Até quando, Catilina, abusarás
da nossa paciência?
Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?
A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?
Nem a guarda do Palatino,
nem a ronda noturna da cidade,
nem o temor do povo,
nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado,
nem a expressão do voto destas pessoas, nada disto conseguiu perturbar-te?
– trecho da primeira das Catilinárias, de Marco Túlio Cícero, cônsul romano
Evocar o mais famoso orador da história ocidental para convidá-los a participar desta apresentação remete a um hermetismo a que não nos pretendemos. A Oratio Prima, porém, é indispensável para explicar um dos principais atributos dos políticos fundamentais: a arte do discurso público. É por meio dele que se trava o diálogo entre líderes e sociedade — e, palpite nosso, há algo de errado quando todos se prestam a falar, mas poucos a ouvir.
Neste 2015, a profusão de declarações, coléricas ou não, tem nos levado a um momento de quebra do acordo tácito entre o ouvinte e o orador. Fato é que os nossos representantes perderam a capacidade de convencer e de dominar um dos mais primordiais instrumentos da política.
Já aqueles cuja missão é reportar o que foi dito o faz à exaustão, sem se preocupar com o conteúdo. A flagrante crise no modelo de um tipo de jornalismo acelerou essa crise de confiança, amparada na premissa de que tudo o que é notícia é falso, o que é dito é comprometido e o que não é dito é impenetrável.
Acreditamos, no entanto, que a declaração pública tem seu valor, que deve ser resgatada de seu estado incrível, e explicitadas suas verdades e mentiras. É com prazer e certa dose de ansiedade que apresentamos uma nova empreitada: o Aos Fatos, uma plataforma de jornalismo para verificação de discurso.
Não queremos reinventar a roda. Bebemos na fonte de iniciativas bem sucedidas na Argentina, com o Chequeado, no Chile, com o Del dicho al echo, e nos Estados Unidos, com o Politifact — este último, aliás, vencedor do Pulitzer em 2008.
Acreditamos que o jornalismo diário carece de uma abordagem analítica baseada em fatos, e não apenas em opiniões. Percebemos que a cobertura feita pela imprensa tradicional, de quem somos entusiastas, e não inimigos, carece de dados, mas exagera em versões.
Aos Fatos pretende acrescentar consistência ao debate, de modo a combater o estelionato intelectual, particular destes tempos. Para isso, acreditamos em uma fórmula com sete etapas:
1. Selecionar uma declaração pública
2. Analisar sua relevância
3. Consultar a fonte original
4. Consultar fontes oficiais
5. Consultar fontes alternativas
6. Contextualizar
7. Classificar entre quatro categorias: verdadeiro, impreciso, exagerado e falso
Convidamos você a conhecer a landing page de Aos Fatos. Trata-se do primeiro passo de um projeto que envolverá muito trabalho de nossa equipe, mas também engajamento seu, leitor e eleitor, para quem pediremos ajuda. Inclusive financeira, é verdade, em forma de microdoações.
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O objetivo, neste momento, é restabelecer o diálogo. Vamos conversar. Assine nossa newsletter.




