Texto que acusa China de criar coronavírus para obter vantagem econômica reúne informações falsas

Por Amanda Ribeiro

3 de abril de 2020, 18h00


Uma corrente que vem sendo compartilhada nas redes sociais lança mão de uma série de informações falsas para dizer que a China teria criado o novo coronavírus como uma arma biológica para garantir hegemonia na economia mundial. A peça de desinformação (veja aqui) engana ao afirmar, por exemplo, que o vírus não chegou às principais cidades do país, Pequim e Xangai, e que os chineses não têm sofrido o impacto econômico da pandemia.

Um resumo do que checamos:

1. Não é verdade que Pequim e Xangai não registraram casos de Covid-19. Até o momento, foram 582 e 522 casos da doença nas cidades, respectivamente.

2. Também é falso que Pequim não adotou regras de isolamento social. Entre janeiro e fevereiro, no pico do surto do novo coronavírus no país, autoridades da cidade determinaram o fechamento de museus, teatros, bares e templos, e a população foi orientada a ficar em casa. Atualmente, quem chega de outros países tem sido submetido à quarentena obrigatória porque o número de casos importados tem crescido;

3. Da mesma maneira, não é verdade que Xangai não adotou medidas contra aglomerações. Durante o auge do surto (janeiro e fevereiro), foi determinado o fechamento de de estabelecimentos de serviços não-essenciais, a restrição de circulação de pessoas e veículos, o uso compulsório de máscaras e a orientação de permanecer em casa o máximo possível. Atualmente, devido ao aumento no número de casos importados, foi determinada a quarentena de 14 dias para estrangeiros;

4. Também não é verdade que Pequim e Xangai sejam próximas a Wuhan. No primeiro caso, a distância é de cerca de 1.100 km por vias terrestres; no segundo, em torno de 800 km.

5. Por mais que a China tenha, de fato, anunciado que venceu o surto de Covid-19, é falso que as atividades econômicas do país já tenham sido plenamente retomadas. Há casos de cidades com atrações turísticas suspensas e centros culturais e de entretenimento, como cinemas, cafés e bares, fechados.

6. A economia chinesa tem, sim, sentido os efeitos econômicos do surto, diferentemente do que afirma a peça de desinformação. Os principais índices da bolsa de valores do país, CSI 300 e Xangai composto, caíram 8,7% e 6,4% apenas em março, respectivamente.

7. Por fim, é verdade que autoridades de Wuhan anunciaram que a cidade deve retomar suas atividades a partir do dia 8 de abril. Porém, a peça de desinformação omite que a região esteve completamente fechada desde o dia 23 de janeiro, com os cidadãos isolados e oficiais patrulhando as ruas para impedir a desobediência a regras de quarentena.

A corrente enganosa tem circulado principalmente no WhatsApp, por onde foi enviada ao Aos Fatos como sugestão de checagem (inscreva-se aqui). No Facebook, postagens do tipo acumulam cerca de 1.000 compartilhamentos nesta sexta-feira (3) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de monitoramento da rede social (saiba como funciona).


FALSO

...esse vírus não atingiu a capital da China, Pequim, e a capital econômica, Xangai…

A informação é FALSA, porque há, sim, casos de Covid-19 registrados em Pequim e Xangai. De acordo com dados da pandemia fornecidos pela plataforma da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, foram registrados até o momento 582 infecções e oito mortes em Pequim. Em Xangai são 522 infectados e seis mortos.

É verdadeiro, no entanto, que a cidade de Wuhan é apontada como o foco inicial de disseminação do novo coronavírus no mundo. Em 31 de dezembro de 2019, a OMS (Organização Mundial da Saúde) foi alertada por autoridades chinesas sobre um surto de pneumonia na região de Wuhan. Parte considerável dos primeiros pacientes reportados trabalhava no mercado de animais exóticos de Huanan, que foi fechado no dia 1º de janeiro. A província de Hubei, onde Wuhan está localizada, havia registrado cerca de 67 mil casos de Covid-19 até o dia 2 de abril.


FALSO

(...) não há isolamento em Pequim! Está aberto! Corona não tem efeito lá, por quê...?

Não é verdade que Pequim tenha ficado aberta mesmo com o surto do novo coronavírus no país. Entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, autoridades determinaram o fechamento de lojas, teatros, museus, cinemas, templos e bares. A população foi orientada a evitar qualquer tipo de aglomeração e a permanecer em casa. Alguns estabelecimentos passaram a conferir a temperatura de clientes, outros proibiram a entrada de quem não estivesse com máscara. O transporte público, apesar de mantido em funcionamento, foi esvaziado.

A cidade também tem endurecido as regras de quarentena ao longo das últimas duas semanas em razão do aumento no número de infecções em pessoas vindas de outros países. No dia 15 de março, Pequim determinou que quem viesse do exterior deveria ser submetido a uma quarentena obrigatória de 14 dias em acomodações pagas pelo governo. Medidas de isolamento de estrangeiros já haviam sido tomadas em fevereiro, quando começaram a surgir os primeiros casos da doença.

A prefeitura de Pequim também passou a usar um aplicativo que ajuda a monitorar o estado de saúde de pacientes e que indica quem deve permanecer em casa. Se pessoas que deveriam estar em observação são encontradas na rua, autoridades de segurança acionam o centro de controle de saúde da região ou a residência do indivíduo.


FALSO

(..) não há bloqueio lá [em Xangai]. O corona não teve efeito lá. Por quê...?

Com a diminuição de novos casos de Covid-19 na China, Xangai não está mais adotando medidas rígidas de isolamento. Mas não é verdade que elas não tenham sido tomadas no auge do surto no país.

De acordo com o South China Morning Post, foram adotadas na cidade medidas como o fechamento de estabelecimentos de prestação serviços não-essenciais, restrições de circulação de pessoas e veículos, uso compulsório de máscaras e a orientação de permanecer em casa o máximo possível.

Em relato publicado na revista Época, a jornalista e residente da cidade Tamires Lietti conta que as férias escolares de Xangai foram estendidas e escolas, universidades e centros de ensino foram fechados em fevereiro. Por mais que alguns restaurantes tenham continuado abertos com opções de delivery, entregadores foram proibidos de entrar em condomínios, para evitar a contaminação. Os meios de transporte, mesmo que em funcionamento, registraram uma baixa no número de usuários. Nos aeroportos, grande parte dos voos foi cancelada e companhias aéreas interromperam suas atividades.

É importante ressaltar, ainda, que Xangai é considerada um caso de sucesso na China para o tratamento e o diagnóstico de pacientes com Covid-19. Equipes de saúde passaram a ser treinadas desde o início de janeiro para lidar com uma possível epidemia e foi realizada uma investigação ostensiva de casos suspeitos. Também foram adotados como estratégias a testagem massiva e o isolamento de pacientes com quadros graves.

Mais recentemente, com o início do registro de casos importados da doença, a prefeitura anunciou no dia 26 de março que todos os viajantes que chegarem à cidade devem passar por um período de quarentena obrigatória de 14 dias para evitar um novo crescimento no número de infecções pelo novo coronavírus. No dia anterior, autoridades locais haviam confirmado 109 casos importados de outros países, em especial do Reino Unido e dos Estados Unidos.


FALSO

Pequim e Xangai são as áreas adjacentes a Wuhan!

Não é verdade que as cidades de Pequim e Xangai estejam próximas a Wuhan. No primeiro caso, a distância é de cerca de 1.100 km por vias terrestres; no segundo, de cerca de 800 km.


FALSO

A economia [de outros países] está paralisada, mas todas as principais cidades da China estão funcionando normalmente

Por mais que a China tenha de fato anunciado a diminuição no número de casos de Covid-19 no país, não é verdade que todas as suas principais cidades estejam funcionando plenamente. Segundo relata o Guardian, cinemas que foram reabertos depois do anúncio do governo, por volta do dia 20 de março, foram obrigados a fechar novamente uma semana depois, devido à notícia de que uma possível segunda onda de infecções estaria chegando ao país.

Na cidade de Xangai, atrações turísticas foram suspensas; em Jinzhou, boates, karaokês, cafés e quaisquer outras atrações que possam gerar aglomerações não puderam reabrir. Na província de Sichuan, foi ordenado que todos os espaços de entretenimento fossem fechados. Em Pequim, apesar de o comércio estar reabrindo aos poucos, algumas escolas permanecem fechadas e a checagem de temperatura de clientes na entrada de estabelecimentos comerciais permanece.


FALSO

Também não há efeito significante desse vírus no mercado chinês...

A declaração, que já foi checada por Aos Fatos em outra peça de desinformação, também não procede. Principais índices da bolsa de valores do país, o CSI 300, que reúne as maiores empresas da bolsa de Xangai e Shenzhen, e o Xangai composto, registraram queda de 8,84% e - 8,83% pontos desde o dia 31 de dezembro, data da notificação da OMS, respectivamente.

Também é importante mencionar que os dados econômicos do país no primeiro bimestre mostraram uma diminuição de 38,3% no lucro das indústrias, de 20,5% nas vendas do varejo e de 24,5% em investimentos ativos fixos em comparação com o mesmo período do ano anterior.


VERDADEIRO

(...) e, a partir de 8 de abril, a China também está abrindo Wuhan!

De fato, foi anunciado que a cidade de Wuhan, epicentro da crise na China, começará a suspender as medidas de restrição e isolamento social a partir de 8 de abril. Em comunicado publicado na rede social Weibo, autoridades da província de Hubei, onde Wuhan está localizada, afirmaram que restrições de entrada, saída e circulação dentro da cidade seriam suspensas.

O que a peça de desinformação omite, no entanto, é que a cidade esteve completamente fechada por mais de 70 dias, desde 23 de janeiro, devido ao alto número de casos de registrados. Os cerca de 11 milhões de moradores da cidade ficaram confinados em suas casas, com autorização para sair a cada 72 horas para comprar suprimentos e remédios. Autoridades policiais também realizaram ações de patrulhamento nas ruas para evitar que pessoas desrespeitassem as regras de isolamento.

Referências:

1. Al Jazeera
2. Johns Hopkins
3. South China Morning Post
4. New York Times (Fontes 1, 2, 3 e 4)
5. Reuters
6. Asian Review
7. Bloomberg
8. Época
9. The Guardian