TV Globo não orientou jornalistas a manipularem cobertura da pandemia

Por Priscila Pacheco

28 de abril de 2021, 16h46

Não é verdade que a TV Globo orientou seus jornalistas a manipularem informações da cobertura da pandemia de Covid-19, como alegam postagens nas redes sociais (veja aqui). As publicações afirmam que um ex-apresentador teria “vazado” diretrizes sigilosas da empresa para seus jornalistas, mas o documento usa um logotipo antigo, traz diretrizes com datas incoerentes e teve sua veracidade desmentida pela emissora.

As postagens contavam com centenas de compartilhamentos nesta quarta-feira (28) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação do Facebook (veja como funciona).


Vazou… Apresentador demitido pela Globolixo distribui a sinistra pauta da Covid-19. Vamos compartilhar nos grupos para que todos saibam como esses facínoras agem. By web

Não é verdadeiro um documento apresentado pelas postagens checadas como sigiloso e que elenca recomendações para a cobertura sobre Covid-19 na TV Globo. A lista de diretrizes falsamente atribuída ao jornalista Claudio Marques, atual editor-chefe do Jornal Hoje, apresenta uma série de indicadores que atestam tratar-se de peça de desinformação.

A carta tem data de 2020 mas cita desdobramentos da pandemia ocorridos em 2021, como a falta de oxigênio em Manaus e a escassez de drogas para intubação, além da lentidão na compra e na aplicação de vacinas, que foi iniciada somente em janeiro deste ano. Além disso, o logotipo da emissora que estampa o documento não é a versão atual, que foi adotada no fim do ano passado, e se assemelha aos que eram usados nos anos 2000.

A emissora se posicionou publicamente desmentindo o caso. Na nota, a empresa reforça seu compromisso com jornalismo de qualidade e frisa que as supostas recomendações de pautas são falsas.

Citada na carta com orientações datada de 2020, a crise da falta de oxigênio no Amazonas teve início em janeiro de 2021. Um mês depois, médicos alertaram sobre escassez de medicamentos para intubação. A campanha de vacinação só teve início no dia 17 de janeiro deste ano, logo após a Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) aprovar o uso emergencial da Coronavac e do imunizante Oxford/AstraZeneca.

Proibições. A peça de desinformação também engana ao afirmar que os jornalistas estariam proibidos de mencionar outras doenças ou mortes causadas por outras enfermidades que não a Covid-19, mas reportagens recentes da emissora vêm abordando esses temas.

Em julho, foi ao ar no Jornal Hoje uma matéria sobre o número de assassinatos ter sido 7% maior nos primeiros cinco meses do ano no Brasil em comparação com o mesmo período de 2019. São outros exemplos reportagens da Globo que mostraram o crescimento de 11% no assassinato de negros em dez anos e os impactos da pandemia no diagnóstico precoce do câncer de mama e no adiamento de cirurgias.

A emissora também noticiou suspeitas de fraudes de governos estaduais e prefeitura, o que, segundo as falsas diretrizes, seria proibido. Em maio, uma reportagem mostrou uma operação de busca e apreensão na casa do então governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), por conta de supostas fraudes na compra de respiradores e construção de hospitais de campanha. Em julho, a emissora revelou uma investigação relacionada a desvios de verbas para construção de hospitais de campanha em Aracaju, capital do Sergipe.

A desinformação também foi checada por Boatos.org, Estadão Verifica, Agência Lupa e G1.

Referências:

1. Aos Fatos
2. Rede Globo (Fontes 1, 2, 3, 4, 5 e 6)
3. G1
4. Nexo Jornal (Fontes 1 e 2)
5. Agência Brasil


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