Trump não disse que Lula é um ‘escândalo ambulante’

Não é verdade que Donald Trump fez um discurso em que disse que o presidente Lula é “um escândalo ambulante” que “tem zero respeito pelo povo”. O vídeo em que o mandatário americano supostamente faz essas declarações foi manipulado por IA. Um áudio falso foi inserido por cima da fala original, feita em março de 2025 contra o atendimento médico especializado para pessoas trans menores de idade.

Esta peça de desinformação acumulava ao menos 40 mil visualizações no X e 15 mil views no TikTok nesta quinta-feira (18). Ela circula ainda no WhatsApp, onde não é possível medir precisamente o alcance.

Lula, o cara é um escândalo ambulante. Corrupção, mentiras e zero respeito pelo povo. Enquanto os brasileiros estão lutando para sobreviver, ele está voando por aí, apertando as mãos, agindo como uma estrela global. Ele não é um líder, é um showman, e um showman ruim. A única coisa em que ele é bom é enganar o povo

A imagem mostra Donald Trump, um homem de pele clara e cabelos loiros, falando ao microfone em um ambiente oficial, visto da cintura para cima. Ele usa terno escuro, camisa branca e gravata escura. Ao fundo aparecem faixas verticais vermelhas e claras e partes de duas poltronas marrons. Sobre a imagem há duas tarjas pretas com texto branco: na parte superior lê-se 'Trump Detonou LULA'; na parte inferior, 'Lula o cara é um escândalo ambulante'. A foto tem formato vertical e apresenta leve desfoque nas bordas laterais.

Posts nas redes têm compartilhado um vídeo com uma dublagem falsa para fazer crer que o presidente americano criticou Lula, chamando-o de “um escândalo ambulante” e de “um showman ruim”.

A gravação original foi feita em 5 de março de 2025 durante uma sessão conjunta no Congresso americano e não tem relação com Lula ou com o Brasil. Nela, Trump se posiciona a favor de um projeto para banir o atendimento médico especializado a pessoas trans menores de idade.

No trecho da declaração que agora circula modificada, transcrita pela ferramenta Escriba o americano afirma que:

“Meu governo também está trabalhando para proteger nossas crianças de ideologias nocivas em nossas escolas. (...) E agora quero que o Congresso aprove uma lei que proíba permanentemente e criminalize mudanças de sexo em crianças, encerrando de uma vez por todas a ideia de que qualquer criança está presa no corpo errado.”

Em buscas na imprensa e em perfis oficiais nas redes, Aos Fatos não localizou críticas diretas de Trump a Lula desde que o republicano tomou posse e retornou à Casa Branca.

É fato, porém, que o presidente americano criticou a situação política do Brasil durante uma entrevista à imprensa nesta quarta-feira (17), após a cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França.

Ao ser questionado se teria se reunido com Lula para tratar de tarifas e da classificação das facções como terroristas, Trump respondeu que sim e disse que passou bastante tempo com o petista. Na sequência, ele afirmou que o Brasil se tornou um país “um pouco complicado” e “um pouco perigoso” politicamente.

“Tem sido desagradável. Ouvi dizer que prenderam alguém que está concorrendo a um cargo hoje. Fiquei sabendo disso depois que saímos. Eu tinha acabado de me despedir dele [Lula] e ouvi dizer que prenderam o Bolsonaro Jr. Ele estava indo bem nas pesquisas, e o prenderam porque ele deu uma declaração no Texas. Prenderam ele, ou querem prender ele”, disse o americano, aparentemente confundindo os filhos do ex-presidente.

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), de fato, foi condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) na terça (16) por tentativa de interferir no julgamento da trama golpista e de promover retaliações estrangeiras contra magistrados e contra o Brasil. Porém, o pré-candidato presidencial é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que aparece hoje em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto.

Trump finalizou sua resposta dizendo que “eles [Brasil] jogam bem pesado, mas ninguém joga mais pesado que os Estados Unidos. Olha, as nossas eleições são totalmente fraudadas. Nós temos eleições fraudadas”.

O posicionamento na entrevista desta quarta-feira marca um ponto de virada na relação entre os dois presidentes. Apesar do tarifaço e das sanções impostas a ministros do STF e integrantes do governo, Lula e Trump vinham demonstrando simpatia mútua desde o ano passado.

Durante discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) no ano passado, Trump falou sobre as tarifas e criticou o Brasil por “censuras” e “perseguições políticas”, mas logo em seguida disse que não gostava de estar falando isso por ter encontrado e simpatizado com o Lula:

“Não tivemos muito tempo para conversar, mas conversamos um pouco — foi uma boa conversa — e concordamos em nos reunir na próxima semana (...). Mas ele pareceu ser um homem muito simpático, na verdade. Nós... ele gostou de mim; eu gostei dele. (...) Tivemos, pelo menos durante cerca de 39 segundos, uma química excelente. É um bom sinal”, afirmou.

Em outubro, Trump afirmou ter tido uma “conversa muito boa” com Lula por telefone. Na ocasião, os dois discutiram as tarifas impostas aos produtos brasileiros e concordaram em manter as negociações comerciais.

Já no dia 26 de outubro, o americano registrou em suas redes sociais um encontro com Lula em Kuala Lumpur, na Malásia, e declarou: “É uma grande honra estar com o presidente do Brasil. Acredito que seremos capazes de fazer bons acordos para os dois países. Nós sempre tivemos boas relações. Acredito que isso vai continuar.”

Em entrevista após a reunião, o americano acrescentou que tinha "muito respeito" pelo presidente brasileiro e que acreditava que a relação entre os dois países seria muito boa.

O americano classificou ainda como "ótima" uma conversa telefônica que teve com Lula sobre comércio bilateral em dezembro e disse estar ansioso para reencontrá-lo. Segundo ele, "muita coisa boa resultará desta parceria recém-formada".

Os dois presidentes voltaram a se reunir no dia 7 de maio deste ano na Casa Branca. Após o encontro, que durou cerca de três horas, Trump se referiu a Lula como “o presidente muito dinâmico do Brasil”.

O caminho da apuração

Por meio de busca reversa, Aos Fatos encontrou a gravação original feita em 5 de março de 2025. O vídeo foi transcrito com o auxílio da ferramenta Escriba, levando à constatação de que o discurso não fazia nenhuma menção a Lula ou ao Brasil.

Aos Fatos fez então buscas na imprensa e nas redes para verificar todas as vezes que Trump mencionou Lula.

A checagem foi complementada com informações da imprensa sobre o discurso de Trump no G7 e sobre a condenação de Eduardo Bolsonaro pelo STF.

Referências

  1. YouTube (Forbes Breaking News)
  2. Escriba
  3. g1 (1 e 2)
  4. The American Presidency Project (1, 2 e 3)
  5. Agência Brasil (1, 2 e 3)
  6. FBI não pediu prisão de Flávio Bolsonaro

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