Twitter permite nota mentirosa adicionada a tuíte sobre mulher trans agredida na Itália

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Usuários do Twitter adicionaram uma nota transfóbica e desinformativa a uma reportagem do jornal O Globo, publicada na quinta-feira (26), que relatava um caso de violência policial contra uma mulher trans em Milão, na Itália. No texto adicionado pela rede social, usuários tratam a vítima como “ele” e “o indivíduo transexual” e afirmam que a mulher teria sido agredida “após expor seu pênis a crianças em idade escolar e ameaçar infectar pessoas com HIV”, o que é mentira.

Nota da comunidade no Twitter afirma que mulher trans foi agredida por policiais na Itália após expor seu pênis a crianças e ameaçar infectar pressoas com HIV, o que é mentira
Transfobia. A nota enganosa, que segue no ar, é transfóbica ao tratar a mulher agredida como “ele” e “o indivíduo” (Reprodução/Twitter)

A versão enganosa que é citada na nota da comunidade foi divulgada inicialmente pelo sindicato policial de Milão após a viralização das imagens que mostram a brutalidade dos agentes. A mentira também circula em outros países, como na Itália e nos Estados Unidos. Segundo a versão do sindicato, a mulher teria agredido os agentes para tentar fugir da prisão.

O Ministério Público de Milão, no entanto, desmentiu essa versão ainda na quinta-feira (25): segundo os procuradores, a polícia foi ao local — próximo à uma escola primária — depois de receber denúncias de perturbação do sossego por conta do barulho gerado por uma discussão, e não por atos obscenos. Quando a nota foi publicada no Twitter, portanto, a procuradoria já havia desmentido a versão dos policiais.

Em entrevista ao jornal Corriere della Sera, a vítima, identificada apenas como Bruna, disse que estava discutindo com um grupo de indivíduos embriagados que a insultavam quando a polícia chegou e a prendeu. Ela alega ter sido espancada e agredida com gás de pimenta. Nesta segunda-feira (29), a advogada de Bruna apresentou uma denúncia ao Ministério Público de Milão por tortura agravada por discriminação racial. A procuradoria também instaurou um processo contra os policiais por lesão e abuso de autoridade.

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REPERCUSSÃO

A nota desinformativa foi disseminada para outras redes sociais e vem sendo usada por usuários para criticar a imprensa. No Facebook, por exemplo, o MBL compartilhou um print para dizer que a ferramenta do Twitter mostraria quem “realmente faz fake news” (veja abaixo).

O Aos Fatos também identificou publicações semelhantes em outras páginas de direita e em mensagens publicadas no WhatsApp e no Telegram.

MBL compartilhou nota enganosa no Facebook para alegar que ferramenta do Twitter estaria ajudando no combate à desinformação
As redes ao lado. Nota desinformativa e transfóbica publicada inicialmente no Twitter foi compartilhada pelo MBL no Facebook e também circula no WhatsApp e no Telegram (Reprodução/Facebook)

COMO FUNCIONAM AS NOTAS

O programa de notas da comunidade do Twitter permite que usuários denunciem conteúdos que acreditam não estar de acordo com as regras da plataforma. O sistema funciona da seguinte maneira:

  • Usuários que se cadastraram e foram aprovados no programa redigem um texto para que ele seja adicionado junto a uma determinada publicação;
  • Essa nota passa então por uma avaliação de outros usuários, que devem verificar se o texto é “útil”;
  • Notas que foram avaliadas como úteis por diversas pessoas “com perspectivas diversas”, de acordo com o Twitter, são então publicadas;
  • O conteúdo não passa por nenhuma moderação da equipe da rede social, que só age quando a nota viola suas regras.

Contatado para comentar o caso, o Twitter respondeu o Aos Fatos com um emoji de cocô, mensagem automática enviada a todos os que encaminham demandas de imprensa à plataforma.

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