederico Fernandes, médico e presidente da SPP (Sociedade Paulista de Pneumologia), explica que o organismo sabe se proteger contra a acidez no sangue e dispõe de vários sistemas para contrabalançar esse processo.

“Um simples uso de máscara jamais conseguiria acidificar o sangue. Ela serve como barreira para partículas e gotículas que podem estar contaminadas com o vírus, mas o oxigênio, nitrogênio e gás carbônico atravessam a máscara sem dificuldade e não há reinalação do ar”, comenta.

Além disso, ele afirma que a acidez no sangue não prejudica a imunidade: “[a acidose] leva a sintomas como dor de cabeça, náuseas, cansaço e confusão mental”.

As máscaras são úteis especialmente em ambientes em que não é possível manter a distância de pelo menos um metro entre uma pessoa e outra, como em transporte público, lojas ou demais ambientes fechados, de acordo com a OMS. Mesmo com a proteção, é necessário higienizar sempre as mãos e tentar manter distância de outras pessoas.

No Brasil, o uso de máscaras é recomendado desde abril pelo Ministério da Saúde. Em nota informativa publicada à época, a pasta sugeriu até que a população produzisse “as suas próprias máscaras caseiras, utilizando tecidos que podem assegurar uma boa efetividade se forem bem desenhadas e higienizadas corretamente”.

Esta não é a primeira vez que Aos Fatos checa uma peça de desinformação que relaciona o uso de máscaras a malefícios à saúde. Alegações enganosas semelhantes foram desmentidas em maio, em junho e em julho.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2 e 3)
2. Ministério da Saúde (Fontes 1 e 2)
3. OMS (Fontes 1, 2 e 3)
4. Fiocruz
5. NCBI
6. Elsevier


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