Ian Sane

Tudo o que você precisa saber — e fazer — para sobreviver às discussões familiares no fim do ano

Por Luiza Bodenmüller e Bárbara Libório

23 de dezembro de 2019, 16h40


Quando o tio do pavê se transforma no tio da torta de climão e traz à mesa assuntos polêmicos, é hora de você colocar em prática o tradicional Guia Aos Fatos de Sobrevivência às Discussões Familiares. Aqui, selecionamos as checagens mais polêmicas do ano para que você tenha os argumentos necessários para enfrentar discussões sobre política durante a ceia de Natal.

Em 2019, trazemos uma novidade: além das checagens, recomendamos estratégias e dicas para você encarar conversas difíceis sem perder o equilíbrio. E, claro, sem espalhar desinformação.

Essa estratégia, porém, não ficará mais restrita ao fim do ano. A partir de agora, todo mês, a equipe do Aos Fatos vai publicar dicas baseadas nos princípios da comunicação não violenta, que serão enviadas exclusivamente a apoiadores do Aos Fatos Mais na newsletter Aos Fatos Mais Diálogoapoie e receba também. Vamos às sugestões:

1.

Não, o Brasil não é socialista.

Foi logo em seu primeiro discurso como presidente, na cerimônia de posse, que Jair Bolsonaro provocou questionamentos ao afirmar que o país começaria a se libertar do socialismo. Aos Fatos consultou especialistas, publicações históricas, obras clássicas e a Constituição Federal de 1988 para mostrar que não, o Brasil não é e nunca foi socialista.

Bolsonaro resgatou uma dicotomia entre capitalismo versus socialismo muito comum na Guerra Fria, mas que foi perdendo sentido após o fim da União Soviética e com a abertura de economias socialistas como a da China. Por exemplo, o último relatório do Banco Mundial que usa o conceito de socialismo para classificar economias é de 1987. Além disso, o artigo 170 da Constituição Federal estabelece que a ordem econômica do Brasil tem como princípios a propriedade privada e a livre concorrência, duas características essenciais de regimes capitalistas. Um marco de regimes socialistas que existiram na história, o unipartidarismo também não está previsto em nossa Constituição, que consagra o multipartidarismo.

Diante de alguém que insiste em dizer que o Brasil é socialista, o que fazer?

Esqueça os rótulos: Lembre-se que, na hora de empreender conversas sobre temas polêmicos como esse, mostrar os fatos em vez de desqualificar crenças é uma estratégia para, ao mesmo tempo, apresentar argumentos verdadeiros, restabelecer laços e voltar a ver a diferença como algo que complementa, e não que aparta.

Em primeiro lugar, combata a desinformação, não as pessoas. Observar sem rótulos é uma prática importante da comunicação não violenta. Evite o uso de adjetivos. Você pode dizer que não está conseguindo ver abertura para colocar suas opiniões de maneira que elas possam agregar em vez de rotular alguém de "teimoso". Tampouco diga que alguém é "cego". Em vez disso, pergunte quais são as barreiras que impedem a pessoa de levar em consideração o que você diz.

2.

A Venezuela que derramou óleo no Nordeste?

Como Aos Fatos contou, análises químicas no petróleo recolhido nas praias feitas pela Petrobras e pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) apontaram que o material foi produzido em campos da Venezuela. A conclusão levou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a insinuar que o governo de Nicolás Maduro poderia ter responsabilidade pelo derramamento, mas própria Marinha negou essa informação.

“O que se sabe pelos cientistas é que o petróleo é de origem venezuelana. Não quer dizer que houve, em algum momento, envolvimento de qualquer setor responsável, tanto privado quanto público, da Venezuela nesse assunto”, disse o comandante da Marinha do Brasil, almirante Ilques Barbosa Júnior.

Em uma segunda frente da investigação, estimou-se onde a mancha teria começado, com base em análise de imagens de satélites e estudos das correntes marítimas feitos com ajuda da empresa Hex Tecnologias Geoespaciais. Finalmente, essas informações foram cruzadas com dados do tráfego de navios na região, e os investigadores concluíram que o navio petroleiro grego Bouboulina, da Delta Tankers, era o único que havia passado no local na data estimada do derramamento.

As investigações, no entanto, ainda não foram concluídas. Técnicos da Universidade Federal de Alagoas e de uma empresa especializada em derramamentos dos EUA contestaram as conclusões dos investigadores. A Delta Tankers nega envolvimento no desastre.

Se ainda assim, a conversa gerar conflitos e não consenso...

Crie um terreno comum: Antes de corrigir alguém, identifique suas afinidades com essa pessoa. Ao falar sobre o derramamento de óleo no litoral, por exemplo, diga primeiro o quanto esse assunto também é importante para você e como a proteção da natureza brasileira lhe é cara. Fale também sobre sua preocupação e revolta com o fato de que a resposta do poder público não foi eficiente e que ainda não houve identificação e punição dos responsáveis pelo desastre, ou sobre como os voluntários foram essenciais para que o óleo fosse recolhido das praias.

Outra maneira de criar um terreno em comum é demonstrando que você entendeu o que a outra pessoa disse — ainda que não concorde com seus argumentos. Aceitem discordar. Quando você demonstra que compreendeu o que a outra pessoa disse, é mais provável que a ela deixe você falar também.

3.

Se o governo tivesse cobrado os devedores da Previdência não precisaria de reforma as regras das aposentadorias?

Não, não é tão simples assim. Conforme explicou Aos Fatos, 60% das dívidas previdenciárias são de baixa possibilidade de recuperação — referentes à empresas extintas ou falidas — e 40% de alta ou média chance: R$ 190 bilhões. Logo, ainda que fosse paga integralmente, essa parcela recuperável não seria suficiente para cobrir o déficit do Regime Geral de Previdência Social, de 2019, que deve alcançar 218 bilhões.

Além disso, o dinheiro da dívida é pago apenas uma vez, enquanto déficit continua nos anos seguintes, em 2020, por exemplo, a previsão é que o saldo de entre receita e despesa fique negativo em R$ 244 bilhões.

Para ajudar saber mais sobre a Previdência, você pode ler (ou recomendar para seus parentes e amigos) outros conteúdos publicados por Aos Fatos em 2019 sobre o tema. Tem um resumo das novas regras das aposentadorias, desenhamos de onde vem o dinheiro das aposentadorias e falamos sobre a situação da Previdência nos estados, assunto que deve ser tema da ceia de natal de 2020.

Há assuntos que mexem com a crença das pessoas. Em vez de desqualificar a crença do outro...

Seja paciente. Sabemos que a desinformação se espalha em grande medida quando ela é aderente às crenças de alguém. Mas tente focar em argumentos lógicos e racionais, apresente dados, fatos, notícias e, quando possível, convide seu interlocutor a fazer a busca e a checagem por conta própria. Vocês podem tentar fazer isso juntos também.

Indique sites de checagem. Se não for suficiente, ou se a pessoa não confiar o bastante, cruze as informações dos sites de checagem com os de outros sites de jornalismo porfissional. Se mesmo assim não for suficiente, explique por que é importante prestar atenção às fontes de uma pesquisa, coloque-se à disposição para distinguir o que é verdade e o que é falso ou enganoso -- e, sobretudo, tenha paciência com as limitações do outro.

Lembre-se: o objetivo de uma boa conversa é a troca. O movimento contínuo de ofertar e receber que estabelece uma das mais ricas experiências humanas. Querer impor sua visão de mundo, sua opinião, é se distanciar desse objetivo. Tenha isso em mente.

4.

Não, o artigo 142 da Constituição não permite que Bolsonaro decrete intervenção militar

Em junho, com as manifestações pró-governo, uma série de publicações nas redes sociais passaram a reivindicar que o presidente Jair Bolsonaro decretasse uma “intervenção militar constitucional” com base no artigo 142 da Constituição. O pedido, porém, partia de uma leitura distorcida do texto, que determina as funções das Forças Armadas, mas não prevê qualquer possibilidade de tomada do poder pelos militares.

Aos Fatos mostrou que o artigo 142 — ou qualquer outro trecho da Constituição — não permite a possibilidade de uma intervenção militar, restringindo-se a diretrizes sobre o funcionamento das Forças Armadas. Mesmo que conclamados pelo presidente, os militares não poderiam, dentro da lei, determinar o fechamento da Câmara, do Senado, do STF (Supremo Tribunal Federal) e de outros tribunais. Hoje, as intervenções federais previstas na Constituição dependem de autorização do Legislativo.

Se diante dos fatos alguém insistir nesse ponto...

