Reprodução/TV Brasil

TV pública federal promove drogas sem comprovação contra Covid-19 defendidas por Bolsonaro

Por Bruno Fávero

10 de julho de 2020, 13h15


Programas da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), conglomerado público de comunicação controlado pelo governo federal, têm promovido medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 cujo uso é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro. Nos últimos dois meses, foram exibidas pelo menos cinco reportagens que exaltaram drogas como a hidroxicloroquina, a azitromicina e a ivermectina, a despeito do fato de que não há trabalhos científicos que atestem seus efeitos contra o novo coronavírus.

O episódio mais recente aconteceu na última sexta-feira (2), quando o programa "Impressões", da TV Brasil, recebeu a oncologista Nise Yamaguchi. Por uma hora e quinze minutos, a médica detalhou protocolos e fez afirmações como a de que hidroxicloroquina coíbe a replicação do vírus ou que o uso de ivermectina pode prevenir a infecção pela doença. Como o Aos Fatos já explicou, essas declarações não têm respaldo científico porque a cloroquina foi avaliada como ineficaz nos estudos mais confiáveis realizados até agora e a ivermectina foi testada apenas in vitro (em laboratório).

Durante o programa, a apresentadora Katiuscia Neri reforçou os pontos defendidos pela entrevistada. Ao apresentar a médica, ela perguntou "que protocolo é esse que está salvando vidas, que salvou vidas no Pará, que salvou vidas em Porto Feliz?" e, ao concluir a conversa, disse que "se você não traz essa informação pra a gente de que há um tratamento, eu vou continuar com pânico em casa [...] esse medo também é muito prejudicial né?".

O programa atraiu poucos espectadores (foram cerca de 11 mil visualizações no canal da TV Brasil no Youtube), mas ganhou tração nas redes sociais ao ser reproduzido por outras páginas e veículos. Uma versão publicada no Facebook do deputado estadual Capitão Assumção (PSB-ES) acumulava mais de 1,2 milhão de visualizações e 36 mil compartilhamentos até quinta-feira (9).

Além disso, a entrevista foi noticiada em outros veículos da EBC, como a Agência Brasil, e repercutiu em sites locais de Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo que costumam reproduzir conteúdo da estatal. Segundo um levantamento da própria EBC em março, 98,5% do conteúdo da agência foi reproduzido por 308 sites diferentes naquele mês.

Repetição. A prática de promover os medicamentos sem comprovação científica defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro tem sido repetida em atrações de veículos ligados ao governo federal.

Em 14 de maio, uma matéria do "Repórter Brasil", também da TV Brasil, mostrou o caso de um hospital em Floriano (PI) que adotou um protocolo que combina hidroxicloroquina, azitromicina e corticoides para tratar infectados. Como o Aos Fatos mostrou na época, as drogas haviam sido administradas a apenas 20 pacientes da instituição, número que não permite tirar conclusões sobre sua eficácia. Mesmo assim, a repórter afirmou que o tratamento "salvou até agora 15 vidas".

No dia seguinte, o programa "Brasil em Dia", da mesma emissora, acompanhou uma visita da ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) à cidade piauiense e voltou a exaltar os supostos efeitos das drogas no combate à Covid-19. No vídeo, a jornalista que narra a matéria afirma que "para o sucesso do tratamento, é essencial o diagnóstico precoce". Novamente, a informação de que o protocolo não tem respaldo científico foi omitida.

Uma terceira reportagem da TV Brasil sobre o assunto foi exibida em 29 de junho, dessa vez mostrando o caso de Porto Feliz (SP), onde a prefeitura tem distribuído um kit que inclui hidroxicloroquina e azitromicina a pessoas com suspeita de Covid-19. A repórter entrevista um paciente recuperado da doença que afirma ter "sentido" que sua "melhora vinha, sim, do corticoide e da hidroxicloroquina".

O prefeito da cidade, Cassio Prado, também é ouvido na matéria e exalta o suposto efeito profilático da ivermectina. Prado foi eleito pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), sigla presidida por Roberto Jefferson, aliado do presidente Bolsonaro. Mais uma vez, não é informado ao espectador que nenhum dos tratamentos citados têm eficácia comprovada.

A defesa dos tratamentos foi feita ao menos uma vez na edição de 24 de junho do "Voz do Brasil", programa do governo federal produzido pela EBC que é de difusão obrigatória em todas as rádios do país.

Na ocasião, Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, foi chamada para responder a dúvidas dos ouvintes e afirmou que azitromicina, hidroxicloroquina e ivermectina evitam que "pessoas possam agravar seu estado de saúde, ser internadas e muitas vezes, falecerem" e "podem salvar muitas vidas" se usadas precocemente. De novo, não há comprovação científica de que essas drogas ajam contra o novo coronavírus.

Autonomia. A EBC controla 11 veículos, incluindo a TV Brasil, a Agência Brasil e várias estações de rádio. Em 2020, é previsto que o orçamento da empresa seja de R$ 652 milhões.

Sua diretoria é nomeada por decreto presidencial e hoje a empresa é presidida pelo general da reserva Luiz Carlos Pereira Gomes e tem Sirlei Batista como diretora de jornalismo.

Recentemente, a atuação da companhia na gestão Bolsonaro foi alvo de críticas quando a TV Brasil transmitiu um encontro de duas horas do presidente com líderes religiosos. Na ocasião, o relator da OEA (Organização dos Estados Americanos) para liberdade de expressão, Enzo Lanza, e a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) criticaram o que consideraram o uso do veículo para "proselitismo religioso".

O Aos Fatos entrou em contato por e-mail com a assessoria de imprensa da EBC, mas não havia recebido resposta até a publicação desta reportagem.

Referências:

1. Aos Fatos 1, 2 e 3
2. TV Brasil (Youtube)
3. Agência Brasil
4. UOL
5. Diário Oficial da União
6. Revista Época
7. Congresso em Foco
8. Portal da Transparência