Não é verdade que Donald Trump tenha dito que o presidente Lula (PT) não vai disputar mais as eleições, como alegam postagens nas redes sociais. Aos Fatos fez buscas nos canais oficiais do governo americano e na imprensa nacional e internacional e não encontrou declaração similar dita pelo mandatário americano até o momento.
Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos 250 mil visualizações no TikTok e no YouTube até a tarde desta sexta-feira (17).
O LULA NÃO VAI CONCORRER NA ELEIÇÃO NUMCA MAIS DIZ TRUMP!

Posts nas redes têm compartilhado um discurso antigo de Donald Trump para fazer crer que ele disse que o presidente Lula "nunca mais vai disputar outra eleição". Mas isso não é verdade.
Por meio de busca reversa, Aos Fatos localizou a gravação original, feita em 3 de janeiro, na qual Trump detalha a operação militar americana que resultou na prisão de Nicolás Maduro. Não há qualquer menção ao presidente brasileiro.
Na ocasião, o republicano classificou a ação como uma "façanha militar incrível" e afirmou ter acompanhado a detenção do ex-líder venezuelano em tempo real.
Em nenhum momento da entrevista, Trump faz qualquer declaração sobre impedir que o presidente brasileiro dispute novas eleições. Veja abaixo o trecho completo utilizado nos posts desinformativos:
“Na noite passada e nas primeiras horas de hoje, por minha determinação, as Forças Armadas dos Estados Unidos realizaram uma extraordinária operação militar na capital da Venezuela. Foi empregado um poder militar americano esmagador — por ar, terra e mar — para lançar um ataque espetacular. Foi um ataque como as pessoas não viam desde a Segunda Guerra Mundial. A ofensiva teve como alvo uma fortaleza militar fortemente protegida no coração de Caracas, com o objetivo de levar o ditador fora da lei Nicolás Maduro à Justiça. Esta foi uma das demonstrações mais impressionantes, eficazes e poderosas da força e da competência militar americana na história dos Estados Unidos. E, se pensarmos bem, também realizamos outras operações bem-sucedidas, como o ataque contra Soleimani [Qassem Soleimani, general iraniano], a operação contra al-Baghdadi [líder do Estado Islâmico morto na Síria em 2019] e a destruição e devastação das instalações nucleares do Irã, mais recentemente, na operação conhecida como Martelo da Meia-Noite. Todas essas operações foram executadas com perfeição. Nenhum país do mundo seria capaz de realizar o que os Estados Unidos realizaram ontem ou, francamente, em um período tão curto de tempo. Toda a capacidade militar venezuelana foi neutralizada, enquanto os homens e mulheres de nossas Forças Armadas, trabalhando em conjunto com os Estados Unidos.”
Em buscas nos canais oficiais da Casa Branca e na imprensa brasileira e internacional, Aos Fatos não localizou nenhuma declaração de Trump sobre Lula disputar as eleições ou não.
Delação. As publicações também sugerem, sem provas, que a suposta ameaça de Trump teria ocorrido após Nicolás Maduro "entregar Lula" em uma delação às autoridades americanas.
Não há qualquer registro de que Maduro tenha firmado um acordo de colaboração ou prestado depoimento incriminando o petista na imprensa, em documentos da Justiça ou em canais oficiais do governo dos Estados Unidos.
O venezuelano não se pronuncia publicamente desde 5 de janeiro, quando ele e a esposa compareceram a um tribunal de Nova York para serem formalmente indiciados. Ambos se declararam inocentes das acusações de narcoterrorismo e tráfico de drogas.
Na ocasião, Maduro afirmou ser o "presidente em exercício da Venezuela", declarou-se "sequestrado" pelos Estados Unidos e disse considerar-se um "prisioneiro de guerra".
Em 26 de março, Maduro compareceu novamente ao mesmo tribunal, mas não fez declarações públicas.
Narrativa recorrente. Esta não é a primeira vez que publicações falsas atribuem a Maduro uma suposta delação envolvendo autoridades brasileiras. Aos Fatos já desmentiu alegações de que:
- O jornal New York Times teria divulgado um depoimento no qual o venezuelano incrimina Lula e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes;
- Maduro teria denunciado Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli por receberem R$ 38 milhões para impedir investigações da Polícia Federal sobre um suposto esquema de narcotráfico ligado ao Foro de São Paulo.
Esta peça de desinformação também foi checada pela Reuters.
O caminho da apuração
Aos Fatos realizou uma busca reversa pelo vídeo e localizou a o discurso original, feito em 3 de janeiro.
Com auxílio do aplicativo Escriba, a reportagem comparou o discurso completo com os trechos compartilhados nas redes e verificou que Trump comentava a operação que resultou na prisão de Maduro, sem qualquer menção a Lula.
Também foram consultadas informações da imprensa e da Justiça americana, como os canais oficiais do Departamento de Justiça, do FBI e da Procuradoria do Distrito Sul de Nova York, onde Maduro está detido.





