Aos Fatos ganhou nesta semana o prêmio Rey de España de melhor veículo de comunicação ibero-americano. A notícia me deixa muito feliz, mas também muito preocupada.
Junto com o prêmio Gabo, recebido em 2020, este reconhecimento chega num momento de inflexão para o jornalismo de interesse público. Há múltiplas audiências para o jornalismo que ainda resiste, mas também uma ansiedade crescente sobre o que restará para nós, como indústria, em um futuro próximo: haverá capacidade para inovar em redações virtuais, rotinas precarizadas e produção intelectual condicionada unicamente a grants e patrocínios? Acredito que não.
Nos últimos meses, tenho me dedicado a pesquisar os diferentes modelos de sustentabilidade adotados por organizações comprometidas com a integridade da informação — especificamente a checagem de fatos e os produtos jornalísticos derivados dessa atividade. Em praticamente todos os lugares, encontramos os mesmos sinais de desgaste. Nosso modelo de produção intelectual foi capturado por empresas transnacionais que dizem automatizar processos, quando, na verdade, estão pilhando nossos arquivos e nossas bases de dados sem contrapartida. Fazem isso enquanto elas mesmas, junto de governos nacionais, patrocinam ataques reputacionais e propaganda extremista contra nossas organizações. Lidamos com assédio judicial, ataques digitais, competição desleal por meio de acordos comerciais unilaterais e uma disputa cada vez mais feroz por recursos escassos — o que, em vez de nos unir, frequentemente nos separa.
Apesar disso, somos continuamente convocados pelos poucos financiadores (veja como Aos Fatos se financia) que nos restam, dentro de seus escritórios no Norte Global, a produzir mais, inovar mais e, sobretudo, a criar “resiliência”.
Cresce também a pressão para “construir e cultivar comunidades”. Penso que é um discurso profundamente elitista e pouco conectado aos anseios do coletivo. Num ambiente de escassez, isso significa reduzir o jornalismo a algo feito para os amigos — ou, efetivamente, para os clientes de uma marca —, como se o acordo coletivo que nos leva a criar uma base de conhecimento comum pudesse ser construído apenas pela via da afinidade.
É, sim, importante falar com os nossos e criar vínculos de confiança, mas atribuir ao jornalismo a função de manter elos sociais coesos para vender um bem que deveria ser público é privatizar a noção de cidadania — algo que, aliás, as grandes plataformas digitais já fizeram com muito mais êxito, dinheiro e em escala global, com consequências lamentáveis.
O jornalismo — e a checagem de fatos em particular — não é apenas um produto a ser consumido por quem gosta. É uma tecnologia cívica que serve a uma infraestrutura de segurança epistêmica que o Estado deveria proteger. Funciona como um serviço de interesse público que ajuda a preservar uma base comum de realidade sobre a qual uma sociedade pode deliberar e agir. Sem uma base comum de fatos, não existem soluções coletivas para os problemas estruturais que enfrentamos.
Sem redações diversas, capazes de funcionar como ambientes criativos coletivos e de sustentar uma cultura intelectual própria, não haverá saída para o jornalismo como profissão. Sem o convívio diário com colegas, não há visão compartilhada de mundos. Como querer criar comunidades enquanto não há como remunerar quem vive para elas?
Quem prega resiliência em tempos prolongados de penúria quer construir um mundo de passividade e submissão pouco similar às características que tornam o jornalismo do Aos Fatos inovador. Isso tampouco se assemelha à virtude do jornalismo independente brasileiro, que precisa viver, como o Aos Fatos, de lampejos de glória para que, com sorte, uma meia dúzia de ricaços nos jogue uns trocados. Do contrário, é nos exigido convocar uma audiência endividada e indignada a pagar por um serviço que limpa a sujeira na estrutura política e digital que não ela, mas aqueles mesmos ricaços produziram. É injusto.
Aos Fatos não faz jornalismo para as elites: é um serviço público de informação para quem enfrenta desafios mundanos e para quem é subestimado por uma classe política viciada em passar a perna e enganar. O jornalismo não precisa de mecenato, mas de políticas públicas que protejam a vida de quem trabalha nas poucas redações que nos restam e que estejam atentas aos interesses da audiência a quem servimos. A partir daí, podemos conversar a respeito do que vem depois.
O prêmio Rey de España
De acordo com o corpo de jurados do prêmio, Aos Fatos representa “a proteção da integridade informativa no ambiente digital e a conjugação de jornalismo de dados, inteligência artificial e tecnologia cívica”.
Assim, segundo os jurados, a premiação foi concedida por Aos Fatos “ser referência em checagem, pelo bom exercício de seus jornalistas, que sofrem assédio político, e por ter realizado 19.000 checagens entre 2015 e 2025, das quais aproximadamente 15.000 correspondem a declarações de 167 figuras públicas e outras 4.000 a boatos virais”.