Escolha suas batalhas: Lembre-se que é mais fácil corrigir um fato do que fazer alguém mudar de opinião. Ainda que discutir a intervenção militar lhe pareça mais instigante, demonstrar que o presidente não pode decretá-la com base na Constituição é mais eficiente.

Mas, para isso, é claro, você precisa realmente ter conhecimento sobre o tema. Dito isso, concentre-se em corrigir as desinformações que você sabe que tem provas para demonstrar, mesmo que não sejam as que mais te interessam.

5.

As queimadas aumentaram mesmo em 2019?

Infelizmente aumentaram. De janeiro a 22 de dezembro, pode-se realmente dizer que o número de focos de incêndio detectados na Amazônia aumentou 1,3 vez entre 2018 e 2019. Enquanto nesse período em 2018 foram registrados 68.345 pontos, em 2019 foram detectados 88.876 no mesmo período, de acordo com dados do Inpe.

Nos meses de setembro e outubro, os focos de incêndio caíram em decorrência da operação da GLO (Garantia da Lei e da Ordem) na região, mas voltaram a subir em novembro.

O governo tentou explicar o aumento das queimadas culpando ONGs sem apresentar nenhum tipo de material que comprovasse as acusações. O presidente Jair Bolsonaro apresentou narrativas que beiravam a teorias da conspiração sobre as possíveis causas do problema.

Inicialmente, Bolsonaro atribuiu o avanço do fogo ao corte de verbas imposto às ONGs da região pelo Fundo da Amazônia, mesmo sem que os recursos tivessem sido cortados. O que realmente houve foi congelamento de repasses da Alemanha e da Noruega por discordarem da mudança nas regras da gestão do fundo proposta pelo governo.

Depois o presidente passou a repetir que as ONGs faziam parte de um conlui para ameaçar a soberania brasileira na Amazônia. Para defender esse ponto ele errou ao afirmar que não haviam ONGs internacinacionais no semi-árido nordestino, o que não é verdade.

As evidências e os dados provam o contrário, ainda assim a pessoa teima em negar a realidade?

Dê o benefício da dúvida: No início de uma conversa, pode parecer bastante difícil entender o que leva alguém a acreditar tão veementemente em uma informação que para você não faz o menor sentido. Se os fatos estão ali, por que ainda é preciso esforçar-se para fazer o outro acreditar? Essa falta de empatia é justamente o que te faz, logo de cara, afastar-se dessa pessoa. Mas e se você der a ela o benefício da dúvida?

Reflita por que seu familiar ou amigo está agindo dessa maneira ou de que forma esse assunto o toca. Talvez ele esteja estressado com algo que você desconhece. Talvez seja uma resposta a algum medo ou vulnerabilidade. Pense nisso.

6.

Greta Thunberg é neta do George Soros?

Definitivamente não. É falso que a ativista sueca Greta Thunberg é neta do investidor bilionário húngaro George Soros. Os avôs dela são, na verdade, Olof Thunberg e Lars Ernman, genitores, respectivamente, de Svante Thunbeng e Malena Ernman, os pais de Greta.

A associação de personalidades e defensores de causas progressistas a Soros é um argumento frequente entre conservadores, pois a sua fundação costuma fazer doações para projetos voltados a direitos humanos e meio ambiente. Porém, esse não é o caso de Greta: Aos Fatos não encontrou o nome dela nem do seu movimento Fridays For Future entre os beneficiados pelos recursos da organização.

Greta foi alvo de diversas campanhas de desinformação, mas antes de sair em sua defesa...

Escute: Sabemos que pode ser difícil, mas a escuta é a parte mais importante da conversa. Antes de começar a buscar no Google as informações para refutar o seu interlocutor sem que ele tenha acabado de falar, faça perguntas para compreender o outro. Em nenhum momento tente educá-lo ou mostrar-se superior.

Se você entra numa conversa já pensando na resposta sem antes ouvir atentamente o que a outra pessoa está falando, talvez seja o caso de repensar a sua posição. E não adianta apenas desqualificar o que foi dito; é preciso ouvir — e ouvir com todos os sentidos. Preste atenção aos gestos, às expressões, às palavras escolhidas, ao tom da voz: todos esses elementos irão te ajudar a entender a fala do outro e formular uma resposta. Ou mesmo silenciar, se for o caso.

Colaboração de Ana Rita Cunha